O regresso dos restaurantes faz-se com esperança, receio, máscaras e desinfetantes

Dois metros para lá, dois metros para cá. A lotação baixou, bem como a faturação. Os proprietários dos restaurantes vimaranenses começaram a reabrir os seus espaços na passada segunda-feira. E, para já, é cedo para balanços. Mas muitos reconhecem que será “complicado”.

© João Bastos/ Mais Guimarães

Mesas despidas de gente, álcool gel à entrada, distâncias a cumprir, máscaras para usar. O regresso da restauração deu-se na passada segunda-feira, dia 18 de maio, a data da segunda fase do desconfinamento português. Ainda é cedo para balanços, mas os empresários vimaranenses que falaram com o Mais Guimarães partilham as expressões para resumir o estado de espírito: “Vai-se andando”; “Olhe, é um dia de cada vez”; “Vamos ver como corre”. Há gente mais otimista e feliz pelo regresso; outros, queixam-se da falta de apoios e perspetivam um cenário futuro menos risonho.

Foram muitos os estabelecimentos de restauração que fecharam portas com a declaração do estado de emergência, a 16 de março — ou até antes. Se houve quem não tivesse qualquer fonte de rendimento ao longo de dois meses, outros optaram por continuar a trabalhar: o take-away e a entrega ao domicílio foram as alternativas possíveis. Foi o caso da Tasca Ponto de Encontro, em Vila Nova de Sande. Por esse motivo, Catarina Vieira, filha dos proprietários, conta que a adaptação necessária para a reabertura “não foi complicada”: “Já tínhamos cuidados antes do take-away e durante. Também levamos as refeições a casa. Privilegiamos a esplanada, mas mesmo adotar as medidas para o interior não foi difícil.” No estabelecimento, mantém-se o serviço de almoços, lanches e jantares, mas com as devidas medidas implementadas. “E ninguém entra no restaurante sem máscara”, conta. Por isso, Catarina espera que, do lado consumidor, exista “compreensão”: “Sabemos que vai aparecer de tudo, mas também temos de nos impor. Acho que há pessoas que ainda não se aperceberam muito bem do que se está a passar.”

Já na cidade, o Cantinho dos Sabores também optou pelo serviço take-away. Mas os resultados foram desanimadores: “Não correu bem e não compensa”, diz Helena Magalhães, proprietária do espaço. Na segunda-feira, ao almoço, tudo estava ainda “muito parado”: “Tivemos pouca gente. Estávamos a contar com mais.” Com metade da lotação disponível, o Cantinho dos Sabores pode, agora, servir o máximo de 15 pessoas. “Se continuar assim, não sei se as pessoas vão aguentar. Aqui ao lado, está tudo na mesma situação”, acrescenta.

Dois metros para lá, dois metros para cá e a lotação vai baixando. No Restaurante Várzea, em Selho São Cristóvão, havia espaço de sobra para 120 pessoas. Agora, serão 60. António Vieira, um dos proprietários, esteve sempre pelo restaurante. “Mantivemos o take-away. Compensou porque éramos só dois.” Agora, com o regresso de parte dos empregados, António Vieira olha com calma para o futuro: “Só o tempo dirá.” E espera que “as pessoas estejam com saudades de comer fora”. Para já, o Várzea procurará “tirar proveito das esplanadas”.

Esplanadas que crescem

Essa é a esperança de Ricardo Silva, proprietário da Cervejaria Guimarães e do Forno da Vila, ambos situados no Largo da Misericórdia. No primeiro, a lotação baixou de 40 para 18; no segundo, de 34 para 18. “Estou otimista porque tenho uma boa esplanada, que é ótimo para fazer o distanciamento necessário”, diz. O proprietário dos dois espaços de restauração está mais assustado com o inverno, uma vez que o turismo do verão “é um balão de oxigénio” para os meses seguintes. E com o “estalo financeiro” sentido com o encerramento total de portas por dois meses, divide-se entre a esperança e a incerteza do que aí vem. “Segurar isto foi brutal. O futuro é que vai dizer, mas tenho 14 funcionários e não despedi ninguém. Não sei se vou ter capacidade financeira”, conta. Ainda assim, reforça, a esperança reside nas esplanadas.

