Alexandra Fonseca: “Enquanto tiver coisas para dizer, vou para palco”

Neste dia Mundial da Dança, 29 de abril, Alexandra Fonseca, professora, bailarina, coreógrafa e gestora cultural, esteve à conversa com o Mais Guimarães sobre a dança, a cultura e o ensino artístico em Portugal.

© Direitos Reservados

Muitas pessoas dizem que o confinamento trouxe alguma inspiração…

Eu só pensava. Tinha miúdos à minha frente que precisavam de falar e de sentir coisas, porque era tudo muito novo. Era impossível trabalhar a parte técnica a partir de casa, tínhamos de pensar numa parte criativa.

De repente, tenho espetáculos para os próximos cinco anos na minha cabeça. Ficou muita coisa para pensar, muito tempo para ler, para olhar para outras coisas que não víamos.

Como é que se mantém uma escola e a motivação dos alunos?

Com os mais pequenos foi muito difícil. Não por causa deles, mas porque precisavam de ter alguém que estivesse do outro lado a acompanhá-los. Em determinada altura tu esgotas esse modelo. Fizemos coisas giríssimas com os pais de criação. Casas completamente trabalhadas para fazer as histórias, tínhamos tetos de estrelas, fundos do mar espalhados na sala. Isto deu uma parte criativa muito interessante. O primeiro mês, o segundo…, mas a partir de determinada altura é muito complicado e cansativo, mesmo para quem está do outro lado.

“Não consigo ver uma criança que corre 30 metros para dar um abraço e dizer stop.”

Com os mais velhos ganhou-se uma coisa diferente. A maior parte deles, e os que ficaram, sentiram que nada lhes é garantido. Em termos de consciência foi o que eles ganharam mais. De repente tens ali uma faixa etária, dos 15 aos 17, com uma garra incrível. Quando chegaram aqui, tu pedes-lhes coisas para trabalhar e pensas “onde é que que isto estava?”. Eles tiveram que crescer.

Gerir a escola não foi fácil. Vamos começar praticamente de novo. Tivemos um recuo de 10, 15 anos em termos de números. Acho que ainda não há uma segurança muito clara do poder voltar. Com os mais velhos consegues dizer “não toques, não fazemos duetos”, mas com os pequeninos é impossível. Não consigo ver uma criança que corre 30 metros para dar um abraço e dizer stop. Assumimos alguns riscos. Tivemos um pai que, neste segundo confinamento, saía com a filhota ao fim do dia e passava por aqui só para ela me ver. Achei aquilo muito engraçado. 

Fora do contexto pandemia é fácil manter uma escola de dança em Portugal?

Depende. Manter a minha escola, da forma como eu penso, no sítio onde eu estou… A forma como eu a penso dá-me muito trabalho. Trazer pessoas de fora para trabalhar numa escola que não é oficial, e nunca vai ser, é muito complicado. Mas é complicado, porque este país é muito fechado.

Agora, que me dá muito gozo ser diferente, dá. O que eu sinto é pensar aquilo que me fez falta quando eu estava lá, tudo o que eu senti, a todos os níveis. Sou muito crítica em relação ao estudo e ao ensino artístico em Portugal. Senti sempre que faltava muita coisa. Dentro das possibilidades, tento colmatar aquilo que eu sentia que me fazia falta e acho que é importante. Também dependemos de quem encontramos pelo caminho, e às vezes encontramos pessoas que são de uma disponibilidade extraordinária, que dizem sim e tornam as coisas possíveis. 

E ser bailarino, coreógrafo, artista?

Este ano temos uma miúda que está a escolher o mestrado, que não quer mais estudar em Portugal, três meninas que estão a fazer audições… E tens uns pais que perguntam… A responsabilidade é uma loucura.

Quer a gente queira quer não, desde público ao Governo, a dança ainda é vista como um passatempo e uma brincadeira.

“Há um défice muito grande de cultura.”

Acreditas que o ensino em Portugal, mesmo antes de chegar à universidade, acaba por castrar as crianças?

Completamente. O ensino artístico, para mim, não existe em Portugal. Já tive muitas oportunidades de transformar isto numa escola articulada, mas, da forma como ela é, não quero. Muitas das coisas que eu posso fazer na minha escola, não poderia fazer no ensino articulado.

Começamos um projeto com uma turma, mas isto implica professores que pensem de outra forma. Encontrei uma professora e uma escola aqui e ia ser o segundo ano do ensino através da dança. Implica uma dádiva quer dos miúdos, quer dos professores, é preciso trabalhar em conjunto, reunir, perceber quais são as pontes que podemos fazer entre uma coisa e a outra, e isso não se encontra sempre.

Portugal está preparado para abraçar a dança?

Temos pequenos públicos que vão e são fiéis. Se pensarmos em Guimarães temos coisas fantásticas, temos públicos para coisas muito específicas. Os festivais, quer do Jazz, quer o Guidance, têm algum público fiel. Mas, mais uma vez, são sempre os mesmos. Como é que fazemos esta abertura? Isso é que tem que ser pensado. Temos vários problemas, para além dos financeiros. Uma família ir a um espetáculo é impensável neste momento, não consegue.

Depois, temos este défice de ensino da arte, desde a pré. Há um défice muito grande de cultura e isto é um espelho da falta desta cultura mais fina. Continua a ser um privilégio de poucos. Como chegar lá? É uma tarefa de anos. 

Como é voltar?

