NOTAS SOLTAS SOBRE OS MEDOS DESTES TEMPOS

Por Tiago Laranjeiro

Os medos que nos dominam

Vivemos rodeados de medos. Um recorrente é de uma nova pandemia à escala mundial, um risco agora representado pelo coronavírus. De repente, a China e os chineses são destinos a evitar. No mercado de trabalho, a progressiva automação de tarefas e substituição de postos de trabalho por soluções tecnológicas, algumas delas “desmaterializadas”, levantam receios sobre profissões manuais, mas também sobre muitas profissões e atividades consideradas intelectuais (veja-se as soluções de inteligência artificial que prometem automatizar as tarefas rotineiras que consomem a maior parte do tempo de trabalho de advogados, ou a escrita de notícias). Medo que as alterações climáticas ou aquecimento global (a expressão que escolhermos representa, por si, uma posição face ao tema) mudem o nosso mundo. Medo da imigração, que venha ameaçar o nosso “ecossistema social” – o que quer que isso seja. Medo das aplicações informáticas que usamos, e de um mau uso dos dados pessoais que recolhem (Xiu, que o telefone, e agora também aparelhos “inofensivos” como os frigoríficos, estão a ouvir-nos). Medo de assumir determinadas posições públicas, consonantes com o que interiormente pensamos, pelos desconfortos, ameaças e consequências que daí poderão advir. Medo da rutura eminente do Estado Social, seja na Saúde ou Segurança Social, e o que se lhe seguirá. Medos por toda a parte.

Não sei se sempre foi assim. O que me parece é que a incapacidade coletiva que temos tido de visualizar futuros melhores leva-nos a que, por instintos de preservação, queiramos guardar os frágeis equilíbrios de que se fazem a vida em sociedade. E nesta urgência de preservação, perdemos o sentido de perspetiva, agarrando-nos a soluções que nos prometem salvar o que nos é mais imediato.

As consequências políticas dos nossos medos

Os nossos medos refletem-se, desde logo, nas escolhas políticas que fazemos. Grande parte da agenda das forças políticas de esquerda nos últimos anos tem sido da luta por “reposições” de estados anteriores a mudanças que imperiosamente tivemos de fazer para responder à mudança dos tempos e às consequências de escolhas consecutivas que fizemos coletivamente. E com esta urgência reacionária perde-se também o sentido de perspetiva de futuro, aumentando os medos e receios desse mesmo futuro: a matéria-prima de que se alimentam os populismos.

Curiosamente, neste “estado das coisas”, grande parte da soluções que se apresentam quanto às lideranças do futuro residem em populismos, como Trump, Bolsonaro, Iglesias ou Maduro, ou em soluções datadas ou envelhecidas, como sucede no Reino Unido com Corbyn ou com os candidatos das primárias democratas americanas Bernie Sanders, Joe Biden e Michael Bloomberg, tendências que se sentem também por cá. Recorda aquela velha máxima: antes o mal que conheço ao bem que me prometem.

Eutanásia: o regresso do debate sobre o fim da vida

Regressa à agenda o debate sobre a eutanásia. (De certo modo, o medo sobre o fim.) Uma verdadeira escolha pressupõe alternativas, principalmente em situações limite da vida humana. Nos últimos dois anos, desde que esta questão se pôs pela última vez, o que foi feito para aumentar a rede de cuidados continuados e paliativos, para que sequer haja opções que garantam liberdade numa escolha?

Agora surge a solução “paliativa” do referendo – aceitando, portanto, que a vida humana é seja referendável. Pelo meio desta “paralisação” das forças moderadas da sociedade, ganha a agenda extremista, do extremo-individualismo, que aceita, em última análise, o regresso à esfera do Estado da decisão sobre a vida de cidadãos.

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