ENVELOPES FINANCEIROS

Por António Rocha e Costa,

Analista Clínico

Já não estamos muito longe da Páscoa e a comprová-lo está o facto de já ter recebido na caixa do correio de casa aonde moro, na aldeia, um envelope enviado pela secretaria da Paróquia, para nele depositar o contributo designado por “obrada”.

No frontispício do envelope pode-se ler: É um dever de cada família, contribuir para a Paróquia, como nos diz o 5º Mandamento da Santa Igreja: “contribuir para as despesas do culto e sustentação do clero, segundo os legítimos usos e costumes e as determinações da Igreja”.
Conforme os usos e costumes da freguesia, no dia de Páscoa lá coloco o envelope com o contributo familiar em cima de uma pequena mesa, à entrada do compartimento onde recebemos o Compasso, muitas vezes ao som do estralejar do foguetório.

Entretanto há um ritual que se repete todos os anos: enquanto a família e os amigos convidados “beijam” a cruz engalanada e perfumada a preceito, o membro do compasso que transporta um saco, olha em volta à procura do dito envelope e mal lhe põe a vista em cima, estende a mão que está livre em direcção ao mesmo e num ápice introdu-lo no receptáculo. E o cortejo lá segue em direcção à casa seguinte, com o toque da campainha a sinalizar o percurso.

Por muito que proclame a pobreza Franciscana, a Igreja Católica, e não só, vai convivendo bem com o vil metal, que tantas almas já conduziu ao inferno.

Salvo algumas excepções retratadas por um ou outro quadro bíblico, como aquele em que Cristo expulsa os vendilhões do templo, a fé e o negócio andaram quase sempre ligados, num mundo cada vez mais dominado pelo materialismo que vai corroendo as crenças e as utopias.
Referindo-se à Jornada Mundial da Juventude que terá lugar na cidade de Lisboa em 2022, um conhecido jornal nacional titulava assim a notícia: “Vinda do Papa vale o dobro da Web Summit”, acrescentado por baixo: “Madrid-2011 teve um impacto de 354 milhões de Euros”, o que não é realmente nada se compararmos com o buraco da Caixa Geral de Depósitos. A esperança num Mundo melhor, os valores da paz e do amor ao próximo, ficarão para segundo plano, pois os números é que dominam em tempos de capitalismo selvagem e global.

Mudando de assunto, mas mantendo o mote do envelope financeiro: o Governo, depois de aturada reflexão e estudos aprofundados, decidiu iniciar um processo de descentralização ou de desconcentração de competências e de poderes, transferindo-os para as autarquias. Acontece que, talvez por desconfiarem da amplitude da “esmola”, a maior parte delas tem rejeitado a transferência de grande parte das competências, aceitando apenas aquelas que de momento lhes dão mais jeito, alegando desconhecer qual o poder decisório que passarão a ter e qual o “envelope financeiro” que acompanhará essas transferências.

Entretanto, a Câmara de Guimarães aceitou para já a competência da gestão das vias de comunicação. Será desta que irão ser desbloqueadas as obras do tão proclamado e famoso nó de Silvares, que o Presidente da autarquia quer que arranquem em Julho? E quem vai pagar o investimento estimado em 2,5 milhões de euros, se o correspondente envelope financeiro ainda não estiver garantido? Uma vez mais seria desejável que a transparência de todo o processo fosse uma evidência inquestionável e não uma nebulosa burocrática, como vai sendo costume.

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