DEFESA DO CONVÍVIO: O ASSOCIATIVISMO COMO TRAVÃO DA GANÂNCIA

por Esser Jorge Silva

Sociólogo

Onze mandatos, onze votos. Não escapa o forte sinal dado pela totalidade dos eleitos à proposta da Câmara Municipal de Guimarães em apoiar a Associação Cultural Convívio com 150 mil euros, para esta responder ao direito de preferência, num processo de compra compulsiva do edifício onde está instalada há quarenta anos. Quer dizer: todos sabem e reconhecem o papel que a Associação Convívio desenvolve no panorama cultural da cidade. Todos sabem, também, o que significará o espaço da cidade se não se acautelar a manutenção de equipamentos e instituições criadas por cidadãos associados entre si. Todos sabem o que está a ocorrer nas cidades que se deixaram ir na voragem do dinheiro fácil.

Talvez a Associação Cultural Convívio configure a metáfora dos cidadãos vimaranenses que, nos períodos de escassez de tudo, inclusive de direitos, tenham encontrado na fusão dos interesses uma forma de sobrevivência. Sendo certo que associações não alimentam fisicamente são contudo responsáveis por um outro tipo de sustento que produz laços nas relações entre os seus habitantes. Desse fermento, constituído como necessidade de manutenção da comunidade, faz-se a cidade e os seus cidadãos. Pelo atravessamento das suas exigências, o Convívio pode até convidar a ideia de hipérbole cultural. Mas simboliza também a hipossemia vertida naquelas pequenas associações que, noutros tempos, serviam apenas para indivíduos se juntarem para jogar dominó.

A associação de indivíduos entre si significa participação de indivíduos na cidade. Exprime a prática daquilo que, atualmente, todos se queixam de estar a desaparecer a olhos vistos, ou seja, a cidadania. Revigora o sentido humano que deve fluir pela urbe. Dá significado aos edifícios, às salas, às mesas e às cadeiras. Às ruas, inclusive. Todas estes objetos, sem pessoas, todos estes edifícios cheios de camas estrangeiras, sem os autóctones – que são os autênticos – estão condenados a perder a sua dignidade funcional quando tornadas estranhas para os seus utentes.

Uma cidade é como é. Forma-se nas suas vicissitudes, existe suas idiossincrasias e sustenta-se na vontade dos seus habitantes. E a vontade dos habitantes da cidade pode ser aferida pelas práticas dos seus comerciantes. Nesse particular é assaz pertinente ver a contenção nos preços praticados pelas lojas da cidade. Esse ato de contenção significa também um ato de denuncia da vontade da generalidade dos cidadãos. Se por um lado revela a não cedência à ganancia, também expressa a vontade geral de manutenção do sentido de partilha entre os locais. Nestes tempos que seria fácil ceder à facilidade de tanta carteira estrangeira cheia vagamundeando pela urbe, regista-se o autocontrolo da generalidade dos comerciantes em permitir que, por exemplo, o autor deste texto possa frequentar esses espaços sem se sentir um turista na sua cidade.

Posto perante a obrigação de responder ao direito de preferência na compra do edifício onde funciona a sua sede – e o seu coração – a Associação conseguiu obter os 370 mil euros exigidos. Mas, uma série de peripécias – um eufemismo para manter o decoro –, levou a que um seu original pretendente acabasse por registar uma escritura de compra, assim impedindo a realização dessa preferência. As peripécias – o eufemismo – inscrevem-se nas formas predadoras, muito em voga atualmente, de realizar negócios. Em tudo, o ato predador realizado, compromete o sentido que a generalidade dos habitantes da cidade estabelecem nas relações entre si.

Não, não se trata de romantismo. Não se trata de uma oportunidade de negócio. Trata-se de decência. Não se ataca, de forma tão ignóbil, uma associação de obra ativa como o Convívio. Não se aniquila, de uma penada, um marco do sentido associativo da terra, apenas porque o seu edifício-sede nos convoca a inveja. É essa a mensagem que os onze votos camarários lhe estão a transmitir, senhor engenheiro José Arantes. A não ser que, sem nos darmos conta, se tenha tornado, pelo lado da ganância, num predador da cidade no qual apenas lhe interessa ser o dono disto tudo.

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