O ESPAÇO BIG BROTHER DE TRABALHO DAS ÁGUAS DO NORTE

Esser Jorge Silva,

Sociólogo

De repente, uma novidade estilístico-urbanístico, vertida numa espécie de edifício desnudado com pessoas dentro, trouxe desassossego visual à pacata Rua Dr. Roberto Carvalho, artéria mais (re)conhecida como Rua Dr. Carlos Malheiro Dias que desagua na Praça da Mumadona vinda dos lados da Escola Martins Sarmento. Ali mesmo, um edifício envidraçado, caracterizado por nunca ter recebido qualquer atividade desde o seu alçar passou a constituir-se num atrativo, não tanto pelas suas linhas assimétricas mas porque, ao fim de uns largos anos sem descobrir atividade que se lhe alojasse, encontrou um inquilino com manifestos laivos de vivência pós-moderna.

Se o estranho edifico sempre desafiou a imaginação de quem por lá passava, questionando que negócio seria capaz de adotar tal espaço, tal era a dimensão de vidro expondo o seu interior, a visão de uma decoração ali dentro com móveis brancos, imensamente brancos, só podia despertar a atenção sobre a natureza dos conhecimento ergonómicos que por ali agia. Uns ecrãs aparecidos nos tampos das secretárias retiraram a restauração da competição. Afinal o que seria? Uma novel exposição dessas artes desabridas que vagamundeiam por aí? Ou seria um desses celebrados investimentos da “terciarização” que exigem conhecimentos de licenciatura para operar em ciências de Call Center. Ou estar-se-ia perante alguém que ganhando o euro milhões decidiu dar asas à excentricidade?
Na verdade só quando por lá se viram pessoas é que se percebeu que era coisa séria. Havia mesmo um negócio ali. Está lá. Durante o dia quem por lá passar, do exterior, pode esbarrar os seus olhos nos olhos dos trabalhadores daquela empresa. De tal modo se vê tudo da rua ao ponto de não se recomendar indumentária mais ousada, nomeadamente com algum grau de transparência, aos que lá trabalham. Aliás, em boa verdade, do ponto de vista da exposição, talvez os trabalhadores daquele escritório ficassem menos visíveis se fossem postos a trabalhar na rua. Ali se percebe como a noção de espaço público e o espaço privado desapareceu: tudo é público. O efeito de “nicho” a que estão remetidos recorta e centraliza de tal modo a sua posição, ao ponto de os colocar numa espécie de palco destacado onde os atores estão sempre submetidos a um feixe de um foco de luz. Quem por lá passa, a pé ou de carro, está impossibilitado de evitar o olhar direto para os trabalhadores. As condições do alvo estão concebidas para atrair.

Na realidade a ampla montra de trabalhadores faz lembrar a muito popular Red Light Disctrict de Amsterdão. Com uma diferença: ali as trabalhadoras do sexo querem expor-se. Ser olhadas. Oferecem-se para o que a imaginação do olhador. No caso dos trabalhadores daquele edifício a constrição a que estão submetidos é manifesta nos semblantes. Se nos primeiros dias o incómodo expressava-se na surpresa do lugar, os dias seguintes ensinaram os trabalhadores a coexistir com a coerção, a todo o tempo, lançada por todos os olhares provindos do exterior. Agora, como defesa, baixam a cabeça pousando o seu olhar em todas as direções exceto na parede de vidro que, além de desnudar o espaço, enfoca-se em si, clamando todas as atenções.

Sabe-se que o edifício constitui agora o polo vimaranense da empresa Águas do Norte, SA. em consequência do abandono das anteriores instalações no Estádio D.Afonso Henriques. Com a saída da Câmara de Guimarães do capital social, a empresa multimunicipal deslocalizou a sua sede para Vila Real mantendo, todavia, instalações em Barcelos. Resulta, também, do braço de ferro público com os trabalhadores residentes em Guimarães. Depois de dois anos a viajarem diariamente, em táxis, para Barcelos, estes vêm-se agora na circunstância de trabalhar num espaço edificado fundado no panoptismo.

O panóptico (de pan-óptico) designa um sistema de vigia originalmente pensado para as prisões pelo arquiteto Jeremy Bentley. Trata-se de um sistema circular onde, no centro, se aloja o lugar da vigia. Ainda que não exista nenhuma sentinela, os vigiados são submetidos à dúvida permanente de quantos vigilantes os observam e controlam. Por outro lado a exposição total dos trabalhadores e a indução permanente ao estado de observação tem como efeito prático a sua anulação pela omnividência. Por isso mesmo o panoptismo é uma das mais baratas e eficazes formas de poder. Trata-se, no fundo, de um dispositivo produtor de um tipo de disciplina a que o sujeito não tem hipóteses de escapar. No caso da nova sede local da empresa Águas do Norte presta-se, em todas as suas linhas organizacionais do espaço de trabalho, numa novel forma de coagir e moldar negativamente o espírito de quem lá trabalha.

Os tempos atuais do ignorancismo identificam a expressão “Big Brother” como se de um programa de televisão se tratasse. Desse modo é assaz difícil levá-los a compreender que a expressão foi cunhada pelo escritor George Orwell que, em 1948, criou a personagem “Big Brother” no livro “1984”, uma “entidade” cujo poder de tudo ver e tudo controlar a tornava num novo Deus. Orwell criou fundou a noção de distopia. “Distopia” é o contrário de “utopia”. Enquanto a “utopia” aponta para a esperança, a “distopia” cobre com terror. É isso mesmo que assentou em Guimarães: um edifício distópico de trabalho.

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