As exageradas notícias de uma morte anunciada

Por José João Torrinha, Advogado e Presidente da Assembleia Municipal de Guimarães

Nos últimos tempos, marcados que estão por uma crise política que a maioria dos portugueses não queria, muitos têm vaticinado a morte da chamada “geringonça”. Trata-se, a meu ver, de uma análise errada, por duas razões de sentido bem distinto.

Errada desde logo porque a verdadeira geringonça já morreu em 2019. E morreu porque nenhuma das três forças que a tinham integrado mostrou suficientemente vontade de lhe dar continuidade. O PCP pôs logo tudo em pratos limpos dizendo não estar disponível para qualquer acordo escrito. Já o PS e o Bloco de Esquerda concluíram em duas penadas que não havia condições nenhumas para um entendimento “a la 2015”. Ficou assim claro que ninguém tinha verdadeiro empenhamento em voltar a um lugar onde uns tinham sido felizes e outros… nem tanto.

Esse foi o momento chave para o que veio a passar-se a seguir tendo desde aí ficado escrito nas estrelas que dificilmente o governo saído de eleições chegaria ao fim do mandato.

Dito isto, é preciso também dizer que o obituário da geringonça também está errado se o que se pretende dizer é que, com o chumbo do orçamento, não mais os três partidos se poderão voltar a entender e que designadamente nunca se entenderão no seguimento das próximas eleições.

É verdade que o chumbo do orçamento deixou marcas. Um orçamento que tinha claramente linhas de atuação mais simpáticas para os partidos à esquerda do PS do que os seus dois antecessores e que, apesar disso, viu ser-lhe posta uma cruz em cima. Um orçamento em que se sabia que o seu chumbo levaria à dissolução da Assembleia da República. Um orçamento em tempos ainda pandémicos em que o país deveria estar concentrado a 200 por cento no relançamento da economia. Um chumbo que nos atira o orçamento para daí a meio ano na melhor das hipóteses.

Tudo aconselhava, por isso, que não se esticasse a corda em demasia. E no entanto, aqui estamos, com eleições marcadas para dia 30 de janeiro.

António Costa, esse, continuou a dizer que é muito mais de abrir portas do que fechá-las. Também disse que não pretendia deitar sal nas feridas abertas. Percebemos, por isso, que apesar de o líder do PS reclamar uma maioria para o seu partido, percebeu que o que se criou em 2015 não pode ser atirado apenas para os livros de história. O desbloqueio do relacionamento entre os partidos de esquerda (que beneficiou a direita durante décadas) faz parte do património que Costa pode reclamar para si enquanto dirigente partidário.

Por isso, tendo ouvido com atenção a entrevista dada pelo Primeiro-Ministro, percebeu-se a sua inteligente estratégia: reclamar o reforço da votação no PS para que o que se passou neste orçamento não se volte a repetir; não fechar a porta a um futuro entendimento à esquerda; relegar outros entendimentos ao centro para uma hipótese residual, se tudo o resto falhasse.

Para o eleitor integrante da ampla maioria que desaguou na geringonça em 2015, as perguntas a responder são, pois, estas: qual o sentido de voto que permitiria consolidar o caminho que aí se iniciou? Qual a força política que melhor poderá garantir que as conquistas que nesse período foram alcançadas não são perdidas? E qual aquele que está em melhores condições para continuar a dar novo sentido ao que já foi feito, aprofundando as políticas que a maioria dos portugueses entendem serem as mais corretas?

Se todos fizerem esta reflexão e votarem em consciência, talvez o passo atrás que foi dado com o chumbo do orçamento venha a transformar-se em dois passos à frente rumo aos anos de recuperação por que todos ansiamos.

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