O sofá não é saudavel

por Carlos Guimarães
Médico urologista

O passado, a História não resolve, mas ensina. Não aprende quem o ignora ou quando lhe é conveniente esquecer. O mundo move-se segundo as rodas das engrenagens do poder e da economia, tudo o resto sao desenhos e pinturas mais ou menos adaptados à realidade.

Está provado que a Terra gira à volta do sol (alguns não acreditam!) e em cada volta aprendemos, esquecemos, construimos, destruimos, ganhamos, perdemos e sobretudo esquecemos. Ignoramos os erros ao invés de aprender com eles. Foi sempre assim e assim será. Acredito na adaptação dos homens, não acredito na sua mudança. Por vezes, enfrentar a realidade gasta mais energia do que ignorá-la, uma prática cada vez mais frequente, a comodidade e o conforto sobrepõe-se ao confronto e o confronto é mais pródigo em ideias do que em ações. De repente surge a trovoada e só então se acendem as velas a Santa Bárbara. Não podemos ignorar os lobos e nem sempre devemos vestir a pele de cordeiro. O lobo atacou e o cordeiro vai sendo devorado com feridas cada vez maiores e mais sangrantes num sofrimento agónico em direção à morte. Por muito corajoso e forte que seja o cordeiro irá claudicar sob a força dos caninos do lobo. Todo o rebanho está sob o faro do lobo e da sua matilha. Os guardiões do rebanho não exibem os seus dentes caninos, não é o momento adequado, já foi, concentram-se em cortar a ração e esperam definhar a matilha, uma matilha gorda e forte, concentrada em si e distante dos seus cachorros.

Apesar de tudo aprendemos. Aprendemos a deixar o papel higiénico nas prateleiras do supermercado para atacar o óleo de girassol, os enlatados e outros produtos da conveniência egoista de cada um. Aprendemos a ser solidários e a cultivar o egoismo mais ancestral. Ainda há palpel higiénico dentro das embalagens que foram açambarcadas em 2020, ainda há cloroquina, azitromicina e acetilcisteína fora de validade dentro das gavetas. Deviamos ter aprendido e não aprendemos porque já vamos assaltando as farmácias à procura dos comprimidos de iodo que têm a mesma utilidade que salgar a água do mar.

Confesso-vos que nos tempos recentes em que Costa e Rio disputavam o poder, a minha preocupação centrava-se junto à fronteira da Ucrania porque na verdade o que por lá se passava poderia condicionar muito mais a nossa vida do que a vitória de qualquer um dos líderes políticos. A minha preocupação fazia sentido e hoje todos sentimos a minha preocupação.

Sabemos que “não vai ficar tudo bem”, mas o mundo voltará a ser aquilo que era porque as verdadeiras mudanças dão muito trabalho, sabemos que assobiar para o lado nem sempre é a melhor opção, que o sofá é cómodo mas não é saudável, sabemos que o futuro existe e queremos acreditar que “não há nada que por mais vil que seja, não faça pelo menos algum bem”. Será?

Encontramo-nos por aí

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