LAC faz um ano e desafia vimaranenses a participarem mais construção da democracia

Um ano depois de nascer, o Laboratório de Ação Cívica quer desafiar Guimarães a pensar o futuro da cidade.

© Eliseu Sampaio / Mais Guimarães

Nasceu da inquietação provocada pelo crescimento da extrema-direita, mas rapidamente percebeu que o problema era mais profundo. O Laboratório de Ação Cívica (LAC) completa um ano de existência sem estatutos, sem direção formal e sem qualquer filiação partidária. Reúne cerca de meia centena de cidadãos de Guimarães e da região, oriundos de diferentes sensibilidades políticas e áreas profissionais, unidos pela vontade de promover uma democracia mais participativa. Debates, pontos de escuta, tertúlias, intervenções públicas e conversas informais fazem parte da estratégia de um coletivo que prefere fazer perguntas a oferecer respostas. O Mais Guimarães esteve à conversa com Pedro Von Hafe e Liliana Duarte, dois dos porta-vozes do movimento, para perceber o que os move, como olham para Guimarães e porque acreditam que o futuro da democracia começa nas comunidades locais.

Mais do que um movimento, um laboratório

Quando perguntamos o que é o LAC, nem Pedro Von Hafe nem Liliana Duarte respondem de imediato com uma definição fechada. Pelo contrário. A primeira ideia que surge é precisamente a de um projeto em permanente construção.

“O LAC é um organismo vivo”, começa por explicar Pedro Von Hafe. “Nunca é uma coisa acabada. Vai sendo construído pelas pessoas que o compõem.”

© LAC

O nome também não foi escolhido por acaso. “O Laboratório de Ação Cívica quis precisamente colocar a tónica na ação. A política não se resume aos partidos nem às eleições. A grande questão que nos colocámos foi: o que pode um cidadão fazer, no seu dia a dia, para melhorar a realidade onde vive?”

Dessa pergunta nasceu um coletivo que promove debates, conversas, pontos de escuta nas freguesias e iniciativas públicas que cruzam cultura, política e cidadania.
“O voto é fundamental, mas não chega”, afirma Liliana Duarte. “Reduzir a democracia ao momento em que colocamos um boletim na urna é quase como ir ao médico apenas quando estamos doentes. A democracia também precisa de prevenção.”

O choque que levou à ação

Embora o grupo se tenha constituído formalmente no final de setembro e início de outubro do ano passado, a origem remonta às eleições legislativas e ao crescimento da extrema-direita.

“As primeiras reuniões foram quase uma terapia coletiva”, recorda Pedro Von Hafe. “A pergunta era sempre a mesma: como é que isto aconteceu debaixo dos nossos olhos?”
Liliana Duarte considera que esse foi o momento que despertou muitas pessoas, mas sublinha que o problema vinha de trás.

“O alerta foi evidente quando o Chega conseguiu cinquenta deputados, mas o desconforto já existia antes. A questão nunca foi apenas um partido. A questão é perceber como é que nós participamos na democracia para além do voto.”

Na sua perspetiva, Portugal habituou-se a pensar que estava imune aos fenómenos que já aconteciam noutros países.”Havia uma ideia de que tínhamos uma democracia particularmente saudável. Afinal, percebemos que não era bem assim.”

Pedro Von Hafe concorda. “A democracia está doente. O principal problema é a descredibilização das instituições. Quando as pessoas deixam de acreditar nelas, tornam-se muito mais permeáveis a discursos simplistas sobre imigração, segurança ou corrupção.”

Mas recusa explicações simplificadas para quem vota na extrema-direita. “Essas pessoas não são todas fascistas. Muitas estão simplesmente descontentes e deixaram de encontrar respostas nos partidos tradicionais. Se queremos compreender o fenómeno, temos de ouvir essas pessoas em vez de as catalogar.”Liliana Duarte reforça essa ideia.”São pessoas que, muitas vezes, sentiram que nunca tiveram lugar. A esquerda também deixou de saber falar para elas. E isso abriu espaço para outros discursos.”

Uma democracia mais participativa

Ao contrário do que muitas vezes acontece quando surgem novos movimentos cívicos, o LAC não pretende transformar-se num partido.

“Quanto mais plural formos, melhor”, diz Liliana Duarte. “Temos pessoas de diferentes sensibilidades políticas e queremos continuar assim.”O objetivo passa por criar espaços onde seja possível pensar coletivamente os problemas.”O importante não é estarmos contra alguém”, afirma. “O importante é transformar a democracia.”

Pedro Von Hafe resume a missão numa frase: “Queremos que as pessoas voltem a sentir que têm poder para mudar a sua comunidade.” Essa transformação começa precisamente no plano local. “O nosso poder é local. É na freguesia, no bairro, na cidade que fazemos a diferença.”

