Voleibol: ADN Vitória é a chave para o futuro

Em 1895, em Massachusetts, nos Estados Unidos da América, surgiu uma nova modalidade desportiva em resposta à invenção do basquetebol poucos anos antes. William G. Morgan queria pôr os seus alunos a praticar uma modalidade sem contacto físico e, por isso, criou um jogo chamado mintonette.

Hoje, mais de um século depois e fruto da evolução natural do mundo e do desporto, o mintonette já não existe, mas deu origem a uma modalidade praticada em todo o mundo: o voleibol.

© Hugo Marcelo / Mais Guimarães

O mintonette podia ser praticado por qualquer número de jogadores. Podiam ser seis contra seis, dois contra dois ou até um contra um, com o serviço a alterar-se a cada jogada. E era disputado à melhor de nove pontos. O voleibol, por sua vez, é disputado por duas equipas com seis jogadores cada em sets de 25 pontos.

Há, no entanto, características que se mantêm inalteradas e o objetivo, dentro da quadra, mantém-se o mesmo: enviar a bola por cima da rede que divide o terreno de jogo de forma a tocar o campo contrário e impedir que toque o piso do próprio campo.

Foi no período da I Guerra Mundial que a modalidade chegou a Portugal. A responsabilidade foi das tropas estadunidenses que estavam estacionadas nos Açores. Espalhou-se pelo resto do país, nomeadamente pelo continente, em grande parte por causa de um açoriano que estudou em Lisboa.

Só mais tarde, em 1947, é que foi fundada a Federação Portuguesa de Voleibol, uma das fundadoras da Federação Internacional de Voleibol. A estreia de uma seleção nacional – masculina, no caso – aconteceu logo no ano seguinte, em Roma, no Campeonato da Europa de 1948. Numa prova disputada por seis formações – França, Holanda, Itália, Bélgica, Checoslováquia e Portugal –, a turma lusa alcançou o quarto posto.

1947: O Vitória SC abriu as portas de Guimarães ao voleibol

Foi precisamente no ano de fundação da Federação Portuguesa de Voleibol, em 1947, que se registou a primeira demonstração de voleibol na cidade de Guimarães. O Vitória Sport Clube comemorava, por essa altura, 25 anos de existência e, no contexto do aniversário, promoveu um encontro entre uma equipa masculina do clube e uma equipa masculina do Académico de Braga. No entanto, só uma década depois, com a adoção da modalidade por outros emblemas, é que o voleibol começou a solidificar-se em Guimarães.

Foi precisamente através do voleibol que se ultrapassaram alguns preconceitos que atingiam a sociedade vimaranense da época quanto à prática do desporto feminino. As primeiras equipas femininas surgiram na década de 1960 e o Vitória foi um dos emblemas que, em 1962, se estreou em competições oficiais. No entanto, só a partir de 1976 é que o voleibol se funde definitivamente na história do Vitória Sport Clube através das equipas femininas com as condessas a vencer a 2.ª Divisão Nacional e ascender, assim, ao primeiro escalão.

A década seguinte é de história: a equipa sénior feminina foi a primeira, ao serviço do Vitória Sport Clube, a alcançar resultados europeus e fê-lo em cinco épocas consecutivas, sendo depois extinta por dificuldades financeiras e por falta de infraestruturas próprias. O emblema vimaranense voltou a integrar uma equipa feminina em 2006/2007.

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A secção foi depois reativada em 1998 com uma equipa masculina e a beneficiar já do pavilhão do clube. O contexto e o trabalho da instituição vitoriana lançam o emblema preto e branco para um novo período de sucesso: no primeiro ano no principal escalão, o Vitória SC conquistou o 4.º lugar e o acesso às competições europeias. Na época seguinte repetiu a classificação e alcançou a final da Taça de Portugal.

A modalidade começou a integrar-se na rotina desportiva da cidade e os números confirmam-no. De acordo com a imprensa local, os jogos em casa tinham uma assistência média de 1.800 espectadores, com alguns jogos a atrair 3.000 pessoas ao pavilhão do clube. O entusiasmo traduziu-se em troféus em 2007/2008 com a conquista do campeonato nacional masculino. Na época seguinte, o Vitória SC conquistou a Taça de Portugal e disputou, de forma inédita, a Liga dos Campeões Europeus.

