Marta Gonçalves da Silva | A Liberdade que herdámos
Artigo de Opinião. O cargo mais importante que temos na vida é ser humano.

@ Marta Gonçalves da Silva
O cargo mais importante que temos na vida é ser humano. Li isso uma vez e passei a acreditar nisso como uma verdade para mim.
Mais do que partidos, clubes, família, carreira ou religião, somos todos pessoas. Cada um tem direito às mesmas oportunidades, deveres e importância na sociedade; todos temos o mesmo valor. Cada pessoa deve ser livre para decidir sobre o seu corpo e sua vida. Vejo isso como um direito universal, algo natural.
Nunca tivemos tantos direitos e nunca fomos tão longe, mas ainda há quem tente tirar das mulheres o que elas conquistaram. Diante de movimentos que as oprimem, diminuem sua capacidade ou tentam limitar sua liberdade, quero deixar claro: nunca vou concordar com isso. Já houve um tempo em que só algumas de nós podiam votar. Já houve um tempo em que não podíamos ser juízas ou diplomatas. Já houve um tempo em que quem casava na Igreja não podia se divorciar. Já houve um tempo em que a violência dentro do casamento nem era considerada crime. Já houve um tempo em que não éramos donas do nosso corpo, porque não nos deixavam.
Hoje podemos! Podemos porque muita gente lutou por isso e, agora que temos esse direito, é nossa responsabilidade mantê-lo. Mesmo assim, há quem queira tirá-lo e, o que mais me preocupa, há mulheres dispostas a abrir mão dele.
Vivemos, como sociedade, um momento preocupante. Vemos sinais de retrocesso e ouvimos mais mulheres dizendo que não são feministas, muitas vezes sem entender bem o que isso significa. Me preocupa que uma palavra tão importante seja rejeitada antes mesmo de ser compreendida.
O feminismo não é de esquerda nem de direita; é das pessoas, é igualdade. Ficamos presos a um termo que só significa isso. Me incomoda que hoje o feminismo seja usado como arma política e sirva para dividir em vez de unir. Haverá feminismo. Seria um prazer que a lei da paridade não tivesse de existir, mas ainda não estamos preparados para abandoná-la, porque o mérito, por si só, ainda não abre as mesmas portas para homens e mulheres.
É fácil desvalorizar um direito quando nunca se viveu sem ele. O que me preocupa é que, por vezes, se rejeite o feminismo sem procurar compreender verdadeiramente o que representa, deixando nas mãos de outros decisões que também nos dizem respeito. Mais do que concordar ou discordar de um conceito, importa conhecê-lo, refletir sobre o seu significado e reconhecer o valor dos direitos que foram conquistados. Porque abdicar de compreender aquilo que está em causa pode significar, também, deixar de defender aquilo que não queremos perder.
A igualdade não pede que sejamos iguais, mas que sejamos tratados com a mesma dignidade. Ela exige que a liberdade de alguém não dependa do seu género, da sua origem ou das suas ideias. E, acima de tudo, exige que não tomemos como garantido o que tantas pessoas tiveram de conquistar.
Os direitos não se mantêm só porque estão na lei. Eles se mantêm quando os conhecemos, entendemos e estamos dispostos a defendê-los.
No meio de tudo o que nos separa, nenhuma diferença tira nossa humanidade. E há algo que nunca devemos esquecer: o cargo mais importante que temos na vida é o de ser humano.





