A hora de se falar claro

Por José João Torrinha.

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Por José João Torrinha, Advogado e Presidente da Assembleia Municipal de Guimarães Nasci em 1974. Durante a minha infância e juventude, os ecos de uma guerra colonial (terminada justamente naquele ano) ainda se faziam sentir. Toda a gente da minha idade tinha pais, ou tios, ou amigos dos pais que lá tinham estado. Todavia, estamos somente a falar de ecos e de uma guerra que todos víamos como irrepetível, pois as nossas foram as últimas colónias europeias em África. Quando atingi a maioridade, os tais ecos estavam cada vez mais débeis. Grande parte da minha geração já nem sequer cumpriu o serviço militar.

Com a exceção terrível da guerra que eclodiu no início dos anos 90 após o desmembramento da Jugoslávia, e que foi encarada como uma guerra civil, a Europa em que cresci não via guerra dentro das suas fronteiras desde 1945.

Por tudo isto, a agressão da Rússia de Putin à Ucrânia continua a ser encarada com incredulidade por muitos. Durante semanas, o mundo dividia-se entre aqueles que acreditavam que a invasão seria certa e os que confiavam que Putin não iria tão longe. Mas perante o facto consumado, temos que ser cristalinamente claros no nosso posicionamento: a agressão russa é ilegítima, não provocada, indesculpável, inaceitável e um regresso a uma barbárie de que só alguns dos nossos avós terão memória.

Esta não é altura para tibiezas, carregadas de “mas” e de “ses”. A crítica à invasão deve ser clara, sem modulações que mais não são do que uma desculpa para as ações do regime russo. De resto, não se consegue compreender como, aos dias de hoje, ainda há quem venha falar da NATO a propósito desta ação militar.

Sejamos claros: a questão da NATO e do seu alargamento a leste nada teve a ver com a decisão tomada por Putin. Aliás, foi o próprio que o tornou claro no seu infame discurso contemporâneo da invasão: para ele a Ucrânia não rem razão de existir e deve pura e simplesmente ser integrada na federação russa. As arengas constantes acerca da NATO deveriam ter acabado nesse preciso momento.

De resto, a agressão russa, paradoxalmente, é a prova de que os ucranianos tinham todo o fundamento em querer aderir a essa organização, justamente para prevenir aquilo que acabou mesmo por acontecer. Argumentar que a Ucrânia, apenas pela sua posição geográfica, está obrigada a um estatuto de neutralidade e não pode de forma livre, como os demais estados soberanos, decidir o seu destino, é isso sim, ceder a uma visão imperial em que uns poucos países têm áreas de influência a que outros se têm de vergar.

E agora? A natureza bárbara da agressão acabou por conseguir coisas julgadas impensáveis há cerca de uma semana atrás: países que viveram décadas de neutralidade a tomarem medidas em defesa dos ucranianos. A União Europeia unida como há muito não se via. A Alemanha a mudar de um dia para o outro o paradigma em que tem assentado a sua existência desde o pós-guerra.

O que se espera é que ao menos tudo isto tenha servido para que se perceba de uma vez por todas: que não podemos ser complacentes com o autoritarismo, criticando-o nos discursos, mas depois ser cúmplice com ele em tudo o mais. Que a Europa só pode ter alguma voz se estiver unida em torno dos seus mais sagrados ideais. E que o futuro só pode ser risonho se não estivermos dependentes de quem não respeita os mais básicos princípios do direito internacional.

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