A vida no Planeta Covid

Por José João Torrinha,
Advogado e Presidente da Assembleia Municipal de Guimarães

Esmaga-nos. Oprime-nos. Esgota-nos. Por todo o lado, a toda a hora. A cada minuto. A cada segundo. Pamndemia. Covid. Testes. Máscaras. Ventiladores. Curvas. Picos. Gráficos. Lares. Mortos. Tosse. Temperatura. Economia. Desemprego. Falências. Lombardia. Wuhan. Nova Iorque.

Vivemos no planeta Covid, mas não podemos deixar que ele nos derrote. A perspetiva tem que começar por ser esta: cumprir com todas as prescrições emanadas das nossas autoridades, nas quais devemos confiar. Não ceder a pânicos injustificados, confiar somente na informação que nos chega de fonte segura, não propagar boatos, supostas notícias que não o são. Não ceder ao medo e a quem nos quer cada vez mais medrosos. Depois, fazer, cada um de nós, uma adaptação aos novos tempos que nos permita ultrapassar este período da melhor forma.

A grande luta para aqueles que continuam a trabalhar é continuar produtivo. Manter o foco. Não cair na apatia. São tempos bons para os amantes da rotina. Os dias tendem a ser uma longa e repetitiva sequência de atos mecanizados, entrecortados por sucessivos lavares de mãos. Há até que resistir a algum conforto que possa haver nisto.

São também dias de aprendizagem. Sim, eles têm-nos ensinado que podemos usar os meios de comunicação à distância em muito mais situações do que na era AC (antes de covid). A enormidade de horas que perdíamos e de recursos que esbanjávamos não deixam de impressionar. Conferências, reuniões, encontros de todo o tipo que podiam ter acontecido sem as evitáveis e incómodas deslocações. Todos já sabíamos disto, claro, mas agora sentimos a coisa na pele. Em poucos dias, passamos a usar as mais diversas plataformas onde cada um habita a sua pequena janela em conversas tipo banda desenhada, mas em que os balões do diálogo são sonoros.

Sim, mas estes dias mostram também o seu contrário. A presença é importante. Há coisas que não se resolvem se não for cara a cara, olhos nos olhos, ali, na pessoa física um do outro. A linguagem corporal conta muito e só pode ser bem interpretada se a pudermos agarrar com todos os nossos sentidos em alerta. E isso ainda nenhum zoom desta vida nos consegue dar. E ainda bem, digo eu.

Em casa, há também muito a fazer para combater a rotina e nos mantermos ativos.

Estes tempos de reclusão são bons para arrumações. Arrumar os armários, deitar fora o que não precisamos, descobrir coisas que andavam perdidas por casa, organizar gavetas, pôr coisas a uso que antes não o estavam. Fazer pequenas reparações.

São tempos que exigem grande disciplina. Levantar às horas habituais. Fazer exercício, não deixando que o nosso corpo amoleça à sombra da inatividade. Ver bons filmes e séries. Ler. Manter o contacto com os nossos amigos, ainda que à distância.

Há quem diga que a vida não mais será igual a partir desta pandemia. Não sei se assim será. Sei que uma das lições desta crise é que a ilusão de que vivemos preparados para tudo, é isso mesmo: uma ilusão. Há muitas coisas que não conhecemos, que não dominamos. Por isso, devemos ser cautelosos com as previsões para os próximos meses, que fará para os próximos anos. Temos de ser humildes ao admitir o nosso desconhecimento e ao mesmo tempo estar atentos e fazermos todos, cada um de nós, a nossa parte. No final, vai correr tudo bem.

Artigo de opinião publicado na quarta-feira, 15 de abril, no jornal Mais Guimarães.

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