Quo vadis país irmão?

Por José João Torrinha,
Advogado e Presidente da Assembleia Municipal de Guimarães

Quando era miúdo, torcia pelo Brasil. Com Portugal quase sempre de fora, a minha equipa muitas vezes vestia de azul e amarelo. Mais do que as fintas de Zico, Sócrates, Éder ou Falcão, era o país irmão que ali estava em jogo, que connosco partilhava séculos de história e uma língua. Por isso puxava pela canarinha (e já agora, pelo Nélson Piquet).

Na minha infância, a cultura brasileira estava um pouco por toda a parte, começando na música que em minha casa ecoava com frequência nas vozes de Simone, Chico Buarque, Maria Bethânia ou Tom Jobim, passando pelas obras de Jorge Amado que, assinadas pelo grande mestre na sua passagem por Guimarães, ornavam as nossas prateleiras e terminando na telenovela que, religiosamente e em família se via logo a seguir ao telejornal. Histórias habitadas por personagens que já eram lá de casa como Sinhozinho Malta, Dona Xepa, Odorico Paraguassu ou Tieta.

Claro que houve sempre aquela sensação de que, no oceano que nos separava, as águas corriam sempre muito mais de lá para cá, do que no sentido inverso. A cultura portuguesa era, em boa medida, desconhecida do povo brasileiro, enquanto que por cá nos entrava pela porta dentro dia sim, dia sim. O certo é que, no geral, a minha geração tinha um carinho muito grande por aquele “país continente” que ajudamos a inventar.

Politicamente, lembro-me do entusiasmo que também por aqui se sentiu com a democratização brasileira, aquando do movimento pelas eleições diretas. Nós que tínhamos há poucos anos derrubado uma ditadura, vibramos quando o povo brasileiro se libertou também ele dos seus algozes.

As décadas seguintes foram ao mesmo tempo entusiasmantes e uma desilusão, assistindo-se a um país que dava saltos enormes na luta contra a pobreza mas que não se conseguia libertar do espetro da corrupção que varria a sociedade brasileira de cima a baixo, da esquerda à direita.

Mas nada, mesmo nada, nos preparou para o que hoje se vê naquele país. No dia em que se votou o impeachment da Presidente Dilma, assisti atónito às declarações de voto num congresso repleto de deputados que anunciavam votar pela destituição por todos os motivos menos aqueles que estavam em causa naquele impeachment. Um deles dedicou o seu voto à memória do Coronel Carlos Ustra, que tinha torturado Dilma aquando da ditadura.

Na altura não fazia ideia quem tinha sido esse militar, mas nos dias seguintes, quando descobri, pensei em como era possível que alguém tivesse exaltado, naquela votação, semelhante personagem.

Pois bem, cerca de dois anos após essa infâmia, essa pessoa foi eleita Presidente do Brasil.

Nos dias que correm, de lá chegam imagens de valas comuns onde se enterram as vítimas da pandemia, entrecortadas por outras onde o Presidente fala que no Brasil a doença não pega, que é uma gripezinha, ou resfriadinho e ainda outras que mostram manifestações de apoio a Bolsonaro onde se integram milícias de apoio ao Presidente, entre muitas outras cenas e ditos que nos arrepiam.

Imagens que a nós, que amamos o Brasil, nos deixam com um nó na garganta e nela perguntas encravadas novamente: como foi possível? Como é possível? Mas foi. Mas é. Que isso nos sirva de lição a todos quando temos a leviandade de pensar que a democracia é um processo definitivamente consolidado e irreversível.

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