Guimarães: uma cidade com genética especial

Por José João Torrinha, Advogado e Presidente da Assembleia Municipal de Guimarães

A frase que dá título a esta crónica não é minha. Foi proferida pela Juíza Desembargadora Raquel Rego, na cerimónia de apresentação do livro que traça a história da denominada Casa dos Coutos, onde se encontra instalado o Tribunal da Relação de Guimarães e que é da autoria dos vimaranenses António Amaro das Neves, Samuel Silva, Miguel Oliveira e Cláudio Rodrigues.

Quem aqui nasceu, cresceu ou viveu sabe disso. Sente isso. Mas é quando esse reconhecimento é feito por terceiros, por aqueles que são de fora, ou que só circunstancialmente se encontram entre nós, que aquele sentimento é confirmado.

Os vimaranenses são assim. Um amor incondicional à sua terra que Jorge Sampaio, de forma feliz, cunhou como um “patriotismo de cidade”. O atual Presidente da República, quando confrontado com a expressão, confirmou a felicidade da definição.

Ele que, em discurso feito nas cerimónias do 24 de junho o tinha, por outras palavras, reiterado. Um discurso que estava escrito, mas que acabou por ser dito de improviso, sem rede, mas com uma fluidez e uma clareza na mensagem que impressionaram.

Nele perpassou o evento que ali se celebrava: a tal primeira tarde portuguesa. O ato fundador da nacionalidade lusa, a batalha de São Mamede. Os vimaranenses, que se reclamam herdeiros dessa gesta de São Mamede, sentem este dia e de há muito reclamam que o mesmo seja reconhecido pelo restante país.

Convenhamos: faz sentido que uma nação que vai a caminho dos 900 anos não celebre o seu ato fundador? É normal que o restante país ignore olimpicamente um acontecimento sem o qual ele próprio provavelmente não existiria? Como foi possível que a Batalha de São Mamede se tivesse reduzido a algo só celebrado no berço da nacionalidade?

Em Guimarães prezamos muito a memória. Não uma memória saudosista, feita de olhares nostálgicos para um passado glorioso, mas uma memória, como disse Domingos Bragança, “feita futuro”. Porque uma comunidade não pode preparar o que aí vem sem conhecer bem as raízes onde funda a sua existência. E pode um país?

No seu discurso na cerimónia oficial, o Presidente da Câmara reiterou a ambição antiga e nunca satisfeita: a de que o 24 de junho seja reconhecido como feriado nacional. Disse-o na presença da primeira figura do Estado e que não era por Guimarães, mas por Portugal. Porque se Guimarães é exemplo de território que sabe cuidar da sua memória, mantendo-a viva, esse exemplo deveria contagiar o resto do país. Não é uma questão de orgulho patrioteiro de uma cidade. É uma questão de justiça.

Sabemos que esse reconhecimento nacional não é tarefa fácil. Mas Guimarães nunca foi de desistir ou de recuar perante semelhantes desafios. Como se costuma dizer, se fosse fácil, não era para nós. É assim. Foi assim. E será assim. Porque se fôssemos povo de desistir perante o que parece ser impossível, não teríamos metido mãos à obra para fundar o mais improvável dos países.

O exemplo do primeiro Rei ai está para nos guiar. Nesta e noutras lutas. Lutas que permitiram erguer uma nação e afirmar Guimarães como território de gente que faz, que luta, que sonha e concretiza. Saibamos estar à altura dos que nos precederam e juntos havemos de conseguir que São Mamede tenha o reconhecimento que há muito lhe é devido.

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