Nenhum jovem invisível: comunidade une-se em torno da saúde mental em contexto escolar
O Seminário “Intervenção em crise em saúde mental no contexto escolar” realizou-se esta quarta-feira na Escola Secundária de Caldas das Taipas, reunindo profissionais da educação, saúde e diversas entidades da comunidade com intervenção na área infantojuvenil. A iniciativa teve como principal objetivo capacitar os agentes educativos para lidar com situações de crise em saúde mental, com especial enfoque nos comportamentos suicidários na adolescência e nas estratégias de pósvenção.

© Eliseu Sampaio / Mais Guimarães
Virgínia Rocha, Diretora do Serviço de Pedopsiquiatria da ULS Alto Ave, destacou o enquadramento estratégico desta iniciativa, explicando que, desde 2023, a Comissão Nacional de Saúde Mental tem vindo a implementar um modelo de cuidados de proximidade, centrado na comunidade. Nesse contexto, a ULS Alto Ave promoveu a criação da Equipa Comunitária de Saúde Mental da Infância e Adolescência de Guimarães (ECSM-IA G).
Esta equipa integra representantes de vários setores que trabalham com a população infantojuvenil, incluindo cuidados de saúde primários, serviço de pedopsiquiatria, Ministério Público, CPCJ, CRI, ELI, ProChild CoLAB, forças de segurança e a própria autarquia. O objetivo passa por melhorar a articulação entre cuidados e comunidade, reforçar a coerência das respostas e promover práticas profissionais de maior qualidade.
Entre as principais metas da ECSM-IA G estão a avaliação dos determinantes sociais da saúde mental no território, a realização de um diagnóstico local e a implementação de medidas concretas de prevenção, promoção e literacia em saúde mental. Virgínia Rocha sublinhou que este trabalho só é possível com uma forte vontade política e com a convicção de que investir na saúde mental das crianças e adolescentes é essencial para o futuro.
Um dos momentos centrais do seminário foi a intervenção de José Carlos Santos, coordenador clínico da Linha Nacional de Prevenção do Suicídio e Apoio Psicológico (1411). O especialista alertou que, embora os suicídios consumados na adolescência sejam raros em Portugal, com uma taxa inferior a 5 por 100 mil habitantes, têm um impacto profundamente significativo nas comunidades.
Segundo o responsável, estes casos ocorrem maioritariamente entre adolescentes do sexo masculino, enquanto os comportamentos autolesivos são mais frequentes nas raparigas. Destacou ainda que cada suicídio pode afetar cerca de 135 pessoas, os chamados sobreviventes, que ficam em maior risco de sofrimento psicológico.
Neste contexto, foi sublinhada a importância da pósvenção, entendida como a intervenção após um comportamento suicidário, com o objetivo de apoiar o luto e prevenir fenómenos de contágio. Em ambiente escolar, esta abordagem deve envolver toda a comunidade educativa e assentar num plano estruturado que identifique recursos, funções e formas de articulação.
Durante o encontro, foi ainda proposta a criação de um Protocolo de Atuação em Crise de Saúde Mental em Contexto Escolar, com o objetivo de reforçar a segurança dos profissionais e uniformizar procedimentos, permitindo uma resposta mais eficaz e coordenada.
O seminário serviu igualmente para dar a conhecer os recursos disponíveis na comunidade, promovendo uma intervenção mais precoce e integrada. Estiveram representados projetos como o Projeto LUDERE, o Projeto Bússola, o CoAtion, ProChild CoLAB e o CRI.
A sessão contou com a participação de vários especialistas e responsáveis institucionais, entre os quais Eduardo Leite, vice Presidente da Câmara Municipal de Guimarães, que sublinhou a importância de uma resposta articulada e humanizada perante os desafios da saúde mental entre os mais jovens. Na sua intervenção, citou o escritor Pedro Chagas Freitas, afirmando que “o silêncio pode pesar mais do que a própria tristeza”, para alertar para a necessidade de escutar e dar atenção aos sinais muitas vezes invisíveis.
O autarca destacou que muitos jovens não precisam, numa primeira fase, de uma resposta clínica, mas sim de adultos atentos e disponíveis. “Precisam sobretudo de um adulto que repare, que escute e não minimize”, afirmou, defendendo que a prevenção da ideação suicida deve acontecer antes da crise, através da criação de espaços de pertença e da redução do medo de pedir ajuda. Para Eduardo Leite, é fundamental tornar claro que “sofrer não é falhar”.
Na mesma linha, reforçou a importância do trabalho conjunto entre diferentes setores. “Todos temos que trabalhar, juntos, para que os adolescentes e jovens sintam que são vistos e que pertencem”, afirmou, acrescentando que esse sentimento de pertença contribui para maior segurança emocional e capacidade de procurar apoio quando necessário. Sublinhou ainda que “tudo funciona melhor quando a saúde, a escola e a comunidade trabalham juntas”, defendendo uma abordagem integrada e colaborativa.
O vice-presidente da Câmara Municipal de Guimarães deixou também uma mensagem de compromisso coletivo, salientando que iniciativas como este seminário são fundamentais para garantir que nenhum jovem tenha de chegar ao desespero para ser visto. “Se e quando isso acontecer, é essencial que alguém esteja sempre lá para ele ou para ela”, referiu, antes de agradecer o envolvimento de todas as entidades e profissionais presentes.
A iniciativa reforça a importância de uma abordagem colaborativa à saúde mental em contexto escolar, num esforço conjunto entre educação, saúde e comunidade para responder de forma mais eficaz aos desafios que afetam crianças e jovens.





