Luís Ferreira, o vimaranense sobrevivente do Holocausto

Figueiredo, 18 de outubro de 1902.

Lourenço e Joana Ferreira têm o primeiro filho. Luís de seu nome. Ele, jornaleiro, e ela, tecedeira, viviam nas dificuldades da época. Em Guimarães, já tinham assentado em São Paio de Figueiredo, primeira morada após o casamento. Mais tarde, mudariam para Airão, Santa Maria.

A miséria não dá tréguas e Lourenço emigra. Primeiro, sozinho. Mas haveria de voltar para buscar Luís. Partem em direção a Inglaterra, mas seria em França que se fixariam. Luís e o pai nunca foram próximos, e na bagagem de emigrantes, além da trouxa, levaram as divergências. O primeiro filho do funileiro viveu sempre fora da época. Nunca aceitou a violência e as punições impostas pelo pai. Com uma cicatriz na cabeça desferida pelo martelo do bisavô, Luís mantinha presente os maus tratos.

Em França, um desentendimento teve a consequência de uma despedida. Lourenço voltou a Portugal sem Luís que, à boca cheia, lhe prometeu que não voltaria a vê-lo. Cumpriu a promessa. Quando regressou, Lourenço estabeleceu-se como funileiro. “Fugiu”, desculpava-se Lourenço sempre que a mulher, desgostosa, lhe perguntava pelo filho. Viveu e morreu com o desgosto de perder o primogénito, não para a morte, mas para as agruras da vida.

 

Joane, 1967

Durante 40 anos ninguém soube o paradeiro de Luís. Uma semana depois da morte do pai, Luís Ferreira regressa a Portugal. Com a devoção de quem paga uma promessa, o cemitério é o primeiro destino. Chega de bicicleta, na ocasião já conta mais de 60 anos.

Em Airão, Santa Maria, a presença de um homem estranho causou alarido, mas houve quem lhe tirasse as parecenças. O filho do funileiro estava de volta. A família acredita que ele tinha um informador em França, pela oportunidade do regresso e pelo conhecimento que foi revelando em conversas. Mas, nunca confirmaram.

Quando regressou, além da campa do pai, acabado de morrer, visitou a última morada de uma namorada que deixou quando emigrou. O povo conta a história do filho do funileiro que veio de França de bicicleta. Luís nunca desmentiu. Mas à sobrinha, Luís contou que a viagem foi feita de comboio. Só viajou em duas rodas desde o Porto.

Foi o primeiro regresso a Portugal e a estadia foi curta. Voltou a partir como um estranho. Nada disse dos 40 anos de ausência.

Regressado a França, haveria de estar mais sete anos sem visitar Portugal.

Pós 25 de abril de 1974

Após a revolução de abril de 1974, as visitas de Luís  a Portugal passaram a ser anuais. Embora fixado em França, parecia viver com entusiasmo os movimentos de liberdade que surgiam em Portugal. Nas estadias ficava hospedado em casa do irmão, pai da sobrinha Amélia Martins, com quem iniciou uma relação de grande proximidade que duraria até à sua morte.

Amélia integrava movimentos de esquerda e a política passou a ser o tema das suas conversas. Luís conta-lhe, finalmente, da sua militância sindicalista e comunista. Nem sempre Amélia, com pouco mais de 20 anos, estava para o ouvir, mas o tio insistiu no testemunho. Avisou para o extremismo de algumas ações esquerdistas e fez campanha pelo PCP e pela democracia, enaltecendo o respeito por todas as forças políticas. “Não se tira propaganda da direita, assim vai haver muita cabeça cortada.”  Chamava a atenção Luís Ferreira.

Militância Comunista

Quando chegou a França, e sem família, Luís sente necessidade de se juntar a um grupo, eram comunistas. Inicia uma militância ativa que duraria até à sua morte. A sua intervenção social passaria também pelo movimento sindicalista.

Conta Amélia Martins que o tio gostava de lembrar o trabalho levado a cabo por ele e pelos seus pares na luta pelas condições de trabalho que, anos mais tarde, uma segunda vaga de emigração encontraria.

A sua militância levou-o a combater, como voluntário do Partido Comunista, na Guerra Civil espanhola ao lado dos republicanos.

“Fomos recebidos com entusiasmo como se fossemos heróis” Luís Ferreira

Mas acabariam por perder a guerra e “passamos de heróis a mal amados.” Amélia recorda as palavras que o tio proferia entre sorrisos, sobre um conflito que lhe tinha roubado amigos e de onde ele próprio tinha regressado ferido.

Após a Guerra regressou a França e manteve a sua militância comunista.

Segunda guerra mundial

Os portugueses que viviam em França não escaparam às perseguições nazis. E muitos, como Luís Ferreira, combateram a ocupação alemã junto da resistência francesa.

Luís foi detido a 15 de outubro de 1940, passou por vários estabelecimentos prisionais, tendo contado que, “na prisão central de Eysses, estava na altura com mais de mil camaradas comunistas.”