Vamos fazer por etapas. Em junho, e pensando que isto vai chegar a um bom porto, trabalhar primeiro com a prata da casa. Há três anos começamos um trabalho sobre mulheres que foram, de algum modo, famosas, ou mudaram os nossos caminho. Este ano vamos tratar o feminismo. O primeiro espetáculo pós-pandemia no teatro, dentro das condições que nos forem possíveis. Ainda vai ser dançado por mulheres, mas no próximo ano vamos lançar um desafio: falar de coisas de mulheres pelos homens.

© Direitos Reservados

Lançamos um desafio ao núcleo de artes, que reúne em Fafe alguns escritores, para tratarem alguns dos temas que fui desenvolvendo com os miúdos, como o medo, o vazio, o sentir-se perdido e desamparado. Escreverem e fazermos a literatura em movimento ao ar livre. Pode ser um momento de família, em que as famílias possam sair, escutar a palavra, ouvir música, ver dança, e para as pessoas perderem o medo.

Quando regressarmos, no útlimo trimestre, vamos começar com coisas que ficaram pendentes. Temos um coreógrafo que está radicado na Alemanha, o Tiago Manquinho, que virá em outubro com o trabalho dele. Tenho o meu em dezembro, um dueto, que fala destas coisas que eu acho que muita gente fez obrigatoriamente: olhar um bocadinho para dentro e perceber quem era, em que parte da sua vida estava.

Paralelamente temos quatro conversas. A primeira foi em abril, chamamos alguns bailarinos que deviam estar a dançar cá, para falarmos como foi para eles viver este momento. O segundo momento vai ser em julho, sobre políticas culturais, o que é que faz falta fazer. O terceiro momento será sobre públicos e o que fazer agora para retomar esta cadência de querer sair e ir. Vamos terminar com uma problemática, que acho que foi desenvolvida nesta pandemia. O que fazer com os clássicos, até que ponto os clássicos vão continuar a ter público e como fazer para as pessoas continuarem a viver essa história de um clássico sem ter que o mudar, qual o futuro das companhias clássicas. 

O facto de teres uma base na sociologia, dá-te outra sensibilidade?

Somos moldados pelas coisas que vamos ouvindo. Se há alguma coisa da sociologia que me ficou, se calhar tem a ver com esse olhar para as coisas de uma outra forma, e com um outro sentido. Se me lembrar de alguns professores que me ficaram, acho que tem a ver exatamente com os que me obrigaram a pensar além daquilo que eles tinham para dizer.

“Toda a gente tem capacidade para ver mais além.”

Como é que surge o gosto pela dança e como é que chegas a Fafe?

Loucura completamente. Comecei como toda a gente, alguém da família disse “vamos pô-la no ballet”. Era um bocadinho contraditório, porque era maria rapaz completa. Portanto, eu ser bailarina clássica, ninguém acreditava, a não ser que eu fosse a que estragava tudo. Costumo dizer às minhas alunas que como aluna sou péssima, porto-me muito mal, mas pronto. 

Chegar a Fafe e chegar a ser professora de ballet nunca me passou pela cabeça, confesso. Ser bailarina era muito complicado, porque naquela altura não era propriamente uma profissão. Costumo dizer que só nos últimos cinco anos é que a minha família não me pergunta quando é que eu arranjo um emprego.

Fiz todo o processo ao contrário do que é natural. Comecei a dar aulas com 17, porque a minha carreira como professora esteve ligada às maternidades das professoras alheias. Depois foi impossível deixar. Comecei por dar aulas e só mais tarde é que percebi que tinha tanto para dizer… Poder dizer coisas através dos outros também me emociona imenso, mas separo. Os espetáculos dos miúdos são eles, é o que eles têm para dizer. Eu tenho coisas para dizer e tenho os meus projetos paralelos. São duas formas de me exprimir de forma diferente.

Comecei em Guimarães e no ano seguinte ligaram para a minha escola a dizer “tenho aqui uma professora que está grávida”, mais uma, e foi isso que aconteceu. Cheguei a Fafe, a escola fechou e tive que decidir e decidi criar o projeto pessoal. Comecei aqui, onde estamos agora, o meu primeiro espetáculo com 19 anos. No fim, tive um senhor, que me veio cumprimentar e disse “sabe que estamos em Fafe e que metade das pessoas não vai entender aquilo que tem para nos dizer”. Aquilo mudou radicalmente. Se a gente não dá aquilo que as pessoas não conseguem entender, elas nunca vão entender e nunca vão olhar para as coisas de maneira diferente. É contra isto que vou lutar, não termos que dizer às pessoas “tu não vais entender”. Acho que a intenção foi a de dizer “estas são as pessoas que tem aqui, vai ter que ir com calma até perceberem o que tem para nos dizer”. Acho que toda a gente tem capacidade para ver mais além. Temos é que lhe ensinar os caminhos.

O que te faz ir a palco?

Subi para palco antes desta pandemia, com um trabalho sobre a Desdémona. Quando a luz se apaga do público, a minha barriga ficou toda embrulhada. Disse “enquanto eu sentir isto, é sinal que o palco ainda está vivo”. Enquanto assim for, faz sentido ir para palco e ter essa vontade. É mesmo uma vontade. Enquanto tiver coisas para dizer, enquanto sentir essa dor de barriga, vou continuar a ir. A não ser que as pernas já não queiram. A idade dá-nos uma forma de perceber o nosso corpo que nos permite, se calhar, ir um bocadinho mais longe. Se calhar quando tinha 20 anos nunca poderia chegar lá, era impossível. Ainda tenho alguma coisa para dizer. Costumo dizer que enquanto tiver coisas para dizer, vou para palco. Quando deixar que ter o que dizer, remeto-me para as cadeiras do público.

©2022 MAIS GUIMARÃES - Super8

Publicidade

Fazer login com suas credenciais

Esqueceu sua senha?