Endless apresenta-se em Guimarães para “abrir portas e mentalidades”

O palco do grande auditório do Centro Cultural Vila Flor vai acolher o espetáculo “Endless”, da companhia Dançando com a Diferença, já esta sexta-feira e sábado, 29 e 30 de abril, pelas 15h00 e 19h00, respetivamente.

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Desde a sua estreia, há precisamente 10 anos, já foi apresentado em diferentes cidades e teve como mote o holocausto, apesar de sempre se adaptar ao contexto atual. Mas Endless tem outra particularidade que o destaca dos demais: a inclusividade.

Desde sempre que o espetáculo de Henrique Amoedo se empenhou em envolver a comunidade. Especificamente em Guimarães, o espetáculo faz parte do projeto “+ Inclusão / Fora de Portas”, uma parceria d’A Oficina com a Dançando com a Diferença que pretende aproximar diferentes públicos à dança inclusiva.

No total, serão 160 pessoas em cena, incluindo jovens da APCG – Associação de Paralisia Cerebral de Guimarães, do Lar Residencial Alecrim / Centro de Atividades Ocupacionais, o CAO / Lar Paraíso, Centro Social de Brito, da CERCIGUI – Cooperativa de Educação e Reabilitação de Cidadãos Inadaptados do Concelho de Guimarães, da EB2,3 de Abação – CAA – Centro de Apoio à Aprendizagem, do Agrupamento de Escolas João de Meira e do Agrupamento de Escolas Francisco de Holanda.

Depois de passar pela cidade berço para a apresentação do espetáculo “Vaamo share oque shop é Beiro Pateiro”, no ano passado, o diretor artístico aceitou o convite d’A Oficina para “dar continuidade ao trabalho da dança inclusiva, mas estendendo-a à comunidade, nomeadamente às escolas e instituições de Guimarães”.

“A principal dificuldade é, sem dúvida, o número de pessoas envolvidas. O projeto foi crescendo e isso é muito bom. Se por um lado é um desafio em termos de logística, por outro lado torna-se um desafio muito motivador. Temos de descobrir em cada um tem de melhor para contribuir para o espetáculo”, explicou Henrique Amoedo ao Mais Guimarães.

Com a consciência de que “o mais importante é a forma como se põe cada pessoa em palco”, o responsável do espetáculo explica é essencial “que o público seja tocado emocionalmente pelo espetáculo de alguma forma”. “Temos conseguido esse resultado porque observamos o que cada um tem de melhor”.

O encenador mostrou-se muito satisfeito com a colaboração dos agrupamentos de escolas e encarregados de educação, mas também com a envolvência da comunidade fora desse núcleo. O espetáculo contou com outras 30 pessoas inscritas.

Tendo em conta que se adapta a cada cidade por onde passa, mas também aos acontecimentos que marcam a atualidade mundial, o “Endless” não poderia estar dissociado da realidade que se vive na Ucrânia. “É impossível cada um dos intérpretes não trazer o que vê no seu dia a dia, até porque a informação que circula é muita”, completa o responsável.

Já com a sessão de sábado completamente esgotada, Henrique Amoedo não tem dúvidas de que o espetáculo já tocou a comunidade a partir do momento em que existe o intercâmbio entre os participantes e as pessoas que os rodeiam. No que ao público diz respeito, o encenador espera que primeiramente “sejam reconhecidos os talentos e o trabalho levado a cabo pela comunidade de Guimarães”, mas também que leve à reflexão sobre as questões sociais e políticas presentes no espetáculo.

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“Ainda há muitas barreiras para quebrar”

O Mais Guimarães esteve também à conversa com dois artistas do espetáculo, Guilherme Cerqueira, da Escola Francisco de Holanda, e Mariana Gomes, do Centro e Lar Inclusivo do Polo do Paraíso (CLIPP). Ambos admitiram que a participação no espetáculo lhes tem trazido “felicidade” e têm conseguido “fazer novas amizades”.

Partilham em comum a paixão pela dança e também um pouco de nervosismo, tendo em conta que os grandes dias de espetáculo estão mesmo a chegar.

“Comecei a gostar de dançar e vou querer continuar a dançar muito”, referiu Mariana Gomes. Quando questionamos se gostava de mais oportunidades idênticas ao Endless, a jovem não tem dúvidas e responde com um assertivo: “Sim!”.

Helena Soeiro, professora na Escola Francisco de Holanda, e Ana Rita Campos, terapeuta ocupacional do CLIPP, passaram por três semanas de formação com o diretor artístico.

“Depois de uma pandemia e de estarem tanto tempo isolados, tanto para nós técnicos, como para eles, é uma experiência muito boa. Para regressarmos à normalidade, nada melhor do que a arte para nos expressarmos. Sobretudo para eles que nem sempre conseguem expressar tudo o que sentem por palavras, a dança é um instrumento fundamental”, destacou a terapeuta ocupacional.

Admitindo que por vezes as escolas se focam muito na parte académica, Helena Soeiro refere que são importantes “oportunidades como estas para que os jovens se libertem um pouco” e também para promover o consumo cultural.

É verdade que atualmente muito se fala de inclusão, mas para as técnicas não é o suficiente porque “não passa da teoria”. Contrariamente ao habitual, “este espetáculo traz a prática” e vai “abrir portas e mentalidades”.

Gregório Rojas, assistente de coreografia, enaltece a comunidade vimaranense que acolheu a companhia de dança com “braços abertos”. “Regressarmos para a Madeira e despedirmo-nos vai ser um choque bastante grande. Tem sido um processo muito rico”, referiu o coreografo, acrescentando “havia alunos que nunca tinham tido contacto com outros alunos ou pessoas com deficiência”.

“Num momento inicial quase que há um receio ou estranheza normal, mas depois cria-se uma familiaridade e interajuda que faz com que as coisas vão fluindo naturalmente”, elencou.

“Se forem dadas oportunidades e espaço para participar, para aprender e ser estimulado, coisas fantásticas acontecem. Há sempre mais para fazer e o céu não é o limite”, finalizou Gregório Rojas.

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