Caminhos de Santiago: Se as pernas cederem, que te leve o coração

Ao sair de Guimarães, das escadas da Igreja da Oliveira, naquela manhã de 30 de maio, com 280km pela frente, estava longe de perceber o que representava isso do Caminho de Santiago.

© Eliseu Sampaio / Mais Guimarães

A intenção era uma só, ir e viver a experiência, estar uma semana a pensar em tudo e em nada, sem ideias concebidas, premeditadas, sem marcações, só com uma mochila às costas e a fé numa boa jornada.

Todos temos “O Nosso Caminho”, daí ter optado por inovar no percurso. Em ano Jacobeu, queria partir de Guimarães, da minha cidade, e fazer o Caminho Português da Costa, pela proximidade ao mar, que sempre me fascinou.

Rates é uma freguesia da Póvoa de Varzim, possui um Albergue, dos mais antigos do Caminho Português e foi local para a primeira estadia. Acolhido com extrema simpatia pelos voluntários que gerem o espaço, fui convidado a jantar com outros peregrinos, três alemães, que ali pernoitaram também.

A conversa formou-se, naturalmente, sobre os motivos de cada um para fazer o Caminho. “Se vieste para pensar, porque tens tenta pressa”, disseram-me, depois dos 39km que tinha acabado de fazer.

© Eliseu Sampaio / Mais Guimarães

Os Albergues, percebi-o, são imprescindíveis a quem pretender viver intensamente esta jornada, pelo encontro com os outros, pela camaradagem, pelo ambiente feliz que se vive.

Queria ver o mar pela manhã e fiz-me à estrada. O monte de S. Felix, a uns poucos quilómetros dali, foi o ponto de miragem. “Se mais mar houvera, lá chegara”, pode ler-se no monumento aos descobrimentos ali colocado, e que aponta ao Atlântico.

Mas antes maravilhei-me com a beleza do mosteiro pré-românico de Rates, um dos mais atraentes e “sui generis” exemplares de arte românica em Portugal, curiosamente mandado restaurar pelo Conde D. Henrique e D. Teresa.

A areia da Estela, naquela manhã, amaciou-me os pés numa caminhada até à Apúlia. Dali foi seguir caminho até Viana do Castelo. Pensava eu chegar a Viana, mas em Vila Nova de Anha já contava 43km e se fazia noite. O Albergue Casa da Carolina foi morada para pernoitar. O acolhimento da Carolina e da sua mãe, enfermeira de profissão, foi de uma riqueza inqualificável. O Albergue é novo e surge de um amor pelos caminhos que envolve toda a família.

© Eliseu Sampaio / Mais Guimarães

Atravessar a ponte Eiffel, mirando Santa Luzia, numa manhã de nevoeiro, é maravilhoso. Viana do Castelo, berço das tradições minhotas, é uma cidade que nos marca no percurso.

Como estamos ainda em pandemia, muitos dos Albergues das associações estavam ainda encerrados. O de Caminha era um deles, pelo que a noite teve de ser passada em Vila Praia de Âncora, com vista para o mar, depois de um dia repleto de peripécias. Um dia significativo, em que começas a entender a riqueza do Caminho, do qual extrairás múltiplas aprendizagens. Bastará estares atento, e disponível.

O forte da Ínsua, em Caminha, aponta a foz do Rio Minho. Caminha é dos meus locais preferidos. Ali fiquei, na praça central, a ver o tempo passar, as pessoas a confraternizarem, a vida a correr. Até Vila Nova de Cerveira o Caminho fez-se com alguma chuva e com um pé inchado, dorido.

© Eliseu Sampaio / Mais Guimarães

As aventuras pelos montes e caminhadas na praia têm as suas consequências. Aprendes que tens de respeitar o Caminho, o teu caminho.

