Recordar… o Vitória #50

Por Vasco André Rodrigues, Advogado e fundador do projeto ‘Economia do Golo’

Nem sempre as primeiras impressões são as que ficam para a eternidade. Temos, sempre, tempo de alterar o que os outros pensam de nós, demonstrar a nossa verdadeira alma e personalidade… revelar-nos.

Tal afirmação poder-se-á aplicar, na sua máxima plenitude, a Romeu, jogador que representou o Vitória entre as temporadas 2001/02 e a 2004/05, sempre com alma de Conquistador, sempre com uma abnegação exemplar.

Porém, a relação de Romeu com os adeptos dos Branquinhos não começou da melhor maneira.

Quem poderá esquecer aquele lance com Lixa, num Sábado diluviano, em que o jogador, na altura a representar o FC Porto, chocou com o, então, menino de ouro vitoriano, causando-lhe uma grave lesão e fazendo com que o inebriante extremo não mais fosse o mesmo?

Este triste momento fez com que, quando o avançado chegasse, proveniente do FC Porto, fosse olhado de lado, com desconfiança, como alguém que jamais se integraria no Exército do Rei.
Puro engano…

Logo na temporada inicial, sob o comando de Augusto Inácio, conquistaria tudo e todos. E que melhor maneira do que o fazer que marcar um golo de “levantar o Afonso Henriques”, frente ao eterno rival Boavista?

Estávamos na oitava jornada e frente a uns axadrezados na crista da onda, a noite vitoriana foi de gala… um golo de cabeça de Ceará abriria as hostilidades. Logo de seguida, jogada sublime na direita, centro para a área e o avançado a aparecer na cara de Ricardo a desviar-lhe a bola de calcanhar… no golo mais belo da temporada, de todos os campeonatos europeus para o canal desportivo Eurosport!

Seria o primeiro de quatro golos de uma temporada que saberia a pouco nas hostes vitorianas, atento o lugar mediano na tabela classificativa no final dessa temporada.

A segunda temporada de Rei ao Peito seria a mais produtiva do avançado. Foram 12 golos num ano inesquecível, em que o Vitória a actuar na casa emprestada de Felgueiras, fruto das obras no D. Afonso Henriques, encantou o país com a qualidade de jogo praticado. Além de Romeu, nomes como Nuno Assis, Pedro Mendes, Ricardo Silva fascinaram o país. O avançado esse, apesar de ser a ponta da lança, era um jogador móvel, capaz de se entender com a genialidade do “ratinho atómico”, com o “talento geométrico” de Pedro Mendes e com todos os demais artistas da equipa. O Vitória acabaria no quarto posto da tabela… no único ano em que tal posição não permitiu o apuramento europeu.

A época seguinte não teria o mesmo êxito. O toque de Midas de Augusto Inácio desaparecia e o Vitória sofreria para se manter na I Liga. Fá-lo-ia com Jorge Jesus ao leme e com muito sofrimento, valendo as quase miraculosas vitórias em casa frente ao eterno rival com golo de Rogério Matias e na Amadora, num cabeceamento de raiva, de Flávio.

Quanto a Romeu, dois escassos golos em duas derrotas, foram um escasso pecúlio para o avançado da equipa. Em abono da verdade, a ditadura dos pontos, o pesadelo dos maus resultados consecutivos (a equipa chegou a estar oito jogos consecutivos sem conhecer o sabor do êxito) e o tenebroso receio da queda no escalão inferior toldaram todos os atletas… como pedir ao avançado da equipa que, sozinho, resolvesse os problemas colectivos?

O milagre ocorreria na última jornada! Apesar da derrota caseira perante o Sporting, uma conjugação de resultados positivos permitiria aos Branquinhos salvarem-se do inferno. Além disso, este jogo teria contornos históricos, pois seria o último com Pimenta Machado a presidir aos destinos do clube.

Seguir-se-ia Vítor Magalhães, que, imediatamente, deu ares de querer revolucionar o clube. Não obstante isso, na primeira época em que foi o líder máximo do clube do Rei, optou por manter o núcleo duro de temporadas anteriores. Entre eles, Romeu, que voltaria a ter papel determinante na equipa. Foram mais 27 jogos e 5 golos numa caminhada que terminou num justo apuramento europeu. Aliás, seria tão importante que um dos golos, no jogo decisivo para esse regresso à alta roda do futebol do Velho Continente, frente ao Boavista seria do avançado que já sentia no peito o coração vitoriano. Seria o seu último golo de branco vestido, numa curiosa antítese com o facto do primeiro também ter sido contra o mesmo rival. Além disso, dois momentos inesquecíveis: o primeiro pela sua beleza irrefutável, o outro por significar um apuramento muito festejado.

No final do jogo despedir-se-ia dos “seus adeptos” em lágrimas! Estando o seu contrato a terminar, não o renovaria, sendo um dos alvos da razia levada a cabo no plantel, juntamente com nomes como Palatsi, Alex, Paulo Turra, Luiz Mário, Alexandre ou Djurdevic.

Era um novo ciclo que se abria e, como viríamos a descobrir, sem o sucesso desejado!

Romeu, esse, rumaria, com Djurdjevic, ao Belenenses, para ambos continuarem as respectivas carreiras. Porém, durante esse período viveria um momento que definiria o seu sentimento vitoriano. Assim, com os Conquistadores a baterem-se como náufragos pela manutenção, deslocar-se-ia a Guimarães para enfrentar o Vitória. No final da primeira parte, beneficiando de um erro do guardião Nilson, seria profissional e colocaria a sua equipa em vantagem. Porém, imediatamente, não se conteve… virou-se para as bancadas, que haviam sido suas, ergueu as mãos e pediu desculpa! Aquele golo poderia ser mais uma pazada nos sonhos de manutenção vitorianas. O Vitória haveria de dar a volta ao texto com golos de Dário e Saganowski, para Rúben Amorim acabar por empatar o prélio, ajudando às preocupações, que haveriam por se confirmar, dos Branquinhos.

Quanto a Romeu, esse seria o último golo da sua carreira…um golo que não festejou pelo facto do coração ter falado mais alto do que a razão! Ainda há dúvidas que Guimarães e o Vitória seduzem os que cá chegam, mas que também sabem esquecer os maus momentos das apresentações?

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