PELA CIDADE

por WLADIMIR BRITO
Professor de Direito na Universidade do Minho

A minha crónica de hoje é sobre um amigo. O Abílio Capela Dias. Nunca pensei que um dia iria escrever uma nota sobre ele. Mas, quis o destino que assim fosse.

Conheci o Abílio em Coimbra, na Faculdade de Direito, onde fomos Colegas. Jovem cívica e politicamente participativo, mas sempre tão discreto que dele perdi a memória, até o reencontrar em Guimarães nos finais dos anos 70 do século passado.

Fico então a  saber que o Abílio militava no PCP e, para realizar os seus ideais, colocou o seu saber jurídico ao serviço dos trabalhadores e dos sindicatos. Dedicava-se ao Direito do Trabalho, numa fase em que, no mundo jurídico-político, os juristas progressistas lutavam – luta difícil, relembre-se – para afirmar esse direito  e para torná-lo num instrumento jurídico aos serviço dos trabalhadores.

Nessa altura, pleitear nos Tribunais em defesa dos trabalhadores não era tarefa fácil para um Advogado, em especial na muito conservadora sociedade vimaranense dominada por uma patronato – em especial na têxtil – que não aceitava e oferecia até forte resistência à legislação laboral.

Mas, o Abílio, mesmo consciente dessas dificuldades, lutou nessa frente, como Advogado e como militante político. Como Advogado, nos Tribunais de Trabalho (e não só) onde com argumentos jurídicos e com a paciência, seriedade e teimosia com que discutia com os Colegas e Magistrados afirmava o Direito do Trabalho; como político, participava nas lutas pelo reconhecimento da dignidade do trabalho, pela consagração de um novo paradigma iuslaboral e para o reconhecimento de novos direitos aos trabalhadores. Numa e noutra situação, o Abílio agia com a descrição, serenidade, seriedade, honestidade e humildade que sempre o caracterizaram e que sabia conjugar com a persistência e resilência.

Nesse campo, o meu amigo Abílio contribuiu para a construção e afirmação de uma moderna jurisprudência juslaboral.

Como político, Abílio foi sempre fiel e coerente com os seus ideais, que defendia em todas as circunstâncias, servindo sempre desinteressadamente o concelho de Guimarães. Juntos trabalhámos como Deputados locais, numa “coligação” política em que eu representava um grupo de independentes de esquerda e o Abílio o PCP. Muitas foram as discussões tivemos no seu escritório sobre questões locais, mas, por maiores que fossem as divergências, o Abílio não deixava que elas perturbassem a nossa amizade.

Mesmo depois de doente, quando nos encontrávamos, o Abílio revelava que continuava a seguir a situação política nacional e em Guimarães, mesmo sabendo que já não podia intervir.

Apesar de a descrição ser uma das suas principais características, não conseguiu sair discretamente da cena mundana, exactamente porque o acto da sua partida convocou todos os seus amigos para, no  Outono da sua vida que coincidia com o da estação do ano, não para dele se despedirem, mas sim para lhe prestarem merecida  e sentida homenagem.

Foi este o único momento em que o Abílio não conseguiu impor a sua discrição, não por vontade própria, mas por força do exemplo da sua vida. Mas, quando um dia souber dessa homenagem, ai!, como vai ficar sem jeito. Não te zangues connosco, Abílio, pois só te quisemos dizer que não te perdemos, mas que somente deixaste de aparecer por aqui.

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