Eliseu sampaio
© Eliseu Sampaio / Mais Guimarães

Parte dele foi na companhia de um peregrino alemão, de 60 anos, instrutor de yoga, que iniciou os caminhos aos 43 (com a minha idade) e nunca mais parou. No próximo ano fará um caminho de cinco semanas, com a namorada. Este ano, como quase sempre, caminhava sozinho, também.

Com o Albergue de S. Teotónio, em Valença, fechado, tive de desenrascar estadia numa unidade hoteleira da cidade. Entrei, por lapso, num que não decidira, mas ali encontrei exatamente o que precisava. Levaram-me ao quarto, sem que o tivesse pedido, o lanche da manhã seguinte, naquele dia em que não sairia para jantar, pelo estado em que o pé se encontrava. Fez-me pensar que não é em vão quando te dizem que “o Caminho te dá tudo o que precisas”.

© Eliseu Sampaio / Mais Guimarães

A imponente Catedral de Tui é das coisas mais belas que já vi e de visita obrigatória.

Entrei em Espanha e o Caminho começou a estar mais preenchido de peregrinos. Foram maioritariamente, nesta fase, portugueses, mas também alemães, suíços, e, naturalmente, espanhóis, galegos em particular.

Redondela é o destino, a uns 36km de distância, e uma cidade que fervilha à volta dos peregrinos que por lá passam, e que chegam nos vários Caminhos que ali se cruzam. Devido à pandemia, descobres que apenas um quarto dos albergues estão abertos, e que a cidade está mais triste por isso.

Queria chegar a Santiago no domingo, dia 06, pelo que o percurso até Pontevedra e Caldas de Reis, de 46km, teria que ser feito num só dia. E foi.

Depois de um jantar num típico restaurante Galego, com a Filipa Rancón, peregrina de Lisboa, na manhã seguinte vagueei um pouco por Caldas de Reis, metendo os pés nas suas águas a ferver que jorram nas fontes, e maravilhei-me com o seu rio límpido, que pude conhecer com a Marisa e a Rita, amigas da região Centro de Portugal, que também estavam ali, a fazer o Caminho.

© Eliseu Sampaio / Mais Guimarães

Partimos para Padrón, que deveria ser o último repouso antes da chegada a Santiago. O Richard, o Jorge, e o Irla (o cão que os acompanhava) integraram também a história deste Caminho.

O Richard havia prometido ao seu cão, quando pequeno, que haveriam de ir a Santiago. O Irla tinha agora 10 anos de idade “e se não fosse já, provavelmente não conseguiria cumprir a minha promessa”, disse-me o Richard.

Queria chegar a Compostela a tempo da missa do peregrino, pelas 12h00, no dia em que se celebrava ali o “Corpo de Deus”, e era dia de festa religiosa na catedral.

“Os Caminhos de Santiago são trilhos de humanidade, encontro de peregrinos que partem ao encontro de si mesmos.”

Eliseu Sampaio

Nessa manhã, última do caminho, senti que a pressa que tantas vezes sentimos em chegar não faz sentido, no Caminho como na vida. Chegar a Santiago, por importante que seja, não é o mais significativo desta jornada.

A chegada a Santiago é bela. Vives ali um sentimento de realização. Mas podes experimentar sentir que aquilo não é um fim, mas o início de novos e múltiplos caminhos na tua vida, que os farás após uma experiência tão transformadora como esta é. Uma jornada que vives intensamente contigo, com os outros, e com o mundo inteiro, num Caminho de uma riqueza espiritual única. 

© Eliseu Sampaio / Mais Guimarães

Perceberás, certamente, que realmente importante é o que aprendes, o que partilhas e deixas partilhar, o que sentes em cada trilho, em cada passo que dás, a cada momento da vida que tens o prazer de viver.

E agradeces a todos os que partilharam e partilham o Caminho, a vida, contigo.

Uma vez peregrino, peregrino para sempre.

Ultreia!

© Eliseu Sampaio / Mais Guimarães

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