“Vasco: o dia inicial, inteiro e limpo”

por Ana Amélia Guimarães Professora

Cem anos se passaram, a 3 de maio, sobre o nascimento de Vasco Gonçalves. Os media e os “portugueses de bem” ignoraram ostensivamente a data. É normal… e se falassem seria para bolsar a cassete da «ameaça comunista».

Vasco Gonçalves foi primeiro-ministro entre junho de 1974 e setembro de 1975: um período curto, mas intenso, em que emergiu como um revolucionário íntegro e corajoso.

O nome de Vasco Gonçalves confunde-se com a Revolução de Abril, da qual foi um dos mais destacados e empenhados protagonistas. É a sua assinatura que se encontra nos decretos governamentais que consagram as mais avançadas conquistas revolucionárias: a nacionalização da banca, dos seguros e de outros sectores estratégicos da economia, a instituição da Reforma Agrária, a criação dos subsídios de desemprego e de Natal para reformados e pensionistas, e da licença de parto, a suspensão dos despedimentos sem justa causa e a garantia dos direitos à greve e à negociação colectiva; o estabelecimento legal da liberdade de associação e de atividade dos partidos políticos.

Foi também nos governos de Vasco Gonçalves que o salário mínimo nacional (criado logo em Maio de 1974) subiu consideravelmente, que se melhorou o regime de proteção social dos trabalhadores agrícolas, que foram tomadas importantes medidas de carácter social, nas áreas do ensino – com as campanhas de alfabetização, da saúde – caso do envio de médicos para a periferia e da habitação, com o início da erradicação das barracas, onde à data da Revolução vivia mais de um milhão de portugueses.
Estas conquistas não foram obra de um homem só. Foi o próprio Vasco Gonçalves quem, no I Congresso da Intersindical, em Julho de 1975, o realçou: «Não foram só os militares que fizeram o que hoje está feito em Portugal. Foram vocês, foram as classes trabalhadoras, em aliança estreita com os militares, que o fizeram e isso já vinha de trás.».

Em 2005, aquando do seu falecimento, o então deputado do PCP Agostinho Lopes lembrou o silêncio da Assembleia da República, afirmando: «Não decretaram dia de luto nacional na tua morte, General Vasco Gonçalves. E por uma vez, pelos piores motivos, tiveram razão. O povo que te amava queria que esse luto, essa dor, essas lágrimas lhe pertencessem. Que ninguém as decretasse em seu nome. Que nenhuma página do Diário da República decidisse do que cabia a si decidir. (…) Não choraremos bastante este homem bom, generoso, para quem a Pátria portuguesa tem uma enorme dívida de gratidão! Que a sua figura de cidadão exemplar, de patriota íntegro, a sua inteireza de carácter, a sua extraordinária dimensão humana, possam servir de exemplo aos jovens portugueses.».

Aqui fica a minha gratidão.

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