PORTUGAL EM GRAVIDADE ZERO

Por Carlos Guimarães

Os tempos vizinhos que precedem esta data fazem pensar que Portugal descolou da Europa, não da Europa política e económica, mas da Europa enquanto continente. Fica-se com a sensação que este retângulo de território depositado no canto mais ocidental do velho continente foi projetado para o espaço, vagueando serenamente numa zona de GRAVIDADE ZERO.

A memória da gente importante apagou-se. Quem se deveria lembrar, esqueceu-se e toda a gente está de consciência tranquila, ninguém deve nada a ninguém e a GRAVIDADE disto é ZERO!

A ferrovia está decrépita, as pessoas com passes sociais a preço apelativo apostaram nesta opção de mobilidade (e bem), os comboios arreiam e não chegam, a gente fica apeada nas plataformas, berram uns com os outros, esperam, e mais tarde ou mais cedo seguem viagem. Problema resolvido, amanhã há mais e logo se vê. GRAVIDADE da situação, ZERO.

Ao que parece a população cresceu de forma vertiginosa! nasceram imensas crianças e venderam-se outros tantos carrinhos de bebé! O Metro da capital, atento a esta ocorrência remove inúteis cadeiras onde se sentam pessoas criando espaço para os numerosos carrinhos e este espaço também serve para acumular malas dos turistas. A regra dourada cumpre-se, os turistas primeiro, os nativos depois! Que se cuidem os utilizadores do Metro. Proponho que invistam em meias elásticas para não maltratar as varizes. Isto pode parecer pouco grave, mas na verdade é de GRAVIDADE ZERO.

Três horas da madrugada, hora de levantar, às 4h é preciso guardar vez à porta da Loja do Cidadão para aceder a uma senha que assegura a revalidação do CC para esse dia. Às 9 horas, quando as portas se abrem, a fila (dantes chamava-se bicha) é já interminável. As pessoas entre o sono, o silêncio e o falatório permanecem atentas não vá alguém dar o golpe. Milhares de dias perdidos, improdutivos, para concretizarem um ato que deveria ser tão simples como meter gasolina (nos dias em que existe). A situação assevera-se grave, mas na verdade é de GRAVIDADE ZERO.

Anos de espera para consultas de especialidade hospitalar, centenas de dias em lista de espera cirúrgica para ter direito a um vale de cirurgia com opções de escolha limitadas e localizadas a centenas de quilómetros de distância e muitas horas de viagem. Pergunta-se qual é o plano para solucionar o caos no SNS e acenam-nos com a nova Lei de Bases da Saúde, um longo entretenimento que não resolve coisa nenhuma. Um grave problema que na verdade é de GRAVIDADE ZERO.

Professores, uma classe fundamental em vias de extinção. O estado usa todos os meios para ao seu extermínio maciço. Espancados diariamente por alunos e familiares, agredidos em público, injuriados e injustiçados, aniquilados psicologicamente e exibidos à sociedade e ao mundo como um grupo de malfeitores dispostos a lesar de morte os cofres do estado pelo simples facto de exigirem os seus direitos legais. Usados como marionetas diabólicas para alterar o sentido de voto. Os que podem fugir, não olham para trás e os que chegam à idade de reforma praticamente deixaram de ser gente. Parece muito grave, mas na verdade é de GRAVIDADE ZERO.

Somos um bando de mansos, dispersos e apagados como ovelhas à mercê das mandíbulas do Lobo. Refilamos onde não devemos e se calamo-nos quando deveríamos levantar a voz. Como diz o Zequinha, “é cada um por si e o resto que se F…”. A praia ou a esplanada é melhor do que a mesa de voto e não me venham dizer que a culpa é dos políticos porque os políticos e as políticas são o resultado das nossas escolhas.

Se dependesse de nós, portugueses do séc. XXI, enfrentar o mar oceano para descobrir o novo mundo ficaríamos pela praia entre uns mergulhos e umas sardinhadas, nunca cruzaríamos o horizonte desconhecido. Já fomos um povo grande, mas essa espécie de Sapiens extinguiu-se há uns séculos atrás para dar lugar a um povinho de barriga cheia de direitos e escassos deveres.

Levitamos nesse imenso espaço de GRAVIDADE ZERO… Orgulhosamente sós!

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