Na primeira pessoa: O testemunho de enfermeiras sobre um ano de pandemia

Nesta quarta-feira, dia 12 de maio, celebra-se o Dia Internacional do Enfermeiro. Célia Margarida Lemos e Maria Conceição Silva, enfermeiras do Grupo de Coordenação Local do Programa de Prevenção e Controlo da Infeção e da Resistência aos Antimicrobianos, partilham connosco este testemunho sobre este ano de pandemia, um ano em que viveram “experiências nunca antes pensadas”. Foi “um tempo diferente para todos”, acrescentam.

“A OMS fez soar o alarme, declarou emergência global e todos os esforços se alinharam para travar um vírus cuja entrada era inevitável. E o que poderíamos fazer? A fronteira do nosso hospital não se poderia fechar e encontrávamo-nos geograficamente no epicentro do vírus em Portugal.

Medidas de saúde pública foram impostas que, pelo confinamento os nossos hábitos e rotinas alteraram e que a alguns sufocaram. A estratégia de Saúde Pública foi uma ação imperiosa e concertada na resposta ao desafio da COVID-19 e o seu sucesso baseou-se na resposta rápida dos serviços prestadores de cuidados de saúde. 

A resposta foi preparada ainda num contexto de incerteza científica, que embora, se conhecesse a patogenicidade/virulência do SARS-CoV-2 e a ausência de imunização específica, desconheciam-se outras caraterísticas epidemiológicas importantes para a sua contenção como, as vias de transmissão, tempo de incubação, período de transmissibilidade, grupos de risco e taxa de ataque por grupo etário. 

Paralelamente, na fase inicial da pandemia, a quase ausência de orientações e normas exigiu dos profissionais responsáveis pela prevenção e controlo de infeção um esforço sobre humano na sua elaboração, com sistemáticas revisões, assim como, na ajuda para implementação de medidas que requereram uma adaptação rápida dos profissionais às características da doença, a novas técnicas e metodologias de trabalho, a nova organização de espaços nos serviços e à utilização correta de equipamentos de proteção individual, pois é o grupo com maior risco de exposição ocupacional ao vírus. O medo do desconhecido, o receio da sua contaminação e de transmissão aos seus familiares, pela perceção que todos corriam risco de vida, gerou nos profissionais de saúde sentimentos de insegurança, ansiedade e angústia e nalguns casos, com evolução para doença.

A ausência no mercado de certos equipamentos de proteção individual, tais como, máscaras para proteção dos doentes e profissionais como também respiradores de partículas, fatos, batas, cógulas, botas, óculos e viseiras, e a rutura da pouca reserva de outros despertou grande preocupação nas enfermeiras do GCL-PCIRA, que com empenhamento e determinação para adquiri-los, por qualquer meio e a qualquer preço, fizeram desta uma prioridade para que o atendimento ao doente fosse realizado com o padrão mínimo de segurança exigível. Neste contexto, e com espírito de missão lançaram apelo à comunidade através dos próprios familiares, os quais criaram imediatamente uma rede de solidariedade para criar e confecionar gratuitamente e obter outros donativos que contribuíssem para humanizar os cuidados no internamento destes doentes, ainda submetidos a medidas restritivas que não permitiam a entrada de objetos pessoais como, pijamas, chinelos e produtos de higiene pessoal.

Foram dias de grande sufoco. Os recursos eram escassos e as necessidades eram muitas. Um procedimento tão simples de reposição/fornecimento de material aos serviços tornou-se numa atividade especialmente difícil e preocupante onde diariamente se formavam filas para levantar o material. Para gerir a distribuição equitativa dos equipamentos de proteção individual, por serviço, as enfermeiras do GCL-PCIRA organizaram-se com outros enfermeiros da Gestão do Risco Clínico e Não Clínico. Era feita uma contagem à unidade destes equipamentos e, simultaneamente com a maior transparência, esclareciam-se e incentivavam-se os profissionais no seu uso criterioso segundo uma avaliação de risco, muito embora não se evitasse reclamações com alterações de humor, assemelhando-se às filas para o pão no tempo da fome, segundo a descrição dos nossos progenitores. As vivências mais penosas que retemos na memória, não foi o número de horas de trabalho diário, que duplicou em dias consecutivos, nem o facto de já não dedicarmos tempo à nossa família, e sim a escassa informação e inabilidade nos fluxos da comunicação que acabaram por gerar em nós sentimentos de insegurança e de impotência perante as inúmeras solicitações.

Estas foram vivências em contexto de pandemia que, apesar de inesperadas e inéditas, pelo desafio e ao mesmo tempo pela oportunidade geraram muita aprendizagem das quais se destacam aspetos positivos que devem permanecer como um legado no futuro: são a importância da saúde nas nossas vidas e também a importância da equipa de saúde, incluindo o doente e a sua família, e a valorização por todos do papel de cada um na adoção de medidas de prevenção e controlo de infeção para promover a saúde individual e a saúde pública”.

©2021 MAIS GUIMARÃES - Super8

Fazer login com suas credenciais

Esqueceu sua senha?