MARIA FERNANDA BRAGA CONTA HISTÓRIAS ATRAVÉS DO BARRO HÁ 20 ANOS

A exposição “Retrospetiva 20 anos” está patente na Loja A Oficina, na rua da Rainha, até 15 de fevereiro. É uma viagem pelas duas décadas de carreira da oleira algarvia tornada vimaranense.

Maria Fernanda Braga é oleira há 20 anos. ©Nuno Rafael Gomes/Mais Guimarães

Este artigo conta duas histórias — ainda que ambas sejam, de certo modo, a mesma. Vamos por partes. Há uma exposição para visitar na Loja A Oficina, intitulada de “Retrospetiva 20 anos”. O nome da mostra já levanta o véu sobre o que por ali se encontra. E é tudo da autoria de Maria Fernanda Braga, oleira há duas décadas, guardiã da tradição, fascinada pelo barro, algarvia feita nortenha por uma cantarinha.

Ao visitar a exposição, o percurso pode iniciar-se com a “Primeira peça”: um pequeno vaso, “feito na roda de oleiro há 20 anos”. A peça, carregada de simbolismo, e carinho — “Foi a primeira vez que mexi no barro”, afiança a oleira — é “extremamente simples e rudimentar”. Mas foi através desta peça que a carreira de Maria Fernanda Braga se começou a moldar. Ela encontrou o barro e Guimarães encontrou-a.

E essa é a outra história, contada através de uma outra peça em exposição: “O meu marido ofereceu-me a cantarinha. E mudei-me para Guimarães por amor.” Dizem as lendas que estas seriam utilizadas com símbolo aceitação ou negação de um pedido de namoro ou noivado. No seu interior seria depositado o dote. Polvilhada de mica branca, um material que Maria garante “só se encontrar, no país, em Guimarães”, a peça, em exposição, tem lugar de destaque cinco vezes: para além do formato convencional, a oleira apresenta quatro “reinvenções” da cantarinha.

A artesã criou duas peças especialmente para a exposição. ©Nuno Rafael Gomes/Mais Guimarães

As histórias confluem: a artesã mudou-se para Guimarães por um pedido em forma de peça de barro e, mais tarde, em 1997, ingressou num curso de olaria. Nasceu em Portimão, onde, até à mudança, era “desenhadora de máquinas”. Sem as limitações geométricas do trabalho anterior, diz encontrar na olaria “a liberdade” artística. Algo que se prolongou ao longo de 20 anos, como o gosto pela arte. “Ainda sinto o fascínio que senti da primeira vez que mexi no barro”. E, por isso, Maria apostou na formação de novos oleiros — ou apenas interessados —, bem como na passagem da “palavra” às crianças: foram mais de 500 as que “deram vida ao barro” com a artista. “Mexer no barro faz falta na formação das crianças e não temos disso nas escolas. Os quatro elementos encontram-se. A terra do material, a água para moldar, o ar para secar e o fogo para cozer”, explica. E pode ser “relaxante”, até.

A minúcia tolda o trabalho: os detalhes que se encontram nos muitos presépios minimalistas levam o seu tempo, bem como as próprias peças. “Não uso moldes. É tudo, tudo à mão”, assegura. É um regresso às origens, “à expressão artística mais antiga que os humanos encontraram para praticarem o culto”. Nos dias de hoje, as inspirações parecem não se esgotar na Cidade Berço: “Eu gosto de imaginar esta cidade há uns séculos. E acho que, por algum motivo vim parar aqui. Se nos envolvermos mesmo na cidade, acho que a inspiração é inesgotável. Há imenso, quer pelos personagens quer pelo próprio local.” Foi de um dos locais que mais gosta em Guimarães que retirou os ornamentos naturais que brotam dos “ramos” de barro de uma das Árvores da Vida, duas peças realizadas “especialmente para esta exposição”, cujo engobe natural e de tonalidade rosa faz com que ambas se destaquem. A primeira representa, pelas folhas, pinhas e musgo que a escalam, a vida; a segunda, com elementos metálicos, contrasta pela ausência de elementos naturais e remete para “o sofrimento que é encontrado na vida”.

Maria Fernanda Braga não é filha de oleiros, mas tomou a tradição e fez do barro, vida. A profissão desvanece, mas ela resiste. As tradições que se representam na sua obra não eram as dela, mas tornaram-se. O balanço destes 20 anos, diz, “é bastante positivo”. Mesmo que, por vezes, “seja muito difícil ser artista”. A exposição está patente na Loja A Oficina, na rua da Rainha, até 15 de fevereiro.

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