“Cortar a meta é uma alegria única, igual à que vamos viver quando ultrapassarmos este flagelo”

Maria rapaz, campeã e capaz de mudar mentalidades: assim se assume a atleta olímpica Aurora Cunha. Natural de Ronfe, Aurora recorda sem saudosismos os êxitos da sua carreira e acredita que esta “vai ser a maratona mais difícil da nossa vidas”.

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Como começou a sua ligação o atletismo?

A minha iniciação no atletismo aconteceu entre 1974 e 1975, sendo eu uma jovem. Fui trabalhar aos 14 anos. Na verdade, começou com muita naturalidade, por uma brincadeira. Ao domingo éramos obrigadas a ir ao terço e, num belo domingo, na minha aldeia, que é Ronfe, que agora é Vila de Ronfe, através de um amigo nosso, nosso treinador, que era o Toninho Serralheiro. Fomos correr e brincar, jogávamos a bola e assim começou o atletismo. Fizeram-se lá algumas provas, pelos montes, e eu lembro-me que já usava calças de ganga e fui uma atleta, uma maria-rapaz, que ganhou a toda gente. O amor pelo atletismo começou aí. Duas vezes por semana treinávamos em Ronfe sob orientação do Toninho Serralheiro.

Como é que a sua família olhava para este seu novo amor?

Claro que naquela altura os meus pais não viam muito bem uma jovem andar a correr. Porque parecia mal, era feio, andávamos a mostrar as pernas. Hoje mostram-se as pernas e mais alguma coisa e nada fica mal. Tínhamos um grupo de 20 e tal miúdos e miúdas. Hoje, quando me ponho a olhar para as fotografias, gostava de saber onde é que eles andam, para a gente se poder reunir, porque é nestes momentos que temos saudades dos nossos momentos de jovens. Em ‘76, o [clube] Juventude de Ronfe foi a Lisboa. Ir a Lisboa em 76 era qualquer coisa de espetacular. Nós não tínhamos dinheiro nem onde ficar, mas arranjou-se tudo. Tínhamos um casal amigo, que nos deixou ficar na sua casa em Lisboa. Fomos a Lisboa e fui participar nos Campeonatos Nacionais de Pista ao Ar Livre. Participei nos 1.500 metros no sábado, onde não conhecia ninguém nem sabia quem eram as minhas adversárias. Éramos completamente desconhecidas, como várias jovens nesse tempo na minha altura. Uma coisa é certa. Nessa altura, a Rosa Mota já era a recordista nacional e eu bati a Rosa Mota e bati o recorde nacional. Nem sequer tinha a noção do que tinha acabado de fazer. Isto em 1976. Foi aí o começo de uma pequena viragem na minha vida como atleta, na vida para Ronfe, na vida para o Juventude de Ronfe. Na verdade, no dia seguinte, eu fazia capa nos jornais da altura, como o Recorde, A Bola, ou a Gazeta dos Desportos. No domingo aconteceu a mesma coisa. Fui aos 3.000 metros e bati o recorde nacional. E a partir daí começaram os clubes grandes a fazer-me convites, como o Sporting ou o Porto, mas eu não queria deixar o Ronfe, não queria deixar a minha aldeia. E pronto, o meu começo no atletismo foi assim.

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Deu-lhe um gozo especial vencer essas provas tendo em conta que chegou desconhecida?

Nunca tinha saído de Ronfe e foi um “problema” irmos para Lisboa sozinhas, acompanhadas por um homem casado. Os nossos pais não aceitavam muito bem isso. Mas fui sempre uma miúda de luta, de garra e disse aos meus pais que não havia problema nenhum com o facto de o nosso treinador ser um homem casado. Tudo isso também dependeu muito da minha capacidade de decisão. Era aquilo que queria, o que gostava de fazer e ponto final. Foi isso que fiz. Claro que hoje digo: como é que fui capaz de ir contra tudo e contra todos? Até o padre da freguesia, que era no fundo o homem que rezava por todos… Quando a minha mãe ia confessar-se era um problema. O padre dizia à minha mãe para me tirar da rua porque parecia mal. Eu sabia sempre quando a minha mãe se ia confessar. Sempre que a minha mãe ia confessar-se era um pandemónio. Dava-me cabo da cabeça, porque o senhor lhe tinha dito que parecia mal e não sei quê. Só que depois as coisas inverteram-se, depois desse fim de semana de julho, dos Campeonatos de Portugal, aparecendo eu na comunicação social. O padre da minha aldeia era pregador, ia pregar para as aldeias vizinhas. É engraçado porque a Aurora Cunha já era o símbolo do próprio padre que me complicou a vida, que me fez a vida negra. Também mudei mentalidades. E isto também foi importante. E depois começou uma nova etapa da minha vida. Eu trabalhava na Somelos e, na verdade, a minha empresa foi muito importante nos primeiros anos da minha vida, porque sempre me ajudou, facilitando os horários para eu treinar. Se não fosse isso, seria difícil. Foi quando entre 1977/1978 apareceu o Futebol Clube Do Porto…

Foi um grande dia em Ronfe, onde todos foram assistir à prova…

Exatamente. O professor Moniz Pereira, que infelizmente já partiu, fez-me um convite para ir para o Sporting e combinou comigo e com o Toninho vir fazer um treino a Ronfe. Na verdade, a minha aldeia na altura tinha muito menos pessoas do que agora tem. Mas na altura, a aldeia parou para receber o professor Moniz Pereira, o homem do atletismo português. Fizemos um treino da Juventude de Ronfe num campo de futebol. Depois do treino ficou decidido que iria falar com os meus pais, mas depois… falou o Porto. Porque os meus patrões eram portistas e tendo eu facilidade na empresa é evidente que preferi ficar no Porto, onde permaneci durante cerca de 18 anos.

