GENTRIFICAÇÃO À PORTUGUESA

Por Rui Armindo Freitas

Economista

Temos vindo a assistir, desde o final da década passada, nos grandes centros urbanos, a um processo de evolução de áreas menos favorecidas das cidades, conhecido por gentrificação. Esta designação pretende ilustrar um processo de enobrecimento de áreas anteriormente menos bem cuidadas e que, com a pressão demográfica, pelo crescimento das cidades e devido a intervenções de requalificação e investimento, sejam elas pela construção de equipamentos públicos ou privados, levam a que os preços das casas sofram uma apreciação, que torna impossível aos seus moradores de sempre, tratando-se de áreas com carácter muito vincado, permanecerem nos seus bairros de “nascimento”.

Este fenómeno que tem vindo a ocorrer por toda a Europa e nas grandes cidades norte americanas, tem também uma característica comum para além de levar à saída de moradores com rendimentos mais baixos, e à chegada de moradores de rendimentos mais elevados, falámos, quase na sua globalidade, de habitação de carácter permanente. Ora como em tudo, Portugal, tende a importar fenómenos, se bem que um pouco mais tarde, e com as suas adaptações à nossa realidade.

Assim, Lisboa, foi a primeira cidade a reflectir esta alteração, mas com várias diferenças que depressa proliferaram por todo o país. Se na descrição que referi acima se tratavam de áreas deprimidas das cidades, em Portugal, fruto de anos de uma lei de arrendamento anacrónica, essas zonas desfavorecidas eram os centros históricos. É esta a primeira grande diferença em relação aos exemplos estrangeiros, pelo que o termo gentrificação resulta quase redundante, se considerarmos que ele existe em Portugal, uma vez que é contraditório dizer que se enobrecem zonas, que por si só, já deveriam ser as mais nobres das nossas cidades.

Mas se havia coisa que Portugal ainda conservava de característico era a vida diária dos seus centros históricos, que aos poucos lá se vai perdendo. Se por um lado todos concordamos que nos agrada ver os nossos centros históricos com casas recuperadas, bem cuidados e a parecerem verdadeiros cartões postais, por outro somos todos rápidos a apontar que é triste que se perca a característica do não edificado, que são as gentes, os seus usos e costumes, pois bem caro leitor, não há bela sem senão.

Contudo, em Portugal há sempre qualquer coisa que fazemos pior. Se referi atrás uma característica importante, a da habitação permanente, julgo que no exemplo nacional isso se perdeu para a proliferação do alojamento local. Este sim, parece-me um erro, que mais cedo ou mais tarde iremos pagar caro, tratando-se de uma forma de desertificação dos centros, se bem que encapotada, pois todos os dias há novos moradores nos centros das nossas cidades.

Mas o curioso é que as nossas Câmaras que são excessivamente regulamentadoras no que toca a reabilitação para habitação permanente, já no que toca ao alojamento local, nem boas reguladoras conseguem ser. Tudo dá quartos, tudo dá camas… a que preço e até quando isso já é outra história. Mas uma coisa é certa, esta é uma vaga que a prazo vai criar mossa nas nossas cidades, Guimarães não será excepção e não julgo que seja necessário muito mais tempo para que este modelo comece a dar de si, não só em termo económicos, mas principalmente sócio-culturais.

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