A 31 de julho de 1944, o vimaranense, foi deportado para o campo de concentração de Buchenwald, aquele que recebeu mais portugueses e que era também o maior campo em território alemão. Começou a ser construído em 1937.

Amélia Martins sabe que antes de Buchenwald o tio passou por vários campos, tidos como satélites dos maiores. Uma das suas notas, que a sobrinha guarda, diz que chegaram a estar 120 homens em cada carruagem. Regista ainda os chicotes e os cães que lhe mordiam as pernas à chegada ao campo.

Luís era um preso político e foi condenado a trabalhos forçados. Chegou a estar numa câmara de gás, a exemplo do que se fazia em Auschwitz. Viu a morte à espreita, mas naquele campo os prisioneiros eram usados das mais variadas formas.  Ou para mão de obra ou como cobaias para experiências médicas.

Um prisioneiro de Buchenwald tinha de estar permanentemente ocupado. Com fome e com frio, com maus tratos e torturas. Quando não havia nada que fazer transportavam pedras pesadas de um lado para o outro da estrada.

Chegaram a comer um gato de estimação desesperados pela fome. Pão com sal era o repasto mais comum.

Nos seus manuscritos, Luís Ferreira descreveu ainda o acondicionamento dos prisioneiros. Cada separação foi concebida para cinco homens mas acolhiam o dobro. Em agosto (um mês depois da sua deportação) eram 70 mil os prisioneiros de Buchenwald. ”

À direita, como à esquerda tinha pares de pés diante do nariz, mas com a fome não sentíamos o perfume”, escreveu.

Outro dos registos dá conta do gosto macabro da esposa do comandante do campo.

“Quando via um prisioneiro com uma tatuagem mandava-o matar para confecionar objetos para casa”.

Esta alemã chegou inclusive a inspirar um livro escrito por outro prisioneiro intitulado “La chienne de Buchenwald”, em português, “A cadela de Buchenwald”.

Luis Ferreira integrou uma marcha da morte que os alemães organizaram na fase final da guerra. E mais um dia ter-lhe-ia valido uma bala na cabeça. Valeu-lhe a libertação pelos americanos e soviéticos. Um dia foi a diferença entre morrer e viver.

Neste campo de concentração, Luís Ferreira esteve perto de oito meses, mas ao todo, viveu mais de cinco anos de reclusão.

Depois da libertação tinha 43 anos e pesava 45 quilos. Amélia nunca soube como voltou a França.

Em Buchenwald, mais de mil prisioneiros eram comunistas.

Cerca de 30 portugueses sobreviveram às prisões nos campos de concentração. O vimaranense Luís Ferreira foi um deles. Os terrenos de Buchenwald foram transformados num memorial em homenagem às vítimas.

A morte

Durante muitos anos, a prisão de Buchenwald foi mantida em segredo, embora a relação de amizade com a sobrinha Amélia estivesse cada vez mais estreita.

Já tinha perto de 80 anos quando a convidou a visitar França. Do roteiro constavam sempre visitas aos monumentos alusivos à segunda guerra.

Conta Amélia que a guerra estava-lhe na pele e na cabeça, mas não lhe tomou conta do coração. Luís nunca foi amargurado. Talvez a experiência na Guerra civil espanhola e pela militância partidária estava mais apto a aceitar. Embora fosse um acérrimo opositor de todos os regimes, de Hitler a Mussolini, Franco ou Salazar, sempre a favor do povo.

Já reformado voltou a Buchenwald. A sua reforma, aliás, foi vivida entre visitas anuais a vários países comunistas. Nunca foi rico. teve apenas um carro. A bicicleta era o meio de transporte privilegiado.

“Não passou de um funileiro”, observa a sobrinha. Ofício que exerceu em  França e, em jeito de curiosidade, saiba que, com muita dificuldade voltou ao mesmo porto de trabalho quendo foi libertado do campo de concentração. Foi comunista até morrer. O partido era a família, embora lhe tivessem conhecido uma companheira, antes e depois do campo de concentração.

Não teve filhos

“Cumpriu o seu papel no mundo”, refere Amélia Martins. “Juntou-se aos comunistas porque se viu sozinho em França. Sem aquelas pessoas a sua vida teria sido muito diferente e possivelmente não teria sido preso. Mas, como ele dizia, assim foi melhor, porque caso contrário, teria sido como os irmãos, teria nascido e vivido na pacatez dos dias e numa maior ignorância”, acrescenta.

Luís Ferreira morreu com 89 anos, em 1991, na cidade de Lyon. 

Não quis voltar para Portugal depois de morto. No crematório deixou indicações precisas e tudo planeado. A sobrinha Amélia foi a responsável pelo depósito das cinzas nos jardins do cemitério.

A reportagem foi inicialmente publicada na edição de maio de 2015 da Revista Mais Guimarães, e o download da edição pode ser feito aqui: http://maisguimaraes.pt/wp-content/uploads/2016/10/n25.pdf

Entrevista: Eliseu Sampaio

Composição: Andreia Lopes

Fotos: DR

O espólio de Luís Ferreira Martins encontra-se agora depositado na Sociedade Martins Sarmento, em Guimarães

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