A Luz Existe

Por Carlos Guimarães,

Médico urologista

Os sorrisos andam vadios. A besta que se soltou, espantou-os. Andam fugidios, refugiados, aprisionados, mascarados e tristes. Não os podemos deixar morrer, só os sorrisos podem afastar o medo. Há medos despropositados, bandidos, dolosos, sem sentido. Há medos reais. Todos os medos matam sorrisos. Vamos guardar apenas os medos inexoráveis, aqueles que salvam.

A saúde vive dias amargos, difíceis, cruéis. Há atitudes desproporcionadas, pouco racionais, de todos os lados. Na verdade a racionalidade vive num trauma, perde-se, encontra-se e volta-se a perder, mas volta, volta sempre. Muitas vezes precisamos de colocar o dedo na ferida para recuperar a racionalidade. No meio de tanta turbulência e cinzentismo, precisamos muitas vezes de nos confrontar com a realidade para acreditar. Sempre foi assim, sempre assim será.

Há portas que se fecharam, há portas entreabertas, há portas abertas. O acesso aos cuidados de saúde está complicado. É um facto incontestável. Há mais gente a sofrer, há mais gente perdida. São danos diretos e colaterais dos tempos de guerra. É possível fazer melhor, claro que sim. Por vezes faltam ideias, por vezes falta vontade. Sempre que a porta estiver aberta, entrem; sempre que a porta se abrir, entrem; sempre que a porta estiver fechada, procurem uma porta que se abra. Ficar em casa doente, não procurar e não entrar, por medo, pode encerrar a porta definitivamente. Muitas vezes voltamos a sorrir ao sair pela porta que nos levou dentro. As unidades de saúde que abrem a porta, criam medidas e circuitos de segurança para que os medos se dissolvam, para nos sentirmos verdadeiramente seguros (apesar da onda). Ficar em casa a cultivar o medo e alimentar a doença é a pior de todas as decisões. Em tempos recentes um homem passeava o seu cancro desconhecido até perder o medo e seguir em frente na casualidade de chegar até mim. Um caso simples, um diagnóstico instantâneo e uma terapêutica descomplicada, curativa. Dizia-me quando partiu com o sorriso de volta, que a força da mulher o empurrou até ali em boa hora. O medo de entrar devido à praga iria remeter a sua vontade para o ano seguinte, provavelmente tarde demais. As mulheres, sempre as mulheres a injetarem coragem. Serão às centenas, todos os dias e alguns nunca encontram a porta aberta. Dói ao saber que muitos vão esperar e chegarão atrasados. Dói ao saber que muitos ficam em terra quando podem voar. Dói quando sabemos que muitos sofrem por antecipação e não têm doença orgânica.

O tempo nunca volta ao ponto de partida, mas chega sempre ao mesmo ponto do calendário a cada ano que passa. O tempo agora mostra-nos Natal, ninguém o pode evitar. Precisamos dele seja da forma que for, porque apesar das tristezas, o Natal tem sempre magia. Há dias em que perdemos a força, mas ela existe escondida dentro de nós. Por vezes perdemos a Luz, mas ela existe; por vezes ignoramo-la, mas ela existe; por vezes temos de a procurar. Nem sempre devemos esperar que a Luz venha ter connosco. Por vezes a Luz não nos ilumina, mas mostra o negrume que se encontra à nossa volta.

Nenhum o “bicho mau” nos pode roubar o Natal, porque ele Existe.

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