UM CORAÇÃO NO LUGAR DO CORAÇÃO

por CÉSAR MACHADO
Advogado

Dizia José João Torrinha, num magnífico discurso de apresentação os candidatos do Partido Socialista aos vários órgãos da Autarquia de Guimarães, que foi habituado a ver, desde pequeno, uns pequenos papelinhos, de várias cores, que seu Pai trazia habitualmente nos bolsos, soltos, ao acaso, coisa que lhe causava alguma curiosidade. Tendo perguntado o que eram afinal aqueles pedacinhos de papel ficou a saber que eram cotas, cotas de associações, da mais diversa natureza, cultural, desportiva, recreativa, social, editorial, tudo casas de Guimarães a que o bom e enorme cidadão que foi José Faria Martins Bastos pertencia, ou como associado ou –em muitos casos- como destacado dirigente. E também ouviu que, em relação a algumas, podia até haver uma ligação menos estreita, mas… não se podia deixar de contribuir, continuar a pagar as cotas, nem que fosse só para ajudar. Era um modo de intervir na vida colectiva muito comum à época. Foi assim que Guimarães se tornou uma cidade melhor, graças a homens como José Faria Martins Bastos, uma das mais notáveis figuras do associativismo e da vida pública de Guimarães da segunda metade do século passado.

Convêm recordar que o seu percurso, marcadamente ligado a quase todas as mais importantes associações vimaranenses, conheceu também uma passagem pela política bem activa – na oposição democrática, desde logo, e na sua participação da primeira Comissão Administrativa que geriu os destinos do Município logo depois da Revolução de 25 de Abril de 1974. Não surpreende que quem trazia um percurso de vida dedicado às causas de todos fosse escolhido para integrar uma equipa que dirigiu os destinos comuns, da comunidade, naquele difícil, esperançoso e decisivo momento de transição para a democracia, antes mesmo da realização de quaisquer eleições. Na verdade, tratava-se de “um homem da cidade”, como apareceu escrito algures, um homem para as causas da polis, as causas de todos, que abraçava com tudo o que podia dar. Homens destes achavam-se incapazes de cobrar um serviço prestado a uma associação ou colectividade de Guimarães. Alguma vez José Faria Martins ou Santos Simões recebiam um cêntimo por um serviço prestado ao Vitória, ao Convívio, ao Cineclube, ao CAR, sendo associados ou dirigentes destas associações? É óbvio que estes homens não cobravam os seus ilimitados serviços a uma associação. As razões do coração pesavam. Estes homens tinham um coração no lugar do coração. Não um cifrão. Por isso abraçavam as causas que decidiam abraçar com o entusiasmo de quem sabe que está a fazer o que deve ser feito, não para si, para auto satisfação do umbigo ou da conta bancária, mas do colectivo, do todo. Como devia ser.

Homens imprescindíveis que constituem referências inesquecíveis para muitos de nós, eis o que significam estes exemplos. A geração a que pertenço, mais jovem, tem ainda um bom número de pessoas, em várias associações, que conviveu, trabalhou e aprendeu com estes homens a fazer o que deve ser feito. E tem a sua referência muito presente. Tive o privilégio de partilhar caminho com os exemplos referidos e com muitos outros que se podiam indicar. Devo-lhes muito, muito mesmo. Mais do que alguma vez poderia retribuir. A começar por essa coisa bem singela que é perceber que a “retribuição” do nosso trabalho nestas associações de Guimarães é o sentimento do dever cumprido. Esse espírito é muito vimaranense e vem muito de uma tradição associativa que teimosamente continua, pese embora os ventos adversos que metem o cifrão onde a coisa não é de cifrão. É de paixão. Ter na direcção da Mesa da Assembleia Municipal um cidadão formado neste caldo cultural, com este olhar sobre as casas e as causas de Guimarães, é um óptimo tónico para os dias que hão-de vir.

 

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