CUSTA-ME EN(CAIXA)R!

Por Rui Armindo Freitas,

Economista

Foi tornada pública na semana passada a auditoria à gestão da Caixa Geral de Depósitos no período 2000-2015. Esta auditoria, pedida pelo Ministério das Finanças, concluiu que nesse período houve concessão de crédito aos que agora se chamam grandes devedores, sem o cumprimento dos requisitos necessários para a obtenção dos mesmos naquela instituição. Ora, nada disto seria particularmente grave, se, todos nós, não tivéssemos sido chamados a, com os sacrifícios e impostos, recapitalizar a Caixa em 3,9 mil milhões de euros. Destes 3,9 mil milhões de euros, 1,2 mil milhões foram para resolver as perdas geradas por empréstimos prestados a quem não cumpria os requisitos para os obter, falamos de 46 empréstimos que geraram a perda que referi. 46 empréstimos obtidos em condições que nenhum de nós obteria, para negócios duvidosos que ainda estão, em muitos casos por esclarecer. Financiamentos que, desconfia-se tenham sido concedidos depois de muita pressão política sobre dirigentes da CGD, também, muitos deles coniventes com toda esta história.

Confesso que, na segunda feira, ao ler a lista dos grandes devedores mal ela foi publicada, para além da revolta que senti, comentei com amigos que, imaginava que teríamos os cidadãos na rua, “à la” Argentina, a bater com panelas e a exigir rápidos esclarecimentos e consequências para todos os prevaricadores. Pois muito bem, julgo que este não passou de mais um tema politico-económico, sobre uma realidade à qual a maioria dos portugueses não gosta de dispensar tempo… Mas é bom que se comece a perceber, que estes actos de gestão ruinosa, de quem os praticou e de quem deles beneficiou, têm consequência no dia a dia de todos nós. Julgo que é tempo de os cidadãos tomarem consciência que, se o seu filho, mãe ou pai, não tiveram um atendimento adequado num qualquer serviço de urgências por falta de material ou pessoal necessário, essa realidade está ligada às “Caixas Geral de Depósitos” que grassaram neste país. Que se um filho não teve direito a uma bolsa para ensino universitário por estar no limiar de um escalão que foi alterado, tem por base o saque e o desgoverno que aconteceu em Portugal em determinada época bem definida. Que se faltam meios para combate aos incêndios, é porque o nosso dinheiro foi canalizado para apagar outros “fogos” ateados pela falta de ética na gestão da coisa pública. Se foi suprimida mais uma linha de transportes, ou a ferrovia está no estado em que está, é porque os nossos impostos estão noutro sítio qualquer.

É bom que se perceba também que depois de tudo isto, tivemos que ficar a saber desta realidade por uma comentadora da CMTV, uma vez que a auditoria pedida pelo Ministério das Finanças, isto é, por Mario Centeno, não tinha sido divulgada apesar da pressão que tinha sido feita pela direita parlamentar. Surpreende também a desfaçatez de Centeno, na posse da dita auditoria há meses e nada fez, agora apressar-se a instar a PGR a investigar o caso até às últimas consequências, até se constituindo assistente. De facto a lata não tem limites. Ainda mais que ficamos a saber que grande parte dos ilícitos que possam ter tido lugar, correm o risco de prescrição…

Apesar da gravidade do caso em questão há uma conclusão que sou forçado a tirar, grande parte da nossa população, não consegue fazer a ligação entre um acontecimento deste género e a sua consequência. É mais fácil queixarmo-nos de toda e qualquer função do Estado prestada de forma deficiente do que perceber por que é que o Estado chegou a este ponto. Neste caso em concreto desejo que se apure e responsabilize até às últimas consequências, doa a quem doer. Porque é por muitas CGDs que chegamos onde estamos hoje.

©2020 MAIS GUIMARÃES - Super8

Fazer login com suas credenciais

Esqueceu sua senha?