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Tal como Ricardo Silva, os proprietários de estabelecimentos de restauração e cafés do Centro Histórico viram as suas esplanadas aumentar. A redução da lotação no interior justifica a medida, bem como a tentativa de minimizar o impacto adjacente à pandemia e crise. A Câmara Municipal de Guimarães aprovou uma proposta que autoriza “o aumento das áreas permitidas para instalação de esplanadas, até um máximo de 100% do espaço licenciado”. Para além disso, atribuíram-se, pontual e excecionalmente, “licenças para instalação de esplanadas a estabelecimentos de restauração e bebidas e/ou de empreendimentos turísticos” que não tinham estes equipamentos. Por outro lado, cada estabelecimento situado no Largo da Oliveira ou na Praça de Santiago recebeu uma planta com “área de extensão possível”, que teve “em conta uma distribuição equitativa dos espaços atribuídos”. A isenção do pagamento de taxas da ocupação de espaço público “com toldos e esplanadas” é outra das medidas aprovadas na reunião do executivo da passada segunda-feira, sendo esta medida prolongada até 31 de dezembro deste ano.

Contudo, e mesmo com estas medidas, o cenário nos restaurantes do Centro Histórico “não é o melhor”. Pelo menos foi com essa impressão que Ricardo Pinto da Silva ficou após o contacto com os empresários do setor que têm espaços no local. O presidente da Associação Vimaranense de Hotelaria (AVH) refere que, uma vez que estes estabelecimentos “trabalham muito com a vertente turística”, há algum “receio”. Sem turistas, muitos restaurantes enfrentarão uma fase “muito complicada”.

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Para Amadeu Lima, gerente do restaurante Solar do Arco, as previsões “não são grande coisa”. Ao fim do almoço de segunda-feira, o balanço não foi positivo: “Não houve ninguém. Zerinho.” O restaurante mantém a mesma carta e, agora, tem apenas 10 mesas. A lotação é de 30 pessoas. “Enquanto não voltar o turismo, vai ser muito complicado. Isto fica deserto”, afirma. E não se arrisca a fazer contas antes do tempo: “Não sabemos o que vai acontecer.”

“É seguro comer fora”

O medo de voltar à rua também se estende ao consumidor. Por isso, o presidente da AVH apela: “Resta desejar que as pessoas que estiveram confinadas comecem a frequentar. Para perder o medo.” E os gerentes e proprietários dos restaurantes que falaram com o Mais Guimarães garantem segurança e higiene.

Ricardo Silva assegura: “Os restaurantes são seguros para comer. Temos ementas descartáveis, o toalhete também é e os talheres seguem embalados. As mesas, como já fazíamos, são desinfetadas depois de um cliente sair. Há distanciamento. É uma questão de confiança.” O proprietário está “tranquilo” em relação às normas a cumprir. O mesmo é garantido por Helena Magalhães: “É um esforço extra. Muitas das medidas de higienização já eram cumpridas.” Pela Tasca Ponto de Encontro, há álcool gel “em vários pontos” e “só entra quem tiver máscara”. Mas, tal como os outros proprietários, Catarina Vieira refere que muitos dos cuidados de higiene já eram seguidos. Amadeu Lima entende, contudo, que o espaço disponível “não dá margem de manobra”. De resto, assegura que o espaço “já funcionava com muita higiene”. Tal como António Vieira, do Restaurante Várzea.

© João Bastos/ Mais Guimarães

A palavra de confiança é, também, dada pelo presidente da AVH. “É preciso dizer às pessoas que podem estar descansadas. Todos os estabelecimentos tomaram medidas e toda a gente tem consciência do problema. Toda a gente sabe o que deve ou não fazer para que a abertura corra com a maior segurança e normalidade possíveis. É seguro comer fora”, reforça. Contudo, diz Ricardo Pinto da Silva, é preciso “alertar para a necessidade de ter uma política de comunicação para captar os locais” — um dos pontos que a associação tem vindo a insistir nas reuniões que vai fazendo com a Câmara Municipal. “Este ano tem de ser pelo turismo doméstico”, frisa.

Em tempos incertos, houve quem tivesse pensado não voltar a abrir. “E temos conhecimento de que houve um restaurante que já fechou”, aponta. Contudo, Ricardo Pinto da Silva espera “que não se chegue a uma situação dramática”. Porque, como diz Catarina Vieira, “há uma esperançazita”.

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