Nem o Natal vai salvar o comércio tradicional

Segunda-feira, 21 de dezembro, faltam três dias para a noite de consoada, as ruas do Centro Histórico da cidade têm muito pouca gente, nas lojas veem-se no máximo duas três pessoas. A maioria dos lojistas faz horas a olhar para a rua, enquanto desesperam por clientes que não chegam.

Foto: João Bastos

A rua da Rainha, que já nos habituamos a ver cheia de turistas está cinzenta, vê-se ainda menos gente que em outras artérias. Júlio, o alfarrabista, conversa, à porta, com alguém que passa. A fazer horas, já que na loja não há ninguém. Dá o ano como perdido, de março a julho esteve fechado, “foi a mudança e depois o confinamento”. O espaço é novo e muito mais airoso que o anterior, a esperança era que o verão viesse compensar o investimento feito, mas acabou por não ser como esperava.

“O turismo faziam-nos muita falta”, queixa-se. Apesar de vender livros, que não são objetos muito procurados pela maior parte dos estrangeiros, vendia bem aos portugueses e aos brasileiros, que nos últimos anos começaram a aparecer em grande quantidade.

Na rua da Rainha os comerciantes sentem-se abandonados pela falta de iluminação de Natal

“Já faltava animação, mesmo quando tudo estava bem, agora nem se fala. Desde que me lembro de ser gente que a rua da Rainha sempre foi iluminada, nas Gualterianas e no Natal. Este ano ficamos de fora e ainda não me explicaram porquê”, crítica.

Júlio estima a quebra das vendas do ano em 70%. Vai lembrando que as despesas se mantêm, “renda, luz, internet, telefone”, desfia as despesas fixas e deita as mãos à cabeça. “Em setembro e outubro ainda animou, mas em novembro, com as más notícias, voltou a cair”, lamenta-se.

Umas portas ao lado, na Casa das Novidades, Queirós Castro confirma que não houve resposta da Câmara ao manifesto que os comerciantes fizeram no sentido de mostrarem o seu descontentamento por a rua da Rainha não ter sido iluminada este ano. “Perdemos pau e bola, nem temos turismo, nem temos os vimaranenses, nada os convida a vir aqui”, afirma, apontando para a rua escura. Na Casa das Novidades, as vendas ainda animaram um pouco no verão, mas logo em outubro voltaram a cair. Queirós Castro estima a redução das vendas em 60%.

Sofia trabalha na Donnatella, na rua de Santo António, há seis anos, nunca tinha visto um Natal assim. Acaba de fazer a montra com um lindíssimo vestido de noite preto. “Provavelmente não o vamos vender, mas é para animar a montra, para dar vida à rua, levantar o moral a quem passa e nós que estamos aqui”, afirma, com um sorriso que não esconde uma certa amargura. Em outros anos, ela e a colega não tinham mãos a medir por estes dias. “Era preciso ficar a trabalhar a trabalhar até mais tarde, os clientes faziam fila enquanto embrulhávamos os presentes. Este ano, estamos assim”, aponta para o espaço onde estão as duas vendedoras, o jornalista e o fotografo, mais ninguém. “Estamos a fazer saldos antes do Natal”, indica, como forma de revelar as dificuldades.

A loja onde Sofia trabalha foi duplamente afetada. “Como vendemos muita roupa de cerimónia, perdemos por não haver casamentos, batizados, todo o tipo de cerimónias que foram adiadas e voltamos a perder agora com o Natal e a passagem de ano”. Do outro lado da rua, a JVB, teve o mesmo problema, sem cerimónias, os homens só compram fatos para trabalho e mesmo nesse caso a necessidade foi reduzida, com muita gente a trabalhar a partir de casa.

Uma comerciante da rua de Santo António teme que a situação venha a piorar se se confirmar o rumor que a loja da Zara vai fechar. “É concorrência, mas também é uma âncora que atrai gente para o centro”.

Sem casamentos não se vendem alianças

A Cunha Joalheiros tem uma experiência diferente, num ano que também classificam como mau. Neste caso, nos meses de julho e agosto fizeram uma faturação igual aos anos anteriores, embora com outros clientes. “Houve poucos turistas estrangeiros e também poucos emigrantes, mas os turistas portugueses compraram mais”, afirma Carlos Cunha. O tipo de artigos mais vendidos também mudou, “os turistas procuram sobretudo a filigrana e isso parou completamente”. As alianças também deixaram de se vender, sem casamentos, os noivos pedem orçamentos, mas vão adiando a compra à medida que o casamento também vai sendo adiado, esclarece Helena Lopes.

A maioria dos comerciantes defende que a abertura do comércio às 8h00 não trouxe grande vantagem. Na Ferrache nem aproveitaram a oportunidade. “A essa hora não há pessoas aqui no centro, não valia a pena”, afirma Marta, uma das empregadas.  Marta reconhece um padrão nas compras dos clientes, “continuam a comprar, mas levam artigos mais baratos”.

“Temos de meter as mesmas pessoas em menos tempo, no mesmo espaço”

Outro comerciante da rua de Santo António, que não se quer identificar, crítica o Governo por ter apertado os horários, em vez de os alargar. “Temos de meter as mesmas pessoas em menos tempo, no mesmo espaço”. O mesmo comerciante vai adiantando que não conhece nenhum lojista infetado naquela rua, “se as nossas lojas fossem inseguras, nós seríamos os primeiros a ser infetados”. Para este comerciante, o Governo “tem mão pesada com o pequeno comércio, mas não tem coragem de fechar os shoppings, onde não há nenhum controlo”.

Na segunda-feira, dia 21, nenhum dos comerciantes contatados tinha ainda recebido um dos vouchers que a Câmara Municipal anunciou que iria distribuir pelas pessoas que fizessem o registo no Proximcity. A maioria deu pouca importância à iniciativa e havia mesmo quem a desconhecesse.

“Se o cliente quiser comprar Levis, não vai procurar a minha loja no Proximcity, vai ao site da Levis”

Relativamente às expetativas para a plataforma de vendas, uns estão a experimentar, outros já decidiram que será “um fiasco”.  Carlos Cunha reconhece que está a usar, embora veja o sistema como imperfeito, nomeadamente ao nível dos pagamentos. No alfarrabista, Júlio bem sabe que muitos dos seus colegas estão a mudar o negócio para o online, mas já não está para isso, além do mais, gosta do cheiro dos livros. Os mais críticos defendem que o Proximcity é uma ameaça ao comércio de rua, promovendo a compra online. “Se o cliente quiser comprar Levis, não vai procurar a minha loja no Proximcity, vai ao site da Levis”, comenta um dos comerciantes mais crítico.

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