Forma versus (?) conteúdo

Por José João Torrinha, Advogado e Presidente da Assembleia Municipal de Guimarães

Estes dias, ao passar por umas pessoas na rua, apercebi-me que uma senhora dizia a outra: “pelas fotografias que vi no facebook a casa parecia outra, com uma bela vista e tudo, mas depois quando lá fui, vi que não era nada daquilo”. À memória acorreu-me logo um episódio que se tinha passado comigo há anos: ao marcar um hotel para umas férias, vi que tinha uma bela piscina, mas quando lá cheguei verificou-se que a mesma não era muito maior do que um tanque. Acontece que as fotos estavam tiradas de um tal ângulo que iludiam claramente o cliente. “Mérito” do fotógrafo…

Aquela conversa e a minha memória fizeram-me resvalar para outras reflexões que só marginalmente têm a ver com os episódios que aqui contei. Aqueles eram exemplos de manipulação da imagem com intuitos claramente enganadores. Um fenómeno que não é de agora e que os tempos atuais apenas permitiram refinar.

Mas as reflexões para onde os ditos casos me atiraram prendem-se com algo mais profundo: o da relação entre o que se é, o que se faz, o valor intrínseco das nossas ações e como é que isso tudo é percecionado por terceiros, como é que aquilo que somos e fazemos chega ao outro.

Este também não é assunto de agora. Seguramente que já os antigos percebiam bem a dinâmica que se estabelece entre o ser e o parecer. Sabemos isso pelo menos desde o tempo em que César era casado.

Em política também é assim (e de que maneira). A capacidade de comunicar o que fazemos é absolutamente determinante nos dias de hoje. Um decisor político que tem trabalho feito mas que não o consegue comunicar ao eleitorado está seguramente a caminho de não ter que decidir nada tão cedo.

Dito isto, é bom termos consciência dos perigos que uma hipervalorização da imagem pode ter. O primeiro é de termos só forma e nenhum conteúdo. Se nos preocuparmos demasiado com a casca, corremos o risco de ter um discurso cheio de soundbytes, uma imagem bonita para ficar na fotografia, mas que depois, tudo espremido, dá em nada. Se o conteúdo sem forma se pode revelar ineficaz, a forma sem conteúdo é perigosa e empobrecedora.

Não se pense que este é um equilíbrio fácil de se fazer. Quem está na arena política vive no dilema permanente de não descurar uma dimensão em detrimento da outra.

Dir-se-á que o político hábil é aquele que maneja bem os dois conceitos. Será. Em qualquer caso, ninguém questionará que é mil vezes preferível quem está do lado certo da substância e não da forma do que ao contrário.

O outro perigo é justamente o da manipulação. Se a forma sem conteúdo é de evitar, a forma que contraria o conteúdo pode constituir um verdadeiro pesadelo. E não faltam exemplos de agentes políticos que manipulam a sua mensagem fazendo passar-se por ser aquilo que na verdade não são. Quando o cantor questionava: “pode alguém ser quem não é?”, dá vontade de lhe responder que em política, sim. De facto, em Portugal o fenómeno tem-se agudizado nos tempos mais recentes, o que nos deve preocupar a todos.

Estes dias são, por isso, particularmente exigentes para o eleitor. Com tanta preocupação de forma, é mais difícil chegar ao que verdadeiramente interessa. Por isso, cabe a todos não esmorecer e ser exigente na análise tentando ver para além da casca. Não é fácil, mas é a única via segura.

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