Esser Jorge Silva: “Não temos vergonha da cultura popular. Não temos de ter”

Há poucos meses à frente d'A Oficina, a cooperativa que gere os mais importantes equipamentos culturais de Guimarães, nomeadamente o Centro Cultural Vila Flor, o Centro Internacional das Artes José de Guimarães (CIAJG), a Casa da Memória, o Teatro Jordão, a Loja Oficina ou os Fornos da Cruz de Pedra, Esser Jorge Silva encara a organização das Festas Gualterianas como um exercício de identidade coletiva.

© Eliseu Sampaio / Mais Guimarães

Doutorado em Estudos de Comunicação, Tecnologia, Cultura e Sociedade, mestre em Sociologia, lecionou na Universidade de Trás-Os-Montes e Alto Douro (UTAD) no Instituto Politécnico do Cávado e do Ave (IPCA) e acompanhou, ao longo da sua carreira, diversos processos ligados às políticas culturais, entre eles a avaliação do impacto de Guimarães Capital Europeia da Cultura.

Nesta entrevista, publicada na edição de julho da revista Mais Guimarães, o presidente executivo d’A Oficina, fala sobre a organização das Gualterianas, realçando a importância da cultura popular na afirmação identitária de um território. Sem hesitações, deixa uma ideia que resume a sua filosofia: “Não temos vergonha da cultura popular. Não temos de ter.”

As Gualterianas pertencem a Guimarães

Para Esser Jorge Silva, as Gualterianas não precisam de copiar modelos nem de procurar inspiração noutras paragens. O seu maior valor está precisamente naquilo que as distingue.

“Há uma tentação permanente de comparar grandes festas populares. Mas as Gualterianas são incomparáveis. São um fenómeno que só acontece em Guimarães. Não são reproduzíveis porque fazem parte da identidade desta cidade.”

Na sua perspetiva, o futuro das festas não passa por alterar a sua essência, mas por aprofundá-la. “Quando dizemos que queremos renovar as Gualterianas, isso não significa romper com aquilo que elas representam. Pelo contrário, significa compreender melhor o seu significado e apresentá-lo de forma cada vez mais consistente.”

É por isso que deixa uma afirmação ambiciosa. “As Gualterianas que vamos realizar serão as melhores de sempre, precisamente porque respeitam aquilo que sempre foram.” Ao longo da conversa, esta é uma ideia que regressa várias vezes.

© Eliseu Sampaio / Mais Guimarães

Para o presidente executivo d’A Oficina, continua a existir algum preconceito relativamente às manifestações culturais tradicionais, um preconceito que considera completamente ultrapassado.
Explica que hoje muitos dos grandes projetos contemporâneos procuram precisamente inspiração nessas raízes. “Há cada vez mais projetos de interseção entre linguagens artísticas que recorrem à cultura popular para alimentar aquilo que normalmente designamos por cultura contemporânea.”

Na sua leitura, isso demonstra que o património popular continua vivo. “A cultura popular continua a ser uma enorme fonte de criatividade. Não pertence ao passado. Continua a alimentar o presente.” Esser Jorge Silva acredita que o verdadeiro património continua a ser humano. São as famílias que regressam todos os anos, os grupos que mantêm vivas as tradições, os voluntários, os artesãos, os músicos, os visitantes e todos aqueles que fazem da festa um espaço de encontro entre gerações.

© A Oficina

Mais do que um programa cultural, as Gualterianas continuam a ser uma celebração da identidade vimaranense, um lugar onde memória e futuro se encontram e onde, como sublinha o presidente executivo d’A Oficina, a cultura popular continua a ser motivo de orgulho.

Reconhecer quem mantém viva a tradição

Para Esser Jorge, preservar a cultura popular não significa olhar para ela com nostalgia. Significa reconhecer o conhecimento especializado de quem continua a dedicar-lhe tempo, estudo e paixão. “Temos de convocar as pessoas que continuam ligadas à cultura popular não porque representam um mundo antigo ou rural, mas precisamente porque são pessoas profundamente interessadas, que conhecem a história do folclore, sabem porque existe determinada forma de vestir, determinados instrumentos ou determinadas danças.”

© A Oficina

Considera que esse conhecimento merece reconhecimento público. “São pessoas que estudam, investigam e preservam património. É exatamente isso que devemos valorizar.” Defende igualmente uma abordagem mais científica ao património imaterial. “A cultura popular também merece ser estudada do ponto de vista etnográfico. Não basta preservá-la; é preciso compreendê-la.”

Festas sincréticas: o encontro entre mundos

Quando procura definir aquilo que torna as Gualterianas especiais, recorre a um conceito da sociologia e da antropologia.
“São festas sincréticas.” Explica que nelas convivem realidades aparentemente opostas. “A periferia encontra o centro, o religioso cruza-se com o profano, convivem momentos profundamente espirituais com manifestações eminentemente festivas.”

É precisamente essa capacidade agregadora que considera única. “São festas que dizem muito sobre as idiossincrasias dos vimaranenses.”

© A Oficina

Esser Jorge Silva acredita que o verdadeiro património continua a ser humano. São as famílias que regressam todos os anos, os grupos que mantêm vivas as tradições, os voluntários, os artesãos, os músicos, os visitantes e todos aqueles que fazem da festa um espaço de encontro entre gerações.

Mais do que um programa cultural, as Gualterianas continuam a ser uma celebração da identidade vimaranense, um lugar onde memória e futuro se encontram e onde, como sublinha o presidente executivo d’A Oficina, a cultura popular continua a ser motivo de orgulho.

Uma Marcha renovada

Embora recorde que a organização da Marcha Gualteriana pertence à Associação Casa da Marcha, agora presidida por Rui Porfírio, o presidente d’A Oficina destaca que este ano “houve uma maior coordenação entre as entidades.”

© A Oficina

Essa colaboração poderá refletir-se em alguns aspetos da apresentação da Marcha. “Quem assistir poderá notar algumas diferenças, não tanto nos conteúdos, mas na forma como o conjunto foi pensado e articulado.” Na sua opinião, é também através destes ajustamentos que as Gualterianas acompanham a evolução da própria cidade. “As festas renovam-se todos os anos. É essa capacidade de evoluir que lhes permite manterem-se atuais.”

Feira de Artesanato: autenticidade acima de tudo

Esser Jorge Silva é particularmente assertivo quando fala da Feira de Artesanato, que decorre na Alameda de S. Dâmaso de 24 de julho a 3 de agosto. Recusa a ideia de transformar o certame num espaço onde coexistam artesanato genuíno e produtos de fabrico industrial. “Ou fazemos bem as coisas, ou assumimos que não as fazemos.” Explica que a seleção dos participantes foi particularmente rigorosa este ano, coordenada pela diretora do Património e Artes Tradicionais, Marta Silva. “O critério foi simples: artesanato verdadeiro.”

Na sua visão, um objeto artesanal distingue-se pelo processo, pelo conhecimento técnico e pela autenticidade. “Uma feira de artesanato tem de promover aquilo que é feito pelas mãos de um artesão e não aquilo que apenas parece artesanato.” A coexistência de peças artesanais com produtos de fabrico industrial contribuiria, considera, para desvalorizar o trabalho dos artesãos: “Isso retiraria credibilidade à própria feira.”

© A Oficina

Este ano, pela primeira vez, a Feira de Artesanato apresenta “Convergências – Mostra de Cruzamentos Disciplinares”, composta por um conjunto de artistas que cruzam linguagens e que têm na sua prática o saber fazer à mão. “Assim se coloca a Feira de Artesanato de Guimarães num mapa de circuitos de participação e de encontro de artesãos e de artistas, tradição e contemporaneidade, ancestralidade e futuro.”

Trazer a memória para o centro da cidade

Outra das novidades da edição deste ano é a introdução de uma corrida de cavalos, na tarde do dia 03, em Candoso S. Martinho, que se junta à Feira de Gado e ao habitual desfile de charretes.
Para Esser Jorge Silva, não se trata apenas de recriar tradições. “O que estamos a fazer é trazer para o centro da cidade uma memória coletiva.” Recorda que os animais fizeram parte da história económica e agrícola do território. “Foram força motriz, puxaram charruas, acompanharam o desenvolvimento da região.” Mostrar essa herança às novas gerações é, considera, uma forma de preservar identidade. “Mesmo vivendo plenamente o século XXI, não nos esquecemos das formas de vida que nos trouxeram até aqui.”

“A Oficina sabe fazer isto como mais ninguém”

Esser Jorge Silva faz questão de reconhecer o trabalho coletivo e a competência da equipa da cooperativa. “Descobri uma equipa extremamente competente e muito diversificada.” Destaca, em particular, a capacidade de organização e a versatilidade dos profissionais d’A Oficina. “São pessoas capazes de organizar, com a mesma competência, um festival de jazz ou as Gualterianas.” Sublinha também a experiência acumulada e a capacidade de antecipação da equipa: “São profissionais que conhecem todas as etapas do trabalho e sabem quem contactar, como negociar, planear e orçamentar.

© A Oficina

Mais público, maior exigência

Desde que assumiu funções, em novembro do ano passado, Esser Jorge Silva tem procurado identificar áreas de evolução, embora reconheça que o processo está ainda no início.
Considera que vários projetos culturais têm uma qualidade consolidada, mas podem ampliar o seu alcance. “Há projetos muito sólidos que necessitam apenas de um novo impulso para chegarem a mais pessoas e adquirirem maior espessura, isto é, ganharem outra dimensão”. É nesse caminho que pretende concentrar o trabalho dos próximos anos.

Uma visão integrada da cultura

Questionado sobre o momento que a cultura vive em Guimarães, Esser Jorge Silva identifica uma visão mais abrangente do seu papel no desenvolvimento do território. Associa essa perspetiva à atenção que a atual liderança municipal dedica ao setor. “Existe uma equipa autárquica que reconhece a importância da cultura e o seu impacto no território.”
Para além da dimensão artística, “hoje compreende-se melhor a importância das indústrias culturais, a relação da cultura com a qualidade de vida e o impacto económico gerado pelos grandes eventos.”

© Carolina Rodrigues / Mais Guimarães

Cultura também gera desenvolvimento

Esser Jorge Silva rejeita a ideia de que investir em cultura seja apenas uma questão simbólica. Os grandes eventos culturais com capacidade de atrair públicos de fora do concelho contribuem para dinamizar hotéis, restaurantes e comércio local.
Sublinha, contudo, que a relevância da cultura não pode ser medida apenas pelo retorno económico: a sua missão fundamental continua a ser proporcionar experiências artísticas, conhecimento, participação e fruição.

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