O ZERO REINA

por PAULO NOVAIS
Professor de Sistemas na Universidade do Minho

Estará a sociedade a chegar ao Ponto Zero? Um povo com uma cultura forte é um Povo Forte e preparado para reconhecer o real valor do ZERO.  

O 0 (zero) é uma abstração/conceito muito interessante que nos nossos dias ganhou uma visibilidade e um protagonismo inesperado. O zero é simultaneamente um número e um algarismo que serve para representar o nulo num sistema de numeração.

Segundo a maioria dos dicionários (que consultei) a palavra zero deriva do francês zéro, do vêneta zero, que vem do Italiano zefiro e que tem origem do árabe ṣafira (vazio), ṣifr (zero).

A sua criação ocorre, aparentemente em simultâneo, em três distintos povos: babilônios, hindus e maias. Inexistente no sistema de numeração romano, a sua introdução na europa ocorre na Idade Média após a adoção do sistema de numeração árabe, promovida por Leonardo Fibonacci (famoso matemático da Idade Média).

A descoberta do zero é comumente referida como uma das maiores invenções do homem e representou na época um paradoxo, por ser difícil de imaginar a quantificação e a representação do inexistente, i.e. do nada.

Existem muitos zeros famosos e/ou fundamentais na nossa vida, dos quais destaco aqui, o ponto de partida da escala de graduação de instrumentos de medição, o grau de temperatura do gelo, o caça japonês “Zero” na segunda guerra mundial, o Zero a Zero do futebol. Não deixa de ser curioso que sendo um substantivo masculino existe um conjunto de expressões associados aos homens, tais como: “ele é um zero”, “um zero à esquerda ”, “estar a zero”, começar de zero”, “ponto zero”.

Estará a sociedade (europeia) a chegar ao Ponto Zero? Parece-me ser uma questão que merece ser analisada. Vejamos. Estamos no ponto zero em termos de relações, não queremos comprometer-nos com ninguém nem com nada. Nunca tivemos um nível de abstenção eleitoral tão alto, nunca a nossa sociedade esteve tão desinteressada, afastada e alheada da política e dos seus atores. Hoje a política faz-se do zero, zero propostas e zero promessas. Vivemos numa sociedade que consome e desperdiça muito e que se preocupa pouco. Não importa o conteúdo, mas sim a forma ou o meio. São bons exemplos deste tipo de situações a popularidade que ganharam os reality show que prometem a fama instantânea e fácil. O mérito é associado a uma boa imagem, uma comunicação simples e leve, e com claro descomprometimento com tudo que implique trabalho e esforço (a génese de algo tangível e concreto). A cultura que sempre foi um baluarte da nossa sociedade vive hoje uma lenta decadência (como afirma Mario Vargas Llosa em “La civilización del espectáculo”). Há o domínio da forma sobre o conteúdo.

Vivemos a era do vazio (como refere Gilles Lipovetsky), sozinhos na multidão, o vazio de conteúdo, das propostas e da moral em certa medida. Tudo é instantâneo e efêmero, sem sabor, desde que se coloque uma capa bonita passa a ter valor. Mas todos sabemos que 0 é zero, i.e. sem valor. Conclusão: vivemos o reinado do valor zero.

Poderá uma sociedade que valoriza o zero, evoluir ou mesmo sobreviver? Partir do zero?

As sociedades não são como computadores que se podem ligar, desligar e recomeçar de novo. Necessitamos com certeza de um novo Renascimento, com a redescoberta e a revalorização das nossas referências culturais e humanistas.

Vem-me à memória uma referência a Friedrich Hölderlin: “Ali, onde reside a dor, está também aquilo que salva”. Romper com este ciclo é possível com um forte investimento na cultura e na sua difusão. Não de uma cultura vazia, mas de uma cultura “forte”, assente nos nossos valores e tradições. Pode não ser fácil, pode dar trabalho e vai necessitar de muito esforço e persistência, mas um povo com uma cultura forte é um Povo Forte e preparado para reconhecer o real valor do ZERO.

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