ARMAS PARA QUE TE QUERO

José da Rocha e Costa

Gestor de empresas

No período do Verão, a matéria digna de investigação jornalística não abunda e os critérios de selecção acabam por ser flexibilizados, passando a tomar como relevantes assuntos que, noutra altura qualquer, não teriam interesse algum, chegando muitas vezes a roçar o ridículo. É por esse motivo que se costuma apelidar esta época do ano de “silly season”, em português, época ridícula. Coincidência ou não, dos Estados Unidos chegam-nos notícias, que apesar de terem a maior relevância, não deixam também elas de ser ridículas.
No espaço de uma semana ocorreram quatro tiroteios em diferentes cidades americanas, contabilizando-se trinta e quatro mortos e algumas dezenas de feridos. Por coincidência (ou talvez não), dois destes tiroteios aconteceram em supermercados da famosa cadeia Walmart, cadeia essa que já foi inúmeras vezes criticada pelos meios de comunicação americanos por vender armas de fogo, algumas delas com capacidade para originar carnificinas como aquelas a que acabámos de assistir.
Quando ouvi esta notícia a primeira coisa que me veio à cabeça foi uma cena de um filme, que vi há já alguns anos e do qual já não me lembro do nome, em que o assaltante se dirige a uma loja deste género (sim, porque a cadeia Walmart não é a única que vende armas de fogo no mesmo espaço em que as famílias americanas fazem as suas compras para casa) e apenas leva as munições consigo. Pede ao funcionário da loja que está responsável pela venda de armas para lhe mostrar alguns modelos, aproveita para carregar uma das armas com as suas munições, e aí começa o assalto propriamente dito.
A ironia de tudo isto é que a cultura americana é conhecida como a cultura da comodidade. Foi na América que foram inventadas, ou pelo menos potenciadas para a escala global, algumas das mais incríveis engenhocas que vieram facilitar o nosso dia-a-dia: desde electrodomésticos como a máquina de lavar loiça ou o aspirador, passando por tecnologias mais complexas como o GPS ou a internet, até serviços como o “drive in” ou o “home delivery” que nos permitem continuar a engordar sem que para isso tenhamos que fazer um grande esforço. Naturalmente que este teria de ser o país em que um assaltante ou um assassino em massa pode prosseguir com a sua actividade, mesmo que se esqueça da sua arma em casa. Querem maior comodidade do que esta?
Não convém, no entanto, confundir comodidade com comodismo. Comodismo vê-se mais para os lados de Washington, mais concretamente por parte dos membros do congresso americano, que continuam a votar em maioria contra a mudança da lei das armas e nem sequer se dão ao trabalho de inventar novas desculpas para tentar fundamentar o seu voto.
Por cá a “season” continua “silly”, na verdadeira acepção do termo: os motoristas convocam uma greve para a segunda quinzena de Agosto que é o mesmo que dizer que vão a banhos como o resto da malta, o SNS continua a definhar lentamente e os políticos já começam a apontar baterias para a campanha eleitoral que se avizinha. Ainda assim, antes isso do que ter que me dirigir ao supermercado em pleno mês de Agosto, que já de si é uma tarefa tortuosa, e arriscar-me a levar com um tiro de caçadeira no lombo

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