Vítor Coelho | O maior poder não é dominar, é construir um futuro para todos

Há frases que resumem um discurso. Outras acabam por resumir uma vida. No seu último discurso de abertura da Assembleia Geral das Nações Unidas, depois de dez anos como Secretário- -Geral, António Guterres deixou uma dessas frases. Disse que o maior poder não é o poder de dominar. É “o poder de construir um futuro que funcione para todos”. Talvez não haja melhor forma de resumir o seu percurso. E dificilmente haverá melhor ponto de partida para pensarmos a política de hoje.

@ Vitor Coelho

Guterres conheceu o poder de muitas formas. Conheceu-o dentro de um partido, primeiro como homem das disputas internas e depois como líder. Conheceu- -o como primeiro-ministro, governando mais de seis anos sem maioria absoluta. Conheceu a derrota e soube sair quando deixou de ter condições para continuar. Conheceu a força das grandes potências na luta por Timor-Leste, a fragilidade de milhões de pessoas quando dirigiu o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados e, durante uma década, conheceu melhor do que quase ninguém o poder e a impotência da comunidade internacional. Viu guerras começar sem as conseguir parar. Viu o direito internacional ser desafiado por aqueles que deveriam ser os primeiros a defendê-lo. Viu milhões de pessoas obrigadas a abandonar as suas casas, as desigualdades a crescer, a emergência climática e agora uma revolução tecnológica que mudará as nossas vidas. E, depois de tudo isto, não terminou a dizer que precisamos de homens mais fortes. Disse que precisamos de exercer melhor o poder.

É uma diferença enorme. Não vale a pena transformar António Guterres numa personagem sem contradições. Não o foi. Nenhum político com mais de cinquenta anos de vida pública poderia sê-lo. Tomou decisões discutíveis, fez compromissos e viveu aquela tensão permanente entre os princípios que defendemos e as circunstâncias em que somos obrigados a decidir. É precisamente por isso que esta frase ganha tanta força. Não foi dita por quem observou o poder de fora. Foi dita por alguém que o exerceu e que conheceu os seus limites.

Há no percurso de Guterres três dimensões com as quais me identifico particularmente: uma visão socialista, humanista e cristã da sociedade. Não como rótulos, mas como forma de olhar para os outros, de acolher. Socialista porque acredito que a liberdade não pode depender do lugar onde nascemos, da família que tivemos ou do dinheiro que temos no bolso. A desigualdade não é apenas uma diferença de rendimento. É uma diferença de oportunidades, de acesso à educação, à saúde, à habitação, ao trabalho, à possibilidade de escolher uma vida. Não é por acaso que foi num governo de Guterres que nasceu o Rendimento Mínimo Garantido. O socialismo democrático em que acredito não pretende que todos sejam iguais. Pretende que ninguém fique condenado à partida.

Humanista porque por detrás das grandes palavras da política existem sempre pessoas concretas. Uma guerra é uma família que foge. Uma crise económica é alguém que deixa de conseguir pagar a casa. Guterres passou dez anos entre refugiados antes de passar dez anos entre chefes de Estado, e isso explica parte da sua forma de olhar para o mundo. A política perde sentido quando deixa de ver pessoas e começa apenas a ver números, grupos ou problemas. E há também uma dimensão cristã que nunca considerei incompatível com a esquerda. Pelo contrário. Foi por aí que Guterres, muito antes da política, chegou aos bairros pobres de Lisboa. Não falo de religião no Estado, que deve ser laico e respeitar todos. Falo de uma ética muito simples, cada pessoa tem dignidade, independentemente daquilo que possui, daquilo em que acredita ou daquilo que pode oferecer em troca. Uma sociedade mede-se também pela forma como trata os mais frágeis.

É aqui que aquela frase deixa de ser apenas uma frase dita em Nova Iorque. É também sobre Portugal. E é também sobre Guimarães. Porque o poder não existe apenas entre presidentes, primeiros-ministros e grandes potências. Existe numa Câmara Municipal, numa Junta de Freguesia, numa escola, numa associação. Existe em cada decisão sobre uma rua, uma casa, um transporte, um rio, um serviço público ou um orçamento. E em todas estas escalas podemos fazer a mesma pergunta; para que queremos o poder? Para ocupar lugares ou para transformar alguma coisa? Para distribuir cargos ou oportunidades? Para administrar aquilo que existe ou para deixar alguma coisa melhor do que aquilo que encontrámos?

Portugal precisa dessa ambição. Guimarães também. Precisamos de uma sociedade onde um jovem consiga estudar, trabalhar e escolher ficar. Onde formar uma família não seja um privilégio económico. Onde envelhecer não signifique necessariamente ficar sozinho. Onde uma pessoa que atravessa dificuldades não seja tratada como um problema administrativo. E onde a tecnologia, incluindo a inteligência artificial, aproxime as instituições das pessoas em vez de criar mais uma distância entre ambas.

Veja-se o Plano Diretor Municipal. Parece um documento técnico, feito de mapas e regulamentos. Mas é ali que se decide, por muitos anos, que freguesias crescem e quais ficam para trás, se a cidade vive apenas do centro, se os rios são património ou espaços esquecidos, se o espaço público é pensado para as pessoas. A revisão do PDM de Guimarães é também uma resposta àquela pergunta.

Vivemos uma época em que é fácil fazer política através do medo. Medo do estrangeiro, da diferença, da mudança, do futuro. O medo simplifica tudo porque encontra sempre alguém a quem culpar. Construir é muito mais difícil. Construir obriga a ouvir, a negociar, a escolher, a aceitar que o outro também pode ter razão. Exige paciência democrática. E exige perceber que governar não é vencer permanentemente alguém.

António Guterres termina dez anos à frente das Nações Unidas num mundo provavelmente mais dividido do que aquele que encontrou. Isso deveria impedir qualquer homenagem ingénua. Mas torna ainda mais significativa a mensagem com que escolheu terminar. Poderia ter terminado resignado. Não terminou. Prometeu que, onde quer que esteja, continuará a defender que a paz é possível, que a dignidade humana é universal, que a lei deve ser mais forte do que quem tem mais poder e que o futuro só fará sentido se houver lugar nele para todos.

Talvez seja essa persistência que mais admiro. Como ele próprio lembrou, os valores são maiores do que qualquer cargo. Os cargos acabam. O poder passa. Os títulos desaparecem. Fica aquilo que fizemos enquanto os tivemos. E é por isso que guardo aquela frase, não apenas como homenagem a António Guterres, mas como uma ideia de política em que continuo a acreditar, como socialista, como humanista e também como cristão.

Não quero uma sociedade onde os mais fortes tenham liberdade para dominar os restantes. Quero uma sociedade suficientemente forte para não abandonar ninguém. Não quero que se tenha o poder apenas para administrar o presente. Quero que se tenha para construir futuro. Para Portugal. Para Guimarães. Para todos. Porque, no fim, o maior poder não é dominar. É construir um futuro para todos.

PUBLICIDADE
Arcol

NOTÍCIAS RELACIONADAS