INQUIETUDE

por ESSER JORGE SILVA

Ando com saudades da Cidade. Não propriamente de andar nas suas ruas, de olhar o património, mesmo de notar quanto se tornou cuidada ou de verificar até a oferta se diversificou nos vários vetores que atualmente povoam a cidade. Há espetáculos para todos os gostos, há exposições diversas, há restaurantes superiores, há lojas como as de todo o lado. Entrando num ou noutro bar é-se surpreendido pela criatividade e ousadia. Falando com jovens empreendendo nota-se competência, método, savoir fair. Viaja-se trazendo ideias, aplicando-as depois. Somos visitados por hordas de turistas. Em praticamente todos os aspetos avançámos muito sem dúvida. Guimarães é hoje completamente diferente dos tempos em que e elite procurava o Porto para se afirmar civilizada.

Apesar da pobreza se ter instalado nas estatísticas, durante os anos da destruição criativa a que Portugal foi submetido, os vimaranenses mais humildes foram acolhidos pelas configurações invisíveis de entreajuda. É compreensível. A resistência faz parte das estruturas sociais mais profundas da terra e, como sempre resistimos. Porventura, depois do regresso da economia à realidade, estamos outra vez a textilizar-nos, a industrializar-nos, desta vez sem a troca de mão-de-obra por dinheiro. Estamos a incluir conhecimento no produto, a criar, a desenhar, a inventar. Metemos Universidade no pensamento. Tudo isso é bom. E é extraordinário verificar como os vimaranenses se refazem. Até o Vitória Sport Club já o é inteiro de novo.

A minha questão não se prende com o que temos. A minha questão reside no que nós queremos ser. Gostava de saber quais os sentidos e os sinais emitidos pelos cidadãos para que a política, os políticos, percebam a nossa missão coletiva para os próximos anos.

Afortunadamente pertenci a um tempo em que os cidadãos saiam de casa, encontravam-se, discutiam, engendravam, coletavam-se e, com recursos reduzidíssimos, avançavam para pequenas realizações. Faziam-no associando-se e, assim, em coletividade, ganhavam a força que individualmente nenhum tinha. Esses cidadãos discutiam a Cidade. Participavam na Cidade. Diziam o que desejavam para a Cidade. E, sim Cidade aqui, com maiúsculas, quer dizer a totalidade do concelho, assim como Cidadão quer dizer aquele que faz a Cidade.

Os tempos mudam, é certo. Há hoje uma atenção municipal que é de aplaudir. Mas a quietude a que a Cidade se remeteu atualmente é, na minha opinião, preocupante. Sim, há uma atividade provinda da raiz cidadã altamente participado como o Gnoc-Gnoc e isso quer dizer que há disposição e espírito presente para a inquietação cidadã. Seguramente há também tentativas de criação de areópagos para os Cidadãos levarem as suas preocupações. Mas, os cidadãos que comparecem a esses fóruns são sempre os mesmos. E as intervenções são, praticamente, sempre dos mesmos.

Por outro lado, verifica-se que algumas associações onde outrora Cidadãos pensaram e, através delas, participaram com o seu tempo, com as suas ideias, com o seu voluntarismo, estão hoje ou em crise ou a vislumbrar a crise, na medida em que, parece não interessar mais ao Cidadão, sê-lo por inteiro.

Almejo o regresso dessa inquietude Cidadã. Há de parecer um exagero, mas um país nasceu e resulta ainda hoje porque os seus Cidadãos se associavam, pelo menos assim viu a Alexis de Tocqueville, as estruturas fundadoras da nação Americana. A movimentação dos Cidadãos, associados segundo os seus interesses, funda os destinos da Cidade.

Ando inquieto porque me está a faltar Cidade. E, sem Cidade, seremos uma estatística de indivíduos isolados. Sem horizontes e com destino entregue aos acidentes que o percurso quiser.

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