© LAC

“A democracia participativa dá muito trabalho”

Ao longo deste primeiro ano, o LAC organizou debates e trouxe a Guimarães nomes como Raquel Varela, Catarina Martins, Miguel Carvalho ou Henrique Pinto Mesquita e lançou os chamados Pontos de Escuta, encontros realizados nas freguesias para ouvir diretamente os moradores. “Nós não vamos lá dar respostas”, esclarece Liliana Duarte. “Vamos ouvir.”

O objetivo passa por perceber as preocupações concretas de cada território e, a partir daí, ajudar a criar condições para que os próprios cidadãos encontrem formas de participação.
“Numa das freguesias onde estivemos, já havia moradores a dizer que queriam começar a participar nas Assembleias de Freguesia. Isso para nós já é uma vitória. Outra iniciativa chama-se “Tretas, Temas e Tremoços”.  A ideia é simples: trocar o auditório pelo café.”Queremos ocupar os espaços públicos e conversar com as pessoas enquanto bebem um café ou comem uns tremoços. A política não tem de acontecer apenas em salas fechadas.”

O grupo prepara ainda um debate dedicado à regionalização e tem acompanhado temas como a exploração de lítio na Serra da Cabreira e na região da Cova do Barroso.

Pensar antes de tomar posição

Ao longo do último ano, o LAC também interveio publicamente em algumas decisões locais. Uma delas foi a presença da Betclic num painel sobre boas práticas no desporto promovido no âmbito da Capital Verde Europeia.”Não queríamos cancelar ninguém”, esclarece Pedro Von Hafe.”O que quisemos foi perguntar se fazia sentido uma empresa ligada às apostas estar representada num painel sobre sustentabilidade.”

Para Liliana Duarte, esse é precisamente o papel do coletivo. “Mais importante do que conseguir que uma decisão seja alterada é abrir a discussão pública. Se conseguirmos que as pessoas pensem pela própria cabeça, já valeu a pena.”

A mesma lógica aplica-se a outras opções políticas. “O rally no centro de Guimarães, num ano em que somos Capital Verde Europeia, merece ser discutido. Não para destruir ninguém, mas para percebermos se há coerência entre aquilo que dizemos e aquilo que fazemos.

“Nós votamos em pessoas”

Quando a conversa chega à política local, Pedro Von Hafe é prudente. Recorda que foi indicado pelo LIVRE como pré-candidato à Câmara Municipal e prefere não centrar a discussão em partidos.
Liliana Duarte responde sem hesitar.”O que importa é que sejam boas pessoas.”

A frase serve de ponto de partida para uma reflexão mais ampla.”Nós votamos em pessoas. E acho que é importante acreditarmos na formação humana, ética e política dessas pessoas.”
Na sua opinião, a política perdeu qualidade.”Temos vindo a perder qualidade nos nossos representantes, ou pelo menos na forma como exercem a política.” E acrescenta:”Uma coisa é dizer que ouvimos as pessoas. Outra é ouvi-las verdadeiramente.”

Apesar das críticas, reconhece o percurso recente da cidade.”Guimarães fez coisas extraordinárias. A Capital Europeia da Cultura foi um momento absolutamente transformador.”
Ainda assim, acredita que a cidade vive demasiado dependente dos grandes eventos. “Parece que estamos sempre à espera da próxima distinção, da próxima capital, da próxima taça.”
Pedro Von Hafe concorda e acrescenta outra preocupação.”Falta um plano de médio e longo prazo para a cidade. Não basta anunciar metas ambiciosas. É preciso coerência entre aquilo que prometemos e aquilo que fazemos.”

Um coletivo antes de uma associação

Ao fim de um ano, o LAC continua sem personalidade jurídica. Foi uma decisão consciente.”Quisemos primeiro perceber quem estava realmente disponível para construir este projeto”, explica Pedro Von Hafe.

Hoje o coletivo reúne cerca de 54 pessoas, entre professores, médicos, arquitetos, engenheiros, designers, empresários, profissionais da comunicação, enfermeiros e estudantes. “A diversidade é a nossa maior riqueza”, diz Liliana Duarte.”Mesmo que o grupo acabasse amanhã, já teria valido a pena pelas pessoas que conheci.”

A formalização como associação continua em estudo.”Quando sentirmos que existe uma participação suficientemente sólida, esse será um passo natural.”

Até lá, o objetivo mantém-se.”Queremos continuar a criar espaços onde as pessoas conversem, discordem, reflitam e participem.”
Porque, como resume Liliana Duarte, “a democracia participativa dá muito trabalho. Mas é esse trabalho que vale a pena fazer.”

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