A exaltação da virtude

por Carlos Guimarães
Médico urulogista

Vivemos uma época de lamentos. De facto há muita coisa a lamentar, sempre houve. Somos um povo de lamento fácil, desproporcionado, muitas vezes sem sentido. Desde sempre que se ouve que “a coisa não está fácil”, “vai uma crise dos diabos”, “não sei como vai ser…”, mesmo nos tempos em que as vacas não eram magras, os lamentos eram os mesmos. Hoje faz mais sentido, mesmo assim, somos pródigos em acrescentar azia ao azedume dos dias que correm.

Na curta fila para aceder ao café do postigo, dois homens com idade incluída na sexta década de vida esgrimiam conversa de lamentos que extravasava a amplitude das suas máscaras. Lamentavam-se mutuamente como se o lamento de um confortasse o lamento do outro. Acentuavam o peso da idade e a evidência de que os anos do seu futuro seriam bem mais escassos que os anos do passado. Verdade. Lamentavam-se com consternação de que estavam a perder dois anos de suas vidas devido à pandemia. A cada lamento de um, outro lamento superior destronava o lamento precedente. Pedi para entrar na conversa com o objetivo de contrariar a ideia errada de que estamos a perder dois anos das nossas vidas. Perguntei se estiveram profundamente doentes, hospitalizados, encarcerados em casa ou com o emprego irremediavelmente perdido. Nada disso acontecera. É certo que a vida está diferente, mas não está perdida (no momento). Temos saudades das jantaradas, dos cumprimentos, dos abraços, das viagens, das praças cheias de gente, dos espetáculos, dos festivais, dos risos abertos. Temos saudades, mas isso não é a plenitude da vida. Sim , é verdade que tudo isso aloja partes importantes da vida, mas não é a vida. Não perdemos dois anos das nossas vidas, vivemos dois anos de forma diferente, não perdemos a vida. Talvez até devêssemos estar agradecidos e pedir desculpa ao lamento. Provavelmente o mundo irá regressar da forma como o conhecemos e o regresso dos homens também. A natureza humana não muda, adapta-se ao momento, mas adiante tudo será semelhante. Ainda cheguei acreditar que o mal pudesse fazer melhorias na essência do ser humano. Já não acredito.

Dois anos fazem sentido quando não há mais tempo, quando o tempo está no limite do horizonte e o horizonte mora mesmo ali. A idade faz todo o sentido, faz sentido entender e sentir o limite do tempo, faz sentido acreditar. A essência de um ser humano deve resistir à passagem do tempo, não deve degradar-se como o estado físico, contudo as nossas vidas interiores não são eternas , os nossos espíritos não permanecem jovens, há pétalas que vão caindo, folhas que secam, caules que se vergam. Não vale a pena viver na ilusão que a idade não faz sentido, envelhecer é uma chatice, mas perder a identidade da nossa essência é um desastre.

Temos de fazer os possíveis por cultivar o bem estar. O amor tem de continuar a ser pensado de toda a forma, de qualquer maneira. Sem pontos de luz tudo é escuridão, não há essência que nos segure nem identidade que nos faça mover. Temos de sentir a sorte quando na verdade não tivemos azar, se não for assim podemos estar a caminhar para aquele fosso onde caímos recorrentemente, o fosso do lamento.

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