Atualmente, o Vitória SC compete com as duas equipas seniores nas principais divisões nacionais. Com um projeto focado em construir equipas com ADN Vitória e com capacidade para aproveitar todas as oportunidades que surjam, mesmo frente a equipas com orçamentos maiores, a equipa diretiva da secção esteve à conversa com o Mais Guimarães. Aníbal Rocha, responsável pelo Marketing, Comunicação e Relações Institucionais; Fernando Silva, coordenador geral; e Nélson Brízida, coordenador executivo e desportivo, receberam-nos no Pavilhão do Vitória SC.

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2007/2008: O dia em que o Vitória SC subiu ao degrau mais alto do voleibol nacional

Nelson Brízida puxou atrás o braço direito. O remate, intercetado pelo bloco do Sporting de Espinho, acabou fora da quadra e, num pavilhão já em ebulição, provocou o êxtase da centena de adeptos vitorianos presentes. Estamos no dia 19 de abril de 2008 e o cenário é o Pavilhão Joaquim Moreira da Costa Júnior, em Espinho.

Depois de muitas tentativas de traduzir o sucesso da secção em títulos, todas goradas, o caminho para o trono não podia ser desprovido de emoção. O Vitória SC teve de ultrapassar, primeiro, o Castêlo da Maia nos quartos-de-final. Depois seguiu-se o SL Benfica, que obrigou os conquistadores a operar uma reviravolta e triunfar fora de portas depois de perder o primeiro encontro em casa. Por fim, a final.

A história em que o Vitória SC chega a uma fase final e perde não era, por aquela altura, estranha aos vitorianos e podia ter-se repetido novamente em 2007/2008: o Vitória esteve perto de cair frente aos benfiquistas e aos tigres de Espinho. No entanto, foi escrita uma página nova neste livro. A decisão do título começou em Espinho. A equipa orientada por Marco Queiroga deu início à última fase da maratona que é o campeonato com um triunfo forasteiro por 1-3 com os parciais 22-25, 25-23, 21-25 e 25-27.

O entusiasmo começou a embalar a equipa que, depois, jogava em casa. No entanto, o jogo seguinte acabou por empatar a eliminatória com os tigres o vencer por 1-3 com os parciais 18-25, 25-20, 23-25 e 20-25. No jogo seguinte, novamente em Espinho, os vitorianos sofreram mais uma derrota por 3-1 (25-19, 25-20, 22-25, 25-19).

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As esperanças começavam a esfumar-se e, no jogo seguinte, em Guimarães, o título pareceu mais distante do que nunca. Os homens de Espinho ganharam os dois primeiros sets e, na bancada, os visitantes começaram a fazer a festa e a dar o Vitória como derrotado. Mas ainda era cedo. Os conquistadores, num jogo recheado de emoção, contrariaram o destino e, se perderam os dois primeiros parciais por 20-25 e 16-25, venceram os seguintes por 25-23, 29-27 e 15-13.

Finalmente a final, o jogo derradeiro. Foi em Espinho e a história é bem conhecida. Com o marcador a apontar o Vitória como líder e o quarto set com a pontuação de 22-24, é Miguel Maia, dos tigres, a servir. Filipe Cruz recebe o esférico, deixa para Pedro Azanha, que passa para Nelson Brízida. Foi o jogador, natural de Espinho, responsável por fechar o campeonato.

O que se seguiu dificilmente pode ser descrito: a festa que começou com os jogadores a correrem para a bancada em Espinho terminou muitas horas depois em Guimarães para encerrar o dia em que, pela primeira vez, o Vitória SC alcançou o degrau mais alto do voleibol nacional.

Nelson Brízida integra, por estes dias, a equipa diretiva da secção do voleibol do Vitória Sport Clube. É coordenador executivo e desportivo e tem a primeira palavra quando o assunto é o campeonato conquistado em 2008: “a ambição era termos atingido esse título antes, mas sabemos que há aqui outros fatores que às vezes não tornam as coisas possíveis”.

