World Humanoid Robot Games: o que é este evento e porque está a dar que falar

Falámos em videochamada, diretamente de Pequim, com o professor português Fernando Ribeiro, que está na China como convidado para observar de perto a 2.ª edição dos World Humanoid Robot Games. Contou-nos como é o maior recinto de robótica do mundo por dentro.

@ Fernando Ribeiro

Os World Humanoid Robot Games decorrem em Pequim entre 22 e 26 de agosto, no National Speed Skating Oval, um pavilhão de patinagem de velocidade construído para os Jogos Olímpicos de Inverno de 2022, conhecido como “Ice Ribbon”. É já a segunda edição do evento, e a escala não tem comparação com a de 2025: são 666 equipas e mais de 2.000 robôs, vindos de 16 países em seis continentes, para 51 provas diferentes. Nos primeiros dias de competição já caíram recordes atrás de recordes. Há o exemplo de um robô que correu os 100 metros em 9,32 segundos, mais rápido do que o recorde mundial humano de Usain Bolt.

@ Fernando Ribeiro

Entre o público especializado que segue os Jogos está o professor português Fernando Ribeiro, do Departamento de Eletrónica Industrial da Universidade do Minho e coordenador do Laboratório de Automação e Robótica (LAR). Foi convidado pela organização para observar o evento e falou-nos, em videochamada direta de Pequim, sobre o que se vê por dentro de um recinto que junta espetáculo, ciência e cada vez mais, negócio.

“É um recinto gigante, com montras e depois a sério”

Fernando Ribeiro descreveu-nos o espaço como uma espécie de cidade da robótica dividida em duas almas. Por um lado, há zonas de exibição e demonstração espalhadas pelo recinto, dedicadas a diferentes modalidades como o futebol, ténis de mesa, dança, entre outras. Por outro lado, há as provas competitivas a sério, avaliadas por júris que pontuam o desempenho técnico de cada equipa em cada tarefa. É um formato que o professor conhece bem de décadas ligado ao RoboCup, mas que, à escala chinesa, ganha outra dimensão.

@ Fernando Ribeiro

Segurança: “lá primeiro criam, depois é que regulam”

Um dos temas que mais marcou a conversa foi a segurança. Fernando Ribeiro notou que a forma como a China lida com a introdução destes robôs no mundo real é claramente diferente da abordagem europeia: ali, explicou, a lógica é sobretudo criar e testar primeiro a tecnologia, deixando a regulamentação mais fina para depois; na Europa, o caminho tende a ser o inverso, com mais cautela prévia antes de qualquer robô poder circular junto de pessoas.

Os números dão razão a essa perceção. A China só publicou o seu primeiro sistema nacional de normas para robôs humanoides e inteligência artificial incorporada (que inclui um capítulo dedicado a “segurança e ética”) no final de fevereiro de 2026, depois de o país já contar com mais de 140 fabricantes e mais de 330 modelos diferentes de robôs humanoides no mercado. Ou seja: a produção em massa arrancou primeiro, as regras vieram a seguir, ainda em fase de consolidação.

@ Fernando Ribeiro

Na Europa, o percurso tem sido o oposto. Qualquer robô humanoide colocado no mercado europeu já tem de cumprir o Regulamento das Máquinas (que substitui a antiga Diretiva das Máquinas e passa a aplicar-se na íntegra a partir de janeiro de 2027, sem período de transição), e passa ainda a ser abrangido pelo Regulamento europeu de Inteligência Artificial, que classifica robôs autónomos como sistemas de “risco elevado” – com obrigações que vão sendo faseadas entre 2026 e 2028, entre marcação CE obrigatória, avaliação de risco ao longo de todo o ciclo de vida e coimas que podem chegar aos 35 milhões de euros ou 7% do volume de negócios global em caso de incumprimento. É esta arquitetura de regras prévias, e não apenas de normas técnicas voluntárias, que Fernando Ribeiro aponta como a grande diferença de “tipo de cuidado” entre os dois lados do mundo. No fundo, nem melhor, nem pior, mas claramente distinta na forma como equilibra inovação e proteção das pessoas.

Antes de desligar a chamada, e com anos de experiência a construir o seu próprio robô doméstico, o CHARMIE, e a competir com ele em provas internacionais, Fernando Ribeiro deixou ainda um comentário: não vai demorar muito até as pessoas terem, em casa, um robô.

 

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