LUÍS FERREIRA, O VIMARANENSE SOBREVIVENTE DO HOLOCAUSTO

A extraordinária história de vida de um vimaranense que sobreviveu ao Holocausto.

Lourenço e Joana Ferreira têm o primeiro filho. Luís de seu nome. Ele, jornaleiro, e ela, tecedeira, viviam nas dificuldades da época. Em Guimarães, já tinham assentado em São Paio de Figueiredo, primeira morada após o casamento. Mais tarde, mudariam para Airão, Santa Maria.

A miséria não dá tréguas e Lourenço emigra. Primeiro, sozinho. Mas haveria de voltar para buscar Luís. Partem em direção a Inglaterra, mas seria em França que se fixariam. Luís e o pai nunca foram próximos. Na bagagem de emigrantes, além da trouxa, levaram as divergências. O primeiro filho do funileiro viveu sempre fora da época. Nunca aceitou a violência e as punições impostas pelo pai. Uma cicatriz na cabeça desferida pelo martelo do bisavô, Luís mantinha presente os maus tratos.

Em França, um desentendimento teve a consequência de uma despedida. Lourenço voltou a Portugal sem Luís que, à boca cheia, lhe prometeu que não voltaria a vê-lo. Cumpriu a promessa. Quando regressou, Lourenço estabeleceu-se como funileiro. “Fugiu”, desculpava-se Lourenço sempre que a mulher, desgostosa, lhe perguntava pelo filho. Viveu e morreu com o desgosto de perder o primogénito, não para a morte, mas para as agruras da vida.

Durante 40 anos ninguém soube o paradeiro de Luís. Uma semana depois da morte do pai, Luís Ferreira regressa a Portugal. Com a devoção de quem paga uma promessa, o cemitério é o primeiro destino. Chega de bicicleta, na ocasião já conta mais de 60 anos. O povo conta a história do filho do funileiro que veio de França de bicicleta. À sobrinha, Luís contou que a viagem foi feita de comboio e que só viajou em duas rodas desde o Porto.

Regressado a França, esteve mais sete anos sem visitar Portugal. Após o 25 de abril as visitas de Luís passaram a ser anuais.

Luís não tinha família em França então juntou-se a um grupo de comunistas. Esta militância levou-o a combater como voluntário do Partido Comunista na Guerra Civil espanhola ao lado dos republicanos. Mas perderam esta guerra e Luís voltou a França mantendo a sua militância comunista.

Os portugueses que viviam em França não escaparam às perseguições nazis. E muitos como Luís combateram a ocupação alemã junto da resistência francesa. Luís foi detido a 15 de outubro de 1940, passou por vários estabelecimentos prisionais. A 31 de julho de 1944, o vimaranense, foi deportado para o campo de concentração de Buchenwald, aquele que recebeu mais portugueses e o maior campo em território alemão.

Luís era um preso político e foi condenado a trabalhos forçados. Chegou a estar numa câmara de gás, como se fazia em Auschwitz. Frio, fome e maus tratos, Luís viu a morte de perto. Pão com sal era o mais comum de se comer.  Segundo Luís escreveu nos seus manuscritos, cada separação era concebida para cinco homens, mas acolhiam o dobro. Em agosto (um mês depois da sua deportação) eram 70 mil os prisioneiros de Buchenwald. “À direita, como à esquerda tinha pares de pés diante do nariz, mas com a fome não sentíamos o perfume”, escreveu.

Ao todo Luís Ferreira esteve oito meses neste campo de concentração, mas viveu cinco anos de reclusão. Depois da libertação tinha 43 anos e pesava 45 quilos. Voltou a França.

Cerca de 30 portugueses sobreviveram às prisões nos campos de concentração. Este vimaranense foi um deles. Os terrenos de Buchenwald foram transformados num memorial em homenagem às vítimas.

Luís morreu com 89 anos em 1991, na cidade de Lyon.

Fotos: DR

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