Mais de 14 anos depois, o antigo jogador parece ter ainda dificuldades para encontrar uma palavra que descreva aquilo que viveu com a camisola vitoriana. Pausa por uns segundos, hesita e depois arrisca. “Foi o êxtase, não é?”, questiona como se outros pudessem ter palavras mais adequadas para explicar aquilo que sentiu.

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Aníbal Rocha era diretor quando o Vitória SC alcançou o feito mais importante da história da modalidade. Já saiu da secção e regressou novamente. Agora é responsável pelo Marketing, Comunicação e Relações Institucionais.

Em relação ao campeonato conquistado em 2008, tem dois apontamentos a fazer. O primeiro é a importância que teve para “cimentar a equipa na primeira divisão e a modalidade aqui em Guimarães e no Vitória”. Para além disso, diz, foi elementar para mudar a forma como o clube era percebido pelas instituições ligadas à modalidade: “mudou o respeito das próprias instituições relativamente ao Vitória”.

No entanto, nenhuma moeda se faz só de um lado. Tem sempre dois. E Aníbal não se esquece do outro lado da moeda. “Se calhar naquele momento não se aproveitou completamente”, releva. E deixa a afirmação pairar até Nelson Brízida retomar a conversa: “após esse período, e depois estivemos na conquista da Taça, houve alguma desmobilização”.

Além disso, aponta o diretor, “depois houve um desligar de algumas pessoas envolvidas”. Aníbal regressa à conversa para apontar que acredita que foi esse afastamento que acabou por ditar os anos futuros: “foi o resultado do afastamento de várias pessoas que, na altura, também já estavam cá há muitos anos e que, pronto, saíram pela porta grande e não se conseguiu, de facto, aproveitar esse momento para cimentar a modalidade noutro nível”.

A página de ouro escrita em 2007/2008 deu frutos e manteve o Vitória SC como a equipa principal do voleibol nacional na época seguinte. Em 2008/2009, o Vitória SC conquistou mais um título desejado, a Taça de Portugal, e tornou-se na primeira equipa portuguesa a participar na Liga dos Campeões. O Vitória defrontou o Dínamo de Moscovo, da Rússia; o Noliko Maaseik, da Bélgica; e o Jihostroj Ceske Budejovice, da República Checa.

Apesar de se manter sempre entre a elite, o Vitória SC nunca mais conseguiu repetir ou aproximar-se do sucesso desses anos e, em 2017/2018, precisamente uma década depois da conquista inédita do campeonato, acabou despromovido ao segundo escalão no plano desportivo. A descida de divisão acabou por não se concretizar em consequência de uma repescagem administrativa.

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O projeto de futuro: a importância da formação, da estabilidade e dos números

“Eu acredito que sim, acredito que possamos chegar lá, acredito que estamos a trabalhar nesse sentido”, disse Nelson Brízida quando questionado pelo Mais Guimarães se é possível voltar a sonhar com uma conquista semelhante à de 2008. O trabalho que tem sido feito é na intenção da “reestruturação da modalidade em si, na reestruturação das equipas, na aposta na formação”.

O discurso de Aníbal corrobora o do antigo jogador. “É preciso estar lá para, em determinado momento, aproveitar as oportunidades e é para isso que nós estamos a trabalhar, para a estabilidade de, no momento certo, aproveitar essas oportunidades”, atirou. E prosseguiu: “sabemos que não temos o orçamento de outros e provavelmente nunca vamos ter, temos é de conseguir esses objetivos pelo trabalho”. E o trabalho, afirma, “passa pela formação”.

Fernando Silva, coordenador geral, explica o que é que isto significa em termos práticos: “nós o que queremos é ter uma estabilidade de trabalho quer em termos de equipas e de resultados, mas também da secção em si e da formação”. O dirigente descreve sucintamente o âmago deste projeto. “Queremos criar essa estabilidade a nível da formação e fazer daqui da secção de voleibol do Vitória uma academia que vai formar atletas que se espera que, pelo menos uma parte deles, possam vir a representar o Vitória na equipa sénior”, vincou.

