AGORA (E SEMPRE) BORBA

Por João Torrinha

Há uma imagem que circula pelas redes sociais onde de vê o que parece ser um viaduto, cujos pilares aparentam estar em muito mau estado de conservação. A foto surge normalmente acompanhada de uma legenda que identifica a obra de arte como sendo o viaduto Duarte Pacheco e onde se critica o seu estado deplorável, que poria em risco milhares de pessoas que por lá passam todos os dias. De cada vez que a imagem surge, sucedem-se os comentários furiosos e de muitas pessoas indignadas “com esta pouca vergonha”.

Há só um problema. A imagem é falsa. Nem aquele é o viaduto Duarte Pacheco, nem há qualquer problema com a infraestrutura em causa. Diz quem percebe do assunto que o “mau aspeto” dos pilares tem a ver com a técnica construtiva, não havendo qualquer problema de segurança. E no entanto, a imagem cumpre o seu propósito: permitir a indignação instantânea e confortável na ponta dos dedos.

Em contrapartida, há semanas atrás, aconteceu mesmo uma tragédia, em Borba. Olhando para aquela desgraça, há várias coisas que impressionam. Desde logo, à cabeça e mais importante do que tudo o resto, como foi possível que os responsáveis daquelas pedreiras tenham tido o comportamento criminoso de colocar aquela estrada naquele estado? Como é que colocaram em risco a vida de quem quer que circulasse por aquela via, desde logo dos seus próprios funcionários que todos os dias a percorriam?

Depois, impressiona a passividade da autarquia. Como é possível que durante anos a situação da estrada fosse conhecida e nada se fizesse? E não me venham com a questão da falta de meios. Porque para fechar uma estrada camarária ao trânsito não é preciso gastar quase nada.

E que dizer do estado central, que, ao que se apurou, tinha conhecimento desde 2014 de que havia o risco de colapso dos taludes “a qualquer momento”, que isso poderia acarretar vítimas e que nada fez para o evitar? Em 2014 recomendava-se o encerramento da estrada e nada se fez durante quatro anos. Quatro. Anos. Isto vai muito para além da política partidária e é antes um retrato do nosso país.

Mas as coisas que impressionam não terminam por aqui. Vemos as reportagens e ouvimos, incrédulos, as declarações de muitos dos habitantes daquela localidade dizendo que todos sabiam que aquela estrada estava em perigo.

Cidadãos exigentes fazem decisores políticos mais competentes. Cidadãos acomodados fazem decisores políticos negligentes, como foi o caso. Todos sabiam, mas ninguém exigiu seriamente nada de quem tinha o poder e o dever de os proteger.

Volto ao início, à imagem falsa que nos permite a tal indignação instantânea, passiva, e nos deixa mais satisfeitos connosco próprios, mas que nada muda. Se calhar alguns dos mesmos que sabiam do estado da via, não deixaram de fazer um comentário numa falsa emergência que circula pela net, mas deixaram correr o marfim à porta de sua casa. E o resto do país é igualzinho.

E termino perguntando: os nossos telejornais que gastaram nos dias imediatamente a seguir ao desastre horas e horas de cobertura televisiva, tantas vezes excessiva, sobre tudo e sobre nada, há quantos dias esqueceram completamente a tragédia de Borba? Pois.

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