Resiliência, perseverança e esperança

por Rui Armindo Freitas
Economista e Gestor de Empresas

O mês de fevereiro foi o mês de Marte. Uma série de campanhas espaciais de vários países inundaram as notícias, todas elas com nomes fortes, no mínimo inspiradores, como que a motivarem a humanidade sinalizando que melhores tempos virão. Dos EUA foi anunciado o sucesso da Perseverance, perseverança, dos Emirados Árabes Unidos a Hope, esperança, e da China a Tianwen, que traduzido de forma ligeira significa “respostas dos céus”. Estas missões, embora possam ser estranhas a muitos de nós, tal como todas as missões espaciais anteriores, mostram-nos o desconhecido, fazem-nos avançar nas descobertas que nos trazem, mas não menos importante, o caminho para lá chegar leva a engenharia e a tecnologia a novos limites que melhoram a vida da humanidade, em todas as dimensões da nossa vida. Nunca é de mais assinalar que devemos às missões espaciais do século XX coisas tão importantes como as bombas de insulina usadas por tantos que delas necessitam, ou a TAC (tomografia axial computorizada) entre muitos outros pequenos avanços que usamos no dia-a-dia.

Em Portugal, também não gostamos de ficar atrás no uso de palavras fortes e de motivação, e também nós não podíamos deixar passar a oportunidade de rebatizar a bazuca europeia, que poderia ser a grande oportunidade para nos colocar de novo na luta pela competitividade e produtividade, com um nome inspirador, na nossa senda de país de poetas. Assim assistimos ao lançamento do Plano de Recuperação e Resiliência. Ora aqui o que se discute são 14 mil milhões de euros, sim leu bem, mais ou menos o montante que a economia portuguesa perdeu em 2020 fruto do abrandamento que nos trouxe a pandemia. À partida todos pensamos que este pacote de estímulos se destinaria às empresas e famílias, de modo a trazer combatividade a uma economia anémica, cada vez mais estatizada e onde a iniciativa privada é brindada com uma carga fiscal que desencoraja o investimento. Pois bem, de motivador este plano só tem o nome, foi revelado que mais de 60% será destinado a investimento público em áreas públicas, ou seja em investimento que o Estado deveria ter feito nos últimos anos e não fez. Isto é, não é investimento a pensar em exportações, competitividade ou produtividade, é investimento atrasado que nos últimos cinco anos de Geringonça e Partido Socialista não foi realizado, atingindo valores inferiores aos do período da troika. Mas, a este plano, gabo-lhe a franqueza do nome, porque é de facto um plano de recuperação do Estado e que só será possível com a resiliência de todos nós. Resiliência é a única coisa que este plano sugere a todos aqueles que viram a sua actividade reduzida drasticamente com a pandemia e que do Estado pouca ou nenhuma ajuda receberam. Resilência de todos aqueles que receberão menos do que o Estado está disposto a injectar na TAP, uma companhia que já havia desertado a região norte, e agora vemos ter mais apoio sozinha do que toda a economia portuguesa somada terá… Resiliência de todos aqueles que assistem a um país em que cada vez mais o salário mínimo está perto do salário médio… Resiliência a todos nós portugueses que ficamos a saber esta semana que as assimetrias regionais foram diminuídas em Portugal, as diferenças de PIB per capita entre regiões foram diminuídas, não por aumento das que tinham menor PIB per capita mas por perda de rendimento das menos pobres… Mas pergunto, o que mais esperar do socialismo? Resta-nos a Perseverança para aguentar um Estado asfixiante, Esperança que com esforço de todos nós o futuro será melhor, mas por enquanto resta apenas olhar para os céus à procura de respostas.

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