No entanto alerta que não se trabalha para o imediato, mas para o médio, longo prazo: “o que nós queremos é fazer uma coisa que não é para o imediato, é tentar melhorar gradualmente as condições de trabalho, tentarmos afirmarmo-nos verdadeiramente dentro do clube como uma modalidade importante e, quiçá com tempo, afirmarmo-nos cada vez mais como uma equipa importante no panorama nacional de voleibol”.

Um dos caminhos para atingir este objetivo passa, explica Aníbal, “por criarmos um departamento de coordenação da própria área de formação”. Ter um coordenador a tempo inteiro e formar treinadores são dois objetivos.

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A secção de voleibol quer ainda ter força através dos números e assim conquistar definitivamente a cidade. A secção tem, atualmente, cerca de 200 atletas, mas pretende aumentar o número nos próximos anos. “Queremos ter o maior número de atletas possível porque não é só um mero número”, começa por dizer Aníbal.

“É importante que a cidade, uma grande parte da cidade, se identifique com a modalidade porque isto depois vai trazer benefícios a todos os níveis, hoje podemos ter um miúdo que passe pela formação, quer tirar o curso de treinador e amanhã pode ser um grande treinador e vai querer fazer parte desta família”. O dirigente acredita que aumentar o número de atletas pode “influenciar tudo o que é a modalidade na cidade”.

E cita o exemplo do Sporting de Espinho para esclarecer definitivamente aquilo que pretende: “há cidades que se identificam com o voleibol como Espinho. É verdade que tem poucas modalidades de sucesso, mas hoje em dia conhecemos sempre alguém de Espinho que jogou ou é tio de alguém que jogou e todos se identificam com a modalidade. É isso que nós precisamos de fazer, fazer crescer o número de pessoas que se identificam com a modalidade”.

ADN Vitória: os adeptos e a equipa com jogadores da cidade

Fernando acredita que para que o Vitória SC tenha “equipas combativas com ADN Vitória” é fundamental ter “elementos de Guimarães a jogar, que são, digamos, adeptos do Vitória, verdadeiros adeptos do Vitória que devem jogar nas equipas seniores.

O dirigente reconhece que a cidade fica “na periferia daquilo que é o centro do mundo do voleibol” e que será importante, para ter sucesso desportivo, contar com atletas estrangeiros, mas que é preciso procurar sempre equilibrar a balança que pesa os atletas provenientes de fora e os atletas provenientes do clube.

“Se quisermos competir de igual para igual na primeira divisão não podemos simplesmente dispensar atletas estrangeiros, vamos ter que ter sempre atletas estrangeiros a jogar, mas podemos ter uma equipa mais equilibrada para afirmarmos aquilo que é o ADN Vitória dentro da própria secção e dentro das equipas, nós precisamos de ter pessoas de Guimarães a jogar”, disse.

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Para Aníbal, a estratégia já está a ser posta em prática. “Estamos a integrar ex-atletas que se identificaram com o clube na estrutura e isso é uma mensagem para os mais novos”, começou por dizer e o exemplo estava ali mesmo ao lado. “O Nelson é uma referência do clube, todos o conhecem e os miúdos têm de se identificar com estas figuras”, concluiu. O diretor crê que é importante que “quem pratique voleibol no Vitória se sinta vitoriano” para que a modalidade possa cumprir o desejo de “querer ser mais um braço daquilo que é o Vitória como um todo”.

Quando as grandes oportunidades surgirem, acreditam os dirigentes, o Vitória Sport Clube vai estar preparado para as aproveitar. E uma grande oportunidade é regressar a uma final relevante. Quando o clube se encontrar novamente com esses momentos, há outro fator que pode pesar. Quem o diz é Nelson Brízida e sabe bem do que fala: “sabemos que a vantagem é a nossa massa adepta”.

O antigo jogador, que já elevou o Vitória ao mais alto nível do voleibol nacional, acrescenta: “como aconteceu na altura, eu acredito que nós, chegando às finais, com equipas se calhar com orçamentos superiores, podemos chegar a um título porque, naquelas alturas decisivas, os orçamentos pouco importam, não é por aí”. O Vitória Sport Clube – e os seus adeptos – acreditam que o passado se pode repetir.

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