Mas tinha de conciliar os treinos com o trabalho, certo?

Exatamente. Continuava na mesma a trabalhar. Trabalhava numa confeção onde, por acaso, a minha irmã Odete era a encarregada. Também não foi fácil. Quando fui para o Porto, os meus patrões deixavam-me ir duas vezes por semana, à terça e quinta-feira, treinar com o professor Fonseca e Costa, que veio treinar o Porto. Não trabalhava à terça e quinta à tarde e tinha de apanhar a camioneta que ia para o Porto, onde gastava duas horas de camioneta. Apanhava a camioneta à 13h00 e chegava passado duas horas ao Porto. Era daquelas que parava em todas as estações e apeadeiros, como se costumava dizer. Foi assim até 1984/85, quando depois fiz uma paragem e me tornei profissional do atletismo.

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Como é foi a experiência no FC Porto?

Parecendo que não, os mitos A minha experiência foi ótima, porque quando saímos de uma aldeia de um pequeno clube e vamos para um dos maiores clubes é espetacular. É evidente que não conhecia o Porto, conheci o primeiro presidente, doutor Américo de Sá e depois vim a conhecer o atual presidente, o Pinto da Costa. Foi uma experiência que vivi que gostei. Temos que nos lembrar sempre das coisas boas e não das coisas más. Há ingratidão na vida de toda a gente, mas eu tenho uma experiência muito positiva no FC Porto, até porque fui a primeira atleta do FC do Porto a dar as primeiras vitórias aos sócios e isso é um orgulho muito grande.

Tem saudades da competir?

Não. Competi até 1996, quando decidi abandonar a competição, porque tive lesões. Os meus sonhos eram ir aos Jogos Olímpicos e estive nos Jogos Olímpicos, estive em Campeonatos da Europa, em Campeonatos do mundo… temos que ser inteligentes e saber sair pela porta grande. Até nisso acho que fui inteligente, porque saí pela porta grande quando vi que já não conseguia atingir aquele patamar de vitórias que tinha conseguido até então. Foi quando abracei depois outros projetos, onde fiz parte de uma empresa de eventos onde tive um papel fundamental. No fundo aquilo que essa empesa é hoje deve-mo a mim e vai ficar a dever-mo a para sempre. Temos que nos lembrar das coisas boas que fizemos. Acho que fiz mais coisas boas do que más. Talvez a minha frontalidade, honestidade e o facto de ser uma pessoa pura me tivesse prejudicado ao longo da minha vida.

Já que está a falar de coisas boas, qual foi a prova que lhe deu mais gozo ganhar?

Tenho uma carreira tão longa de tantas vitórias, que tenho dificuldade em escolher. Não é qualquer atleta que tem cerca de 18 anos de competição ao mais alto nível, com grandes vitórias. Claro que as pessoas me perguntam: “A Aurora não tem pena de não ter vencido uma medalha?” Mas não podemos viver daquilo que não conseguimos ganhar, nem todos os atletas podem ser campeões olímpicos. Orgulho-me que tive uma carreira em que fui recordista nacional, fui à meia maratona durante 14 anos, ganhei quatro ou cinco das maratonas mais importantes do mundo, ganhei três Campeonatos do Mundo. Na verdade, posso escolher o Campeonato do Mundo de Estrada de 1986, quando consegui o tri. Foi esse que tive maior gozo.

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Porquê?

Porque estávamos a viver um momento conturbado com a Federação, por pequenas guerras e desentendimentos. As atletas não ficaram unidas no mesmo hotel. Eu sabia que esse Campeonato do Mundo de Estrada era importante para mim e tinha que o vencer. Fui para Lisboa, um campeonato onde tivemos mais de 30 mil pessoas na zona de Belém a assistir. Antigamente milhares de pessoas iam para a estrada assistir aos nossos êxitos e vitórias e a mim deu-me um gozo muito grande por uma razão muito simples. A imprensa na altura pouco falava de mim quando já tinha ganho os dois campeonatos anteriores e praticamente pouco falava da Autora Cunha e eu disse: tenho que vos provar que em Portugal não é só Rosa Mota, também existem outras atletas. Foi uma afirmação pessoal. Também o devo a uma pessoa, que hoje é meu marido, que sempre me incentivou, sempre me disse que eu tinha de ganhar aquilo e que ia ganhar. Fui para Lisboa, ganhei aquele Campeonato do Mundo que me deu um gozo muito grande, principalmente aos últimos três quilómetros. Cortar a meta com aqueles milhares de pessoas foi uma alegria única.

