O FUTURO TRABALHO OU EMPREGO? EU ESCOLHO SER MAIS “HUMANO”

por PAULO NOVAIS
Professor de Inteligência Artificial

A dicotomia trabalho vs emprego sempre me intrigou. Nunca entendi o porquê de tanta confusão e barulho. Para mim é claro, que trabalho é essencialmente uma ocupação manual ou intelectual. No fundo é o conjunto das atividades realizadas e/ou o resultado do esforço feito por sujeitos, com o objetivo de atingir algo. Emprego é uma ocupação remunerada, a que um sujeito se consagra.

Uma coisa é clara, não há referências a que tipo de atividades se refere nem lhe conferem nenhum atributo ou classificação, i.e., todas as atividades são dignas. Não deixa de ser curioso, no entanto, recordar que até à Idade Média, o trabalho tinha uma má reputação por, fundamentalmente, ser executado por escravos ou classes inferiores. Com a reforma protestante Lutero (século XVI) coloca o trabalho como um dever Divino, decretando a ociosidade como um pecado. Hoje a nossa tradição e cultura rege-se pelo princípio de que devemos trabalhar para viver e não viver para trabalhar.

Historicamente é ainda claro, que tem havido uma evolução com a passagem progressiva de um trabalho predominantemente manual para um trabalho mais intelectual. As tarefas normalmente associadas à cognição são atualmente, em geral, as mais bem renumeradas e mais reconhecidas (a este respeito recomendo a leitura de Sapiens: Uma Breve História da Humanidade de Yuval Harari).

Surgem, entretanto, novas ameaças no horizonte e muitos proclamam o fim anunciado (e provavelmente extemporâneo) do emprego. Os robôs estão a ficar com os nossos empregos há mais de 50 anos! Então, digo eu, por que estamos nós preocupados com isso? Alguém quer ser soldador ou pintor de carros numa linha de produção intensiva e desumanizada? ou num qualquer contexto de trabalhos sujos, pesados ou perigosos para o ser humano? Convém lembrar que “eles” são mais eficientes e produtivos nessas tarefas e no futuro ainda o serão mais! Os veículos autónomos, por exemplo, estão aí mesmo à porta…

Os robôs e os sistemas de Inteligência Artificial (IA) serão sempre mais eficientes que nós em tarefas repetitivas que possam ser reproduzidas e replicadas, que não necessitem de criatividade (nas suas mais diversas dimensões), quer sejam manuais ou mais intelectuais. Tudo é uma questão de tempo! Afinal um sistema de IA ganhou, há já algum tempo atrás, ao maior mestre de Xadrez (Garry Kasparov).

Calma! Isto é ainda (de algum modo) futurologia, mas não tão distante quanto alguns gostariam.

Existem, no horizonte, alguns sinais positivos. As maiores e mais fortes economias do mundo e com elevada taxa de robotização, estão no entanto com níveis de desemprego a baixar e até alguns casos historicamente baixas! Porquê? Porque o trabalho está também ele a mudar. Se de facto, estão a desaparecer os trabalhos (manuais ou cognitivos) rotineiros, em contraste, o trabalho não rotineiro está evidenciado sinais de elevado crescimento. Surgem novas necessidades e novos empregos no setor da saúde, assistência social, em contextos científicos e técnicos, na proteção do ambiente, bem como na educação e formação, i.e., setores onde a interação com o homem e a criatividade são fundamentais.

Numa visão futurista (eventualmente idílica), poderemos nos concentrar em fazer as “coisas” que nos tornam mais humanos. Eventualmente sustentados por uma legião de “robôs”. Cabe a nós decidir se eles devem trabalhar para nós, connosco ou contra nós.

Porventura poderemos, nesse cenário, como profetiza Confúcio “escolher um trabalho de que se gosta, e não ter que trabalhar nem um dia na nossa vida”, até porque como diz, também, um texto Judaico “o trabalho mais duro do mundo – é não fazer nada”.

 

 

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