Allegro ma non troppo

por José da Rocha e Costa

Confesso que não tenho uma opinião inteiramente negativa em relação à forma como o actual Governo tem gerido a questão da Pandemia. Isto, porque esta é uma daquelas situações em que se “é preso por ter cão e preso por não ter”. Quando o número de infectados e de mortos subiu a pique em meados de Janeiro, já havia comentadores televisivos e pessoas em geral a dizer que foi por causa da “folga” que o Governo concedeu durante as festas natalícias. Agora que os números começam a tornar-se menos preocupantes, há pessoas bem informadas, como a Dra. Joana Amaral Dias, que são da opinião de que o confinamento imposto pelo Governo foi precipitado. Isso mesmo fez questão de deixar claro ao escrever nas redes sociais, no dia 14 de Fevereiro: “Carlos Antunes da matemática previa para agora 17 mil casos diários. Afinal não chegam a 3 mil. Mas com esta base foram tomadas decisões como fechar comércio e restauração, cuspindo milhares para a pobreza. Quando é que estes especialistas vão ser confrontados? E responsabilizados?”

A Dra. Joana Amaral Dias faz aqui uma observação perspicaz e deixa duas perguntas muito pertinentes. Já agora, eu acrescentaria aqui mais uma ou duas perguntas: Quem é que se lembrou de convidar a Dra. Joana Amaral Dias, em 2005, para ser mandatária para a juventude da candidatura de Mário Soares à Presidência da República? O autor do convite conhecia esta perspicácia de análise na Dra. Joana Amaral Dias? E se o Dr. Mário Soares só teve 14,31% nessas eleições, porque é que se resolveu candidatar?

Bem, tirando o foco da Dra. Joana Amaral Dias e da sua brilhante capacidade em descortinar relações de causa e efeito, e voltando ao Governo e à gestão da Pandemia, não acho que no geral a actuação do Governo esteja a ser terrível, se excluímos algumas proibições estapafúrdias, que parecem ter sido escolhidas ao calha, como por exemplo esta: imaginemos que eu estou a fazer uma viagem longa na autoestrada e o carro entra na reserva. Eu paro para abastecer e quando me dirijo à caixa para pagar, dá-me uma sensação de sede e aproveito o facto de estar ali e peço ao senhor da caixa uma garrafa de água. Ele diz-me que ao abrigo da lei que vigora no actual estado de emergência, não me pode fornecer a garrafa de água e eu, sem saber o que fazer, chego à conclusão de que na situação actual, até o carro tem mais direitos do que eu, que ao contrário dele não posso ingerir líquidos. Fora isso, e fora o Governo proibir a venda de livros para evitar aglomerações, sim, porque toda a gente sabe o flagelo que é entrar numa FNAC, na altura do regresso às aulas, para comprar a última edição da Playstation 5, e ser abalroado por grupos de pequenos nerds a quererem comprar os livros todos…

Fora algumas proibições rocambolescas como estas que acabei de citar, o Governo até tem estado bem na gestão da pandemia. Há, no entanto, uma coisa que me enerva neste Governo que é a fanfarronice. Se o Governo de Passos Coelho personificava na perfeição aqueles pais que estão sempre a lembrar aos filhos que não vão chegar a lado nenhum na vida porque são uns calões e por isso têm que se contentar com as “sobras” que a vida lhes vai oferecendo, este Governo personifica os pais falidos que não têm coragem de dizer aos filhos que não têm dinheiro para lhes oferecer um brinquedo igual ao do miúdo rico lá da turma. Querem computadores para ter aulas à distância? Sim senhor, o Governo dá. Querem testes ao COVID para todas as pessoas que tiveram contactos de risco? O Governo dá. Óptimo! Então quando é que vai ser isso? Bem, essa situação ainda está a ser avaliada, para ver como é que se há-de fazer isso da melhor forma.

O Presidente Marcelo utilizou já, mais do que uma vez, para se referir a esta característica do Governo, a expressão “optimismo irritante”, no entanto, eu acho que não se trata tanto de optimismo, é mais uma questão de fanfarronice e sim, é irritante, porque nos deixa sempre na ilusão.

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