Consegue a descrever a sensação de cortar a meta?

A sensação de cortar a meta, a ser vista por milhões de pessoas, com aquela moldura humana fantásticas dos nossos portugueses…. Eu e mais colegas fizemos parte de uma geração que o país dificilmente terá novamente. É uma alegria única. Pensando nessa vitória é a mesma alegria que todos vamos vier quando virmos que ultrapassamos este flagelo que estamos a viver. Acho que vai ser uma vitória superior até àquela vitoria que vivi nesse Campeonato do Mundo.

Como tem vivido estes dias?

Acho que nestes dias sou uma pessoa privilegiada. Sendo uma pessoa de risco, aquilo que gostava de fazer nesta altura era, na verdade, aquilo que sempre fiz: ser solidária, ajudar os outros. Infelizmente não posso fazer porque já passei por um processo de cancro da mama e, portanto, tenho de me proteger. O que gostava de fazer era andar nas tropas, como se costuma dizer, com a Cruz Vermelha, da qual sou embaixadora na minha cidade, mas não posso fazê-lo. É muito difícil passar tanto tempo em casa. Acho que temos de refletir no que estamos a viver. O mundo estava a viver uma loucura. Não tínhamos tempo para nada. Corríamos 24 horas todo o dia. Eu também acredito que isto é um chamamento de Deus para nos por à prova. Isso ninguém me tira da cabeça. Tínhamos que pensar que tipo de vida queríamos fazer. Sou católica e espero que isto mude toda a nossa maneira de viver. Não está a ser fácil para muitas famílias com filhos, com os pais, imagino… eu felizmente acho que neste momento sou uma privilegiada. Tenho espaço para sair, tenho o meu quintal para fazer… pequenino, mas vou plantando, uma coisa aqui uma coisa ali, pelo menos para nos entretermos. Além disso, vou fazendo o meu treininho, por aqui pertinho da minha residência, de 30 minutinhos. Também é um privilégio poder continuar a fazer isso porque vou a horas mortas. Não vejo ninguém. Um dia destes parei para pensar, sozinha, num silêncio que nunca tinha vivido e parei a meio do treino e a pensar que, na verdade, tudo isto mudou. Parecia que estava num deserto completamente isolada de tudo e de todos e faltou-me naqueles momentos do “Bom dia! Boa tarde! Olá Aurora!”. Dá que pensar que não somos nada, não somos ninguém, tudo temos e nada temos. Neste momento não é fácil para muitas famílias.

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Quando era mais nova trabalhava numa confeção, vivia numa pequena aldeia, alguma vez pensou que viver uma situação destas?

Sabe que pertencia a uma família com dez irmãos. Nunca passámos fome. Éramos uma família grande… tive de ir trabalhar aos 14 anos, mas também estou habituada a sofrer. A minha mãe dizia-me muitas vezes que eles viveram a guerra deles e que nos havíamos de viver uma fase de dificuldade na nossa vida. Hoje, onde ela estiver, dou-lhe razão. Em 60 anos, nunca na minha vida pensei estar presa na minha casa, pensar em todas as famílias que vão perder os seus empregos. É um flagelo para todos nós. Claro que vivemos num sufoco, pensamos nisto todos os dias. Mas há que acreditar, ter fé que Deus nos vai ajudar, que neste momento todos temos de ser solidários com os médicos, com os enfermeiros, auxiliares, com todas as pessoas que trabalham nas grandes superfícies para termos comida em casa, os arrumadores, Bombeiros, toda a gente neste momento temos que lhes ficar gratos para toda a vida.

E, por outro lado, na sua carreira, pensaria atingir este nível de vitórias?

Acho que valeu a pena todos os sacríficos que fiz. Passei muitos sacríficos, gastei horas enfiada numa camioneta para ir treinar ao Dragão, fomos a Lisboa e gastei 18 horas numa camioneta para ir competir. Fui uma miúda habituada a sofrer. Aquilo que construi e ganhei foi com muita capacidade de sofrimento, que é isso que espero que esta nova juventude tenha suporte para sofrer aquilo vamos sofrer quando tudo isto terminar. Portugal nunca mais vai ser o mesmo. Temos de ser realistas. O meu país nunca mais vai ser o país das mil maravilhas.

Como olha para o panorama e o futuro do atletismo português?

Hoje vejo o panorama do atletismo português com algumas garantias e novos talentos mais no setor feminino do que no masculino. No feminino estamos com um grupo de jovens treinadores a fazer um bom trabalho, p Carlos Monteiro na Maia, a Sameiro Araújo com a minha querida Mariana Machado, filha da minha colega Albertina Machado, que é um talento. Foi sempre uma miúda que admirei que vai ser um fenómeno para o atletismo português. É uma miúda inteligente, profissional e, portanto, estou confiante que vou viver muitas vitorias que nos vai dar. Agora vamos ver como tudo isto vai acabar, como e que as coisas se vão comportar e todos temos que estar unidos numa altura destas. Esta vai ser a maratona mais difícil das nossas vidas, mas vamos vencê-la.

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