Estado de calamidade excepcional

por TORCATO RIBEIRO 

A publicação de uma foto nas redes sociais do interior do Multiusos de Guimarães mostrando a assistência de um espectáculo de humor realizado no passado dia 10 de Outubro, provocou uma série de comentários indignados visando quem promoveu e permitiu a sua realização. Poderiam informar-se se de facto se cumpriu o estipulado pela autoridade sanitária mas isso seria remar contra a onda de indignação e anular um episódio oportuno para descarregarem a pressão acumulada que estes tempos de confinamento provocam. A foto, não sendo esclarecedora sobre o distanciamento existente, foi aceite sem reservas e considerada prova mais que evidente do “crime” praticado. E de pouco valeram os esclarecimentos havidos por quem de direito sobre o cumprimento escrupuloso das regras sanitárias legalmente exigidas. Os argumentos, neste grande auditório virtual, são facilmente trucidados e desvalorizados e pouco ou nada importam a quem vive alimentado por verdades absolutas sobre tudo e mais alguma coisa.

A Câmara Municipal, entidade proprietária do imóvel e acionista principal da Cooperativa Tempo Livre, se queria apurar o que realmente se passou, bastaria chamar o responsável pela gestão do Multiusos e, perante o exposto, caso achasse necessário, tomar uma posição pública sobre o assunto. Se optasse por este procedimento, e depois de devidamente esclarecida sobre a matéria, fizesse chegar a todos aqueles que mostraram perplexidade na autorização e realização deste espectáculo, que estavam enganados e que, ao contrário do que disseram, o mesmo se realizou dentro das normas regulamentares estipuladas pela Direcção Geral de Saúde e previstas para este tipo de eventos, a Câmara mostraria coragem e determinação, qualidades mínimas exigíveis perante a situação. Mas a Câmara não foi por aí, e numa reacção impetuosa e não racional, decidiu, unilateralmente, suspender temporariamente as actividades culturais no concelho. Ficou a imagem de um executivo que aceitou como verdadeiros os motivos dos que se insurgiram contra o espectáculo realizado e que não aceitou a argumentação, se é que a pediu, do responsável do Multiusos. A consequência imediata desta atitude foi a anulação da sessão de cinema programada pelo Cine Clube de Guimarães no Centro Cultural Vila Flor.

No dia 13 de Outubro em reunião extraordinária da Comissão Municipal da Protecção Civil foi decidido que qualquer evento público em Guimarães fica dependente de um parecer vinculativo emitido pela Autoridade de Saúde. A Câmara municipal perante as dificuldades anteriormente demonstradas em sustentar com firmeza decisões que suscitem reacções públicas desfavoráveis decidiu sacudir a água do capote para cima da Autoridade da Saúde. O resultado desta desresponsabilização voluntária da acção política do executivo municipal são as contínuas desautorizações com efeitos vinculativos para todos os pedidos efectuados, com a consequente anulação dos diversos eventos já programados e anunciados.

O Estado de Calamidade em Guimarães tem a excepcionalidade de anular a participação do público em actividades culturais como se estas fossem as responsáveis pelo aumento de infectados com a COVID19. No entanto a realidade desmente esta conclusão selectiva e revela o quanto ela é injusta para todos os profissionais envolvidos nesta actividade.

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