#Ihor’s life also matters

por José da Rocha e Costa

Como todos os leitores já devem saber, foi morto há dias um indivíduo preto – eu chamo preto e não negro porque é assim que os próprios pretos se referem a eles próprios, sendo assim, não vejo necessidade de recorrer a qualquer tipo de eufemismo – às mãos de um polícia. Isto ocorreu na cidade de Minneapolis, nos Estados Unidos e o indivíduo em questão chamava-se George Floyd. O caso tomou proporções globais, não só por esta cena macabra ter sido filmada pelas pessoas que estavam a assistir, mas também porque veio uma vez mais pôr a nu a brutalidade das forças policiais americanas, especialmente no que à relação com a comunidade afro-americana diz respeito.

Seguiram-se manifestações, primeiro nos Estados Unidos e depois um pouco por todo mundo, umas mais e outras menos pacíficas. É fácil compreender as pessoas que decidiram manifestar-se, principalmente as que vivem naquele país. Isto porque não se trata apenas de racismo. Trata-se de um sistema policial que permite, e até incita por vezes, à violência. Essa violência atinge desproporcionalmente a população preta porque tudo nos Estados Unidos atinge desproporcionalmente essa franja da população. Nos Estados Unidos, como em todos os países, existem pessoas racistas e pessoas que não são racistas. O problema está no poder que é dado aos diferentes intervenientes para que estes possam passar das palavras aos actos. Começa na polícia que tem demasiados poderes e, até agora pelo menos, relativa impunidade, passa pelos políticos que desenham mapas eleitorais da forma que mais lhes convém, muitas vezes dificultando intencionalmente o votos às minorias para que estas continuem “no seu lugar” e não “interfiram” no processo político e acaba na mentalidade do comum cidadão porque mesmo pessoas que não se consideram racistas, utilizam por vezes os mecanismos existentes quando estes lhes são convenientes. Por exemplo, coincidência ou não, poucos dias antes deste assassinato ocorrido em Minneapolis, circulou um vídeo na internet de uma mulher a discutir com um indivíduo preto no Central Park em Nova Iorque. No vídeo ouve-se um homem a pedir à senhora em questão, que estava a passear com o seu cão, para ela pôr uma trela no bicho, por uma questão de segurança. A mulher, indignada por o homem estar a gravar a conversa, decide ligar à polícia e diz que está um homem afro-americano à sua frente que a está a filmar e que está a ameaçar a sua vida.

Ora, a pessoa em questão faz isto porque sabe o poder que estas palavras têm numa sociedade como a americana. O facto de a senhora pôr ênfase na palavra “afro-americano” não acontece por mero acaso. E os protestos que têm ocorrido em relação à morte de Floyd têm a ver também com isto: o problema não é haver pessoas racistas, o problema é haver um sistema que foi contruído intencionalmente para que esse racismo se perpetue.

Aqui em Portugal também houve pessoas que se juntaram ao movimento “Black lives matter”, umas porque se sensibilizaram com a causa e outras porque o “hashtag” #blacklivesmatter fica bem nas redes sociais. O que me parece estranho é que em Março passado tenha ocorrido um homicídio parecido, no nosso tranquilo país, em que nada se passa, mas em que três inspectores do SEF (Serviço de Estrangeiros e Fronteiras) decidiram torturar e espancar até à morte um indivíduo ucraniano, que havia chegado ao aeroporto de Lisboa, e a maioria das pessoas não pareceu importar-se muito. Bem sei que nesse caso não houve uma filmagem em tempo real e que a notícia só veio a público semanas depois da morte do indivíduo ucraniano chamado Ihor Homenyuk, isto porque os inspectores em causa e os outros intervenientes tentaram ocultar provas e encobrir a situação, mas a brutalidade policial não é exclusiva dos Estados Unidos e no nosso país de brandos costumes também existem pessoas racistas e xenófobas que se lhes for dada a oportunidade usam a violência como manifestação do seu ódio racial. Por isso mesmo deixo aqui o hashtag, não tão apelativo como o outro, mas aqui fica: #Ihor’s life also matters.

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