NUVENS SOMBRIAS NA SOMELOS

Esser Jorge Silva,

Sociólogo

Nuvens negras voltam a ameaçar o campo laboral vimaranense. Nos últimos meses a apreensão tomou conta de grande parte dos 4500 habitantes da Vila de Ronfe. Isto porque o Grupo Somelos, a mais importante fonte de emprego da localidade, vai dando sinais preocupantes. Nos últimos meses o atraso no pagamento dos salários tem-se arrastado e mesmo as contribuições de algumas unidades para a segurança social necessitaram de negociação estando a ser pagas faseadamente. A situação já extravasou para o domínio público e, na semana passada, fruto de mais um atraso no pagamento dos salários de abril, os trabalhadores pararam a laboração em protesto. Mais uma vez a situação acabou por se resolver mas já ninguém consegue vislumbrar um futuro sem sombras a pairar.

Na realidade os cerca de 900 trabalhadores que ali obtêm o seu rendimento mensal vivem com o credo na boca e já perceberam estar na presença dos sinais clássicos da empresa a entrar em dificuldades. Como o demonstra o não muito longínquo historial do Vale do Ave empresarial, após a manifestação pública de problemas financeiros, há uma espécie de ritual que se segue e que, regra quase geral, embrinca no fecho das empresas. Essa é todavia uma realidade que, em simultâneo, quase todos os operadores tentam afastar. Um choque nas estatísticas de desemprego em Guimarães traduzir-se-ia numa psicologia negativa negando-se assim todas as narrativas empreendedoras e que, amiúde, vão sendo negadas por vários analistas financeiros.

Esse é o motivo que também pode explicar o afastamento dos sindicatos perante os problemas evidenciados pela Somelos. Aparentemente as grandes lutas sociais envolvendo o trabalho já não têm protagonistas disponíveis no Vale do Ave. Nesse particular, longe vão os tempos em que a crise de qualquer empresa motivava uma tomada de posição sindical. Excetuando a sobre dinâmica junto das profissões estatais, os sindicatos praticamente desapareceram da vida civil e o caso parece não despertar sequer o histórico Sindicato Têxtil.

Não fosse uma intervenção da deputada Carla Cruz da CDU na Assembleia da República e o caso não teria tido qualquer abordagem política. A especulação que corre em público admite a existência de algum desconforto político no atribuir de amplitude ao caso, uma vez que tal mancharia o traço de sucesso estratégico político a que se deu a alcunha de “Geringonça”. Mas não é só. O facto de Paulo Melo, líder do Grupo Somelos, presidir à Associação Têxtil e Vestuário de Portugal (ATP), uma das mais importantes associações europeias do setor – com 130 mil trabalhadores e um volume de negócios próximo dos 7 mil milhões de euros, segundo o Expresso – impõe também algum respeito noticioso.

A empresa Indústrias Têxteis Somelos surgiu em 1958 pela mão de António Teixeira e Melo. O rápido crescimento da empresa, fornecendo têxteis para todo o mundo, alicerçado em segmentos de grande exigência, foi consolidado já com José Ângelo, primeiro filho do fundador. Durante a década de 1990 foi a vez de António Melo, irmão de José, reordenar a organização transformando a pesada empresa vertical. Esta passou a ser constituída por várias unidades especializadas.

Nos últimos anos já na vigência da administração de Paulo Melo – filho de António – e também fruto da crise que Portugal atravessou, várias unidades tiveram de submeter-se a Planos Extraordinários de Recuperação (PER). Algumas já vão no quarto PER e não mostram ter readquirido capacidade de mercado que as possa sustentar. Além disso é visível algum desinvestimento na área produtiva, sobretudo da fiação, pelo que um dos pavilhões já está alugado para armazéns da Mundifios. Vários trabalhadores veem nesta cedência do espaço histórico da Somelos o primeiro passo para a transformação dos pavilhões num negócio imobiliário.

Em 2018 a estrutura acionista do Grupo Somelos sofreu uma importante alteração. Após uma espécie de cisão familiar deu-se o afastamento de primos, tendo-se reduzido o número de intervenientes na gestão. Atualmente o Grupo Somelos é detido, em partes iguais, pelos irmãos Paulo Melo e António Melo.

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