Desporto escolar: um debate sazonal

Por José João Torrinha.

jose joao torrinha

Por José João Torrinha, Advogado e Presidente da Assembleia Municipal de Guimarães Há temas com a sazonalidade própria das estações do ano. Um deles é o do desporto escolar. De quatro em quatro anos, está aberta a discussão, a qual cresce num ritmo paralelo à frustração lusa com a míngua de medalhas.

A cada atleta que fica aquém das expectativas, surge o lamento: “se ao menos apostássemos a sério no desporto escolar…” e quiçá Portugal se pudesse equiparar a países da sua dimensão como a Holanda, a Nova Zelândia ou a Hungria que têm resultados muito melhores.

E depois… depois o debate esmorece à medida que a bandeira olímpica vai sendo arreada até se seguir o silêncio dos cemitérios. Um silêncio com prazo de validade: quatro anos. É que nos Jogos seguintes o processo vai-se repetir e assim sucessivamente.

Este ciclo muito pouco virtuoso existe porque, não obstante alguns avanços que possam ter existido ao longo das últimas décadas, a verdade é que falta ao desporto escolar uma dimensão competitiva a sério. Já não se pede que sigamos os passos dos Estados Unidos onde se atinge um nível tão elevado que os jovens estudantes saem diretos dos liceus para o profissionalismo ao mais alto nível.

Ainda assim, caso existisse uma dimensão competitiva séria, com visibilidade; caso os professores fossem devidamente motivados para organizar e treinar as equipas das suas escolas; caso estas apostassem em ter programas desportivos a sério, então Portugal conseguiria fazer a única coisa que um dia poderia guindá-lo para outro nível: alargar a base de recrutamento ao máximo para que nenhum talento se perdesse.

Até lá, a única resposta séria a este problema tem sido dada a apenas dois níveis. De um lado, as autarquias locais. Guimarães é um bom exemplo. Quando eu era jovem, tínhamos a possibilidade de jogar futebol, andebol, vólei e pouco mais. Se hoje pensarmos nas infraestruturas que foram construídas, como a cidade desportiva, com a sua pista Gémeos Castro, o pavilhão multiusos, ou mais recentemente a magnífica academia de ginástica, percebemos o esforço que foi feito para que os jovens de hoje tivessem condições para se dedicarem a modalidades com que nós nem sonhávamos.

A outro nível, os clubes e associações desportivas que, do alto da sua carolice, mas da sua igualmente inesgotável generosidade fizeram das tripas coração para que se cumprissem os tais sonhos de milhares de jovens. Gerações de dirigentes que foram trabalhando como sabiam e contra todas adversidades.

Tudo isto existe e tem sido feito, mas quando nos comparamos internacionalmente ao mais alto nível percebemos que é pouco. Como fazer então? Não temos outra solução senão o tal alargamento da base de recrutamento, incentivado pelo desporto escolar. Porque não o fazemos? Pela mesma razão pela qual infelizmente muitas coisas neste país não se fazem. Por um lado, porque não existe capital de protesto suficientemente forte para que os sucessivos governos se sintam pressionados a fazê-lo.

Por outro, porque os responsáveis da pasta do desporto não têm tido ou a força ou a vontade para pegar no touro pelos cornos e fazer a revolução que nos permitisse dar o tal salto em frente.

Até lá, meus caros… até lá esperemos por Paris 2024, onde, se nada mudar, cá estaremos a fazer um balanço de mais um magro pecúlio e a dizermos todos em uníssono: é preciso apostar no desporto escolar.

PUBLICIDADE
Arcol

NOTÍCIAS RELACIONADAS