“Álbum de Família” estreia nos Festivais Gil Vicente numa viagem pela memória e pela infância
A mais recente criação de Lúcia Pires, Álbum de Família, estreia esta sexta-feira, 5 de junho, às 21h30, no Pequeno Auditório do Centro Cultural Vila Flor. O espetáculo resulta da bolsa "Projecto Casa" e assinala a estreia da artista na encenação, numa proposta que cruza teatro e audiovisual para refletir sobre a memória, a infância, a fotografia e a passagem do tempo.

© Rodrigo Marques / Mais Guimarães
Durante um ensaio acompanhado pelo Mais Guimarães foi possível assistir à cena inicial da peça e a dois momentos posteriores, revelando uma criação pessoal, construída a partir da relação entre recordação, imagem e identidade.
A génese do espetáculo remonta a 2024, um período particularmente desafiante para a criadora, “foi um ano um bocado difícil a nível pessoal e senti muito uma certa vontade infantil de voltar ao passado. De poder, meu Deus, quem me dera voltar a ser criança, ter colo e não ter preocupações”, recordou Lúcia Pires. “Ao mesmo tempo, estava confrontada com a impossibilidade de lá chegar.”
Dessa inquietação nasceu uma reflexão sobre a memória e a forma como esta preserva aquilo que já não pode ser recuperado. “A memória é tão vívida que parece que estamos perto daquele mundo. E olhando para as fotografias parece que é um mundo super tangível, mas não. É um mundo fixo, congelado, e que não dá para alcançar desta forma física”, explicou.
O ponto de partida teórico para o trabalho foi o livro “A Câmara Clara”, de Roland Barthes. A obra acompanha a reflexão do filósofo francês sobre a fotografia e o luto, em particular a procura da presença da mãe através de imagens antigas. “A Câmara Clara afigurou-se-me um bom ponto de início para este trabalho”, afirmou a autora. A relação entre fotografia, tempo e memória acabou por se tornar um dos eixos centrais da criação, que procura perceber de que forma as imagens podem alimentar a imaginação e a construção das nossas narrativas pessoais.
Além da dimensão autobiográfica, o espetáculo abre espaço para outras reflexões. Ao longo da peça surgem temas como a infância, a relação dos seres humanos com os animais e o lugar da mulher numa sociedade ainda marcada por estruturas patriarcais.
Para Lúcia Pires, o teatro continua a desempenhar um papel fundamental na forma como pensamos o mundo. “A arte, no geral, tem um papel essencial na reflexão sobre o mundo em que estamos e o lugar onde estamos agora no mundo”, defendeu. A criadora destaca ainda a especificidade da experiência teatral, marcada pela presença física entre artistas e espectadores. “O teatro traz esta coisa muito especial, que é a relação direta com o outro. A energia de estar lá alguém, de estar aquele olhar, modifica fundamentalmente a pessoa que está em cena.”

© Rodrigo Marques / Mais Guimarães
Natural de Bragança, a artista reconhece que as suas origens continuam a atravessar o seu percurso criativo. “Bragança continua a ser a minha casa. Já não vivo lá há muitos anos, mas todas as minhas pessoas estão lá e considero aquele lugar a minha casa. Todos os trabalhos que tenho feito trazem essa casa para o presente”, afirmou.
“Álbum de Família” marca também um momento importante no percurso da criadora por representar a sua primeira experiência na encenação. “É a minha primeira encenação. Tive muito apoio e uma equipa incrível que me ajudou muito a perceber como é que o trabalho se podia corporizar em cena”, sublinhou.
Lúcia Pires destacou ainda a importância das entidades que acolheram e apoiaram o desenvolvimento do projeto. “É muito importante o apoio que Guimarães, O Espaço do Tempo e Loulé deram ao projeto através do Projecto Casa”, referiu.
A estreia de Álbum de Família é apresentado no arranque de mais uma edição dos Festivais Gil Vicente. O diretor artístico dos festivais, Bruno dos Reis, admite viver sempre este momento com expectativa. “Estou sempre ansioso pelo início dos festivais, porque é o momento em que encontramos pessoas que não vemos há muito tempo, tanto espectadores que viajam até Guimarães para estarem connosco, como artistas que temos poucas oportunidades de ver ao longo do ano”, afirmou.
O responsável acredita que a edição de 2026 poderá registar uma forte adesão do público. Apesar do contexto económico desafiante, Bruno dos Reis considera que a decisão de frequentar espetáculos assume hoje uma dimensão particularmente significativa. “Escolher vir ao teatro, apesar disso, deixou de ser uma escolha que se faz de ânimo muito leve. Passou a ser quase uma escolha política”, observou. “Temos indicadores de bilheteira muito bons neste momento e é muito entusiasmante perceber que é em torno do teatro que ainda nos vamos juntando.”
Às portas da estreia, Lúcia Pires admite algum entusiasmo por finalmente partilhar com o público o resultado de um processo iniciado há dois anos. O convite é deixado pela própria: “queria muito que viessem ver “Álbum de Família” e poderem estar nesta viagem comigo, no meu álbum de família.”





