Madura, Livre, Poderosa: Olga Roriz inaugurou o Guidance 2026

Doze anos depois de A Sagração da Primavera, Olga Roriz voltou a estar sozinha em palco. Fê-lo em Guimarães, na abertura da edição de 2026 do Guidance - Festival Internacional de Dança Contemporânea, com O Salvado (tudo o que ela conseguiu salvar), apresentado esta quinta-feira, 5 de fevereiro, no Grande Auditório Francisca Abreu, no Centro Cultural Vila Flor. Valeu a pena a espera.

© A Oficina

Imponente, livre de amarras e profundamente presente, Olga Roriz apresentou-se inteira aos espectadores. O corpo  marcado pelo tempo, pela experiência e pela memória foi o centro absoluto de um espetáculo que não procura reinventar linguagens, mas aprofundar uma luta interior partilhada com quem assiste. Como quem resiste a um naufrágio, a coreógrafa interroga-se: o que se salva depois da catástrofe? O que permanece colado ao corpo? O que ainda não morreu?

O Salvado nasce dessa pergunta em aberto. Não oferece respostas fáceis. Antes constrói uma topografia do tempo: um mapa feito de gestos, imagens, palavras e vestígios, tecido ao longo de um ano e de seis residências artísticas. É um trabalho sobre o que fica e o que se perde, sobre o que se desprende para se tornar matéria, memória ou presença. Tudo suspenso. Tudo no ar. Tudo ancorado na lembrança.

A banda sonora, intensa, envolvente, por vezes quase alucinatória, conduz o público por diferentes estados emocionais. Ouvem-se músicas preferidas da artista a a sua voz que emerge. O resultado é hipnótico. A plateia, que praticamente esgotou a sala maior do CCVF, deixou-se levar por um espetáculo rico, denso e arrebatador, onde o tempo da lembrança e do esquecimento se entrelaçam e se confrontam.

Neste regresso ao solo, Olga Roriz afirma-se segura, orgulhosa do seu percurso, do seu corpo e da sua feminilidade. Aos quase 70 anos, apresenta-se sem concessões, com uma força rara, provando que a maturidade pode ser território de radical liberdade artística. O Salvado inscreve-se assim de forma natural e poderosa no seu percurso, não como balanço final, mas como gesto vivo, urgente, aberto ao que ainda está por vir.

O Guidance prossegue até 14 de fevereiro, espalhando-se por vários espaços da cidade de Guimarães e reafirmando-se como um dos mais relevantes festivais de dança contemporânea do país. A abertura, assinada por Olga Roriz, deixou a fasquia alta, e a certeza de que há corpos e artistas que continuam a resistir, a criar e a existir com uma intensidade rara.

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