Recordar… o Vitória #32

Por Vasco André Rodrigues,
Advogado e fundador do projeto ‘Economia do Golo’

Há momentos memoráveis…

Quem diria que aquele frio 09 de Janeiro de 1996, haveria de marcar a carreira de um jovem treinador do terceiro escalão nacional?

Jogava-se um desafio da Taça de Portugal. De um lado, o campeão nacional, FC Porto, do outro a União de Lamas! No banco de um lado, um homem com título de Sir, Bobby Robson, do outro Pacheco…Jaime Pacheco.

A União faria exibição de compêndio…manietando, completamente, os portistas, obrigando Robson a lançar os pesos pesados, e levando o jogo para o prolongamento!

Aí, no último minuto, o país abriria a boca de espanto. Grande penalidade a favor dos rubro-negros que tinham oportunidade de ouro para abater os Dragões. Esse momento marcante passaria à história, apenas, pela sua existência, já que dele não resultaria golo!

Porém, naquele instante, o destino do jovem treinador estava selado! Pimenta Machado, na ressaca do despedimento de Vítor Oliveira, e com Manuel Machado como técnico interino, não hesitaria. Arriscaria no antigo internacional português e jovem treinador!

O primeiro jogo do novo técnico seria em Faro. Em noite de Domingo, o Vitória seria a equipa que Jaime haveria de definir como “ se não podemos tocar violino, tocaremos bombo”. Assim, o bombo teria um toque troante no último minuto da contenda, quando Dane apontou o último golo do jogo.

O jogo seguinte seria um “cubo de gelo” na ilusão… frente ao Benfica, depois de primeira parte sublime em que o Vitória foi para o intervalo a vencer por duas bolas a zero, a segunda metade seria de pesadelo com os encarnados a apontarem quatro golos. Como consequência, Neno perderia o lugar para Nuno Espírito Santo, o que no final da época, faria com que o jogador fosse cobiçado por inúmeros clubes, acabando, num processo conturbado, por assinar pelo Deportivo.

O Vitória, depois desse jogo, arrancaria para uma segunda volta inebriante… venceria em Alvalade, depois de estar a perder por duas bolas a zero, venceria nas Antas, quebrando um longo record de imbatibilidade dos Dragões, golearia o Marítmo por meia dúzia de golos e… seria campeão da segunda volta, mesmo a perder os dois últimos desafios do campeonato: em casa com o rival Boavista, e em Braga com o avançado Gilmar a actuar como defesa central.

Porém, o esplendor vitoriano era considerado como o de melhor visto nesse ano! Grande parte desses méritos eram destinados ao treinador que surpreendeu tudo e todos ao criar a melhor ala direita da Europa (segundo ele!) composta por José Carlos, Vítor Paneira e Capucho, ao apostar no guarda-redes revelação do campeonato (Nuno), ao lançar o terceiro melhor marcador da prova (Edinho) e a dar asas a um dos médios criativos mais fulgurantes de todas as ligas (Zahovic). Um verdadeiro trabalho de autor!

A temporada seguinte não seria tão fácil, ainda que continuasse na senda do êxito. As perdas tumultuosas de Zahovic e Neno tornaram a equipa menos forte, ainda que tenha escrito uma das mais belas páginas europeias da sua história, ao eliminar o Parma, por aqueles dias um colosso do futebol mais forte da Europa. Os golos de Vítor Paneira e Ricardo Lopes levaram à loucura milhares de vitorianos, que já haviam ficado orgulhosos quando na primeira mão no Ennio Tardini, os Branquinhos haviam perdido por duas bolas a uma e feito jus à táctica apresentada pelo treinador na conferência de imprensa de antevisão à empreitada de “jogar ao ataque, fechadinhos cá trás.”

Apesar disso, a época não teria o fulgor da anterior! Não obstante, no último desafio frente ao SC Braga, treinado por Manuel Cajuda, o Vitória haveria de conseguir mais um apuramento europeu. Para isso, contribuiu o empate caseiro com o eterno rival (que ficaria à frente dos Branquinhos, em quarto lugar) e… o facto do Salgueiros de Carlos Manuel não ter conseguido ganhar em Faro, tendo Abílio desperdiçado uma grande penalidade no último minuto da contenda.

Entravamos na temporada de 1997/98, a última da primeira fase de Pacheco em Guimarães. Duraria pouco, não resistindo o treinador a um ciclo de três jogos sem vencer, ainda que estivesse perto dos lugares cimeiros. Seria substituído por Quinito, que obteria uma das melhores classificações da história do clube (um terceiro lugar) e conseguiria que a defesa dos homens do Rei fosse a menos batida da Europa.

Pacheco, esse, rumaria ao Boavista, onde faria história. Conseguiria levar os axadrezados a um inédito título nacional e a inolvidáveis campanhas europeias.

Haveria de regressar ao Vitória na temporada de 2005/06, com os vitorianos a terem a esperança que o mito de D. Sebastião fosse realidade. Não o seria! Com um plantel construído a conta-gotas, com claros desequilíbrios, com a destruição da base que houvera, na transacta temporada, garantido um apuramento europeu, não conseguiria ter o arranque desejado! Salvar-se-ia o apuramento para a fase de grupos da Liga Europa, após luminosa noite frente ao Wisla, no que terá sido o momento mais feliz da sua segunda passagem pelo Castelo. Partiria com o Vitória a lutar para não descer, dando lugar a Vítor Pontes… o resto da história, infelizmente, já